Mais um agente da ditadura militar é “esculachado”

Protestos ganham força em todo o Brasil na busca por justiça em relação aos crimes cometidos nos anos de chumbo. Por Igor Carvalho  Mais uma vez munidos de cartazes, tintas,...

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Protestos ganham força em todo o Brasil na busca por justiça em relação aos crimes cometidos nos anos de chumbo.

Por Igor Carvalho 

Mais uma vez munidos de cartazes, tintas, bandeiras e cânticos, o movimento Levante Popular da Juventude tornou pública a identidade de outro agente da ditadura militar. Maurício Lopes Lima chefiou equipes de investigação na Operação Bandeirantes (Oban) e no Doi-Codi, em São Paulo, e foi alvo do “escracho” ou “esculacho” popular, na segunda-feira (14), no Guarujá, próximo à praia das Astúrias.

Maurício é acusado de comandar a tortura de aproximadamente 20 pessoas, entre elas a presidenta Dilma Rousseff e o Frei Tito. O último relatou, em depoimento escrito clandestinamente na prisão, em 1970: “Fui levado do presídio Tiradentes para a ‘Operação Bandeirantes’, OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: ‘Você agora vai conhecer a sucursal do inferno’. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres”.

Durante o ato, manifestantes distribuíram panfletos para os vizinhos, explicando os crimes cometidos por Lopes. Patrícia Severina, que mora ao lado do prédio de Lopes, estava surpresa. “Eu não sabia. Fico impressionada, não o conheço direito, moro aqui faz 40 anos e é impressionante saber que ele não foi punido.”

Em agosto de 2010, o Ministério Público Federal ingressou com ação civil pública pedindo o afastamento imediato e a perda de cargo público e aposentadoria de Lopes. Porém, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 3º Região extinguiu o processo. Em seu despacho, o juiz federal Santoro Facchini alegou que os “crimes já prescreveram”.

Para Lira Alli, componente do Levante, a Comissão da Verdade, recém-instalada em Brasília, pode ser influenciada pelo apelo popular. “A gente acredita que, para além da verdade, que é essencial, é muito importante que se seja feita justiça, e ela só virá com a luta popular, como ocorreu em outros países da América Latina em que o povo derrubou a anistia”, explicou a militante.

Outras manifestações ocorreu simultaneamente em outros estados. Em Minas Gerais, o médico legista da Polícia Civil, João Bosco Nacif da Silva, responsável por laudos feitos no período da ditadura militar, entre eles o do jovem João Lucas Alves. No laudo, Bosco afirmou que Alves teria se suicidado, sem mencionar o fato de corpo apresentar deformações em consequência das fortes torturas.

Na Bahia, em Feira de Santana, os manifestantes bateram na porta de Dalmar Caribe, cabo do exército que seria responsável pelas mortes de Carlos Lamarca e Zequinha Barreto. Já José Antônio Nogueira Belham foi o alvo no Rio de Janeiro. Ele é identificado no livro A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari, entre as torturas e assassinatos cometidos em sua seção está a do então deputado federal Rubens Paiva. O desembargador aposentado Aquino de Farias Reis era o delegado de plantão na Delegacia Ordem Política e Social (Dops) de Pernambuco, quando o preso político Odijas Carvalho, morreu em consequência de torturas, em 1971, aos 26 anos. No Pará, um grupo do Levante se concentrou em frente ao prédio do Ministério da Fazenda, que emprega dois agentes do período militar, Magno José Borges e Armando Souza Dias.

Confira, nas bancas, a edição 110 da revista Fórum, que traz uma matéria sobre os “doutores da ditadura”, abordando a participação de médicos, como Harry Shibata, durante o regime militar.




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