Uma proposta de exercício e de ética da escuta para quem não é vítima de racismo

. Este texto é dedicado à família Miguel. . À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e...

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Este texto é dedicado à família Miguel.

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À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e Twitter, algumas discussões sobre racismo brasileiro que, apesar de sempre saudáveis, com frequência repetem uma dinâmica bastante comum no país. Aprendi, com os anos, que essa dinâmica tem que ser descrita com cuidado, para que a própria descrição não termine reforçando-a. Eu me refiro à dinâmica estudada pela Ana nesse texto magistral, Não é sobre você que devemos falar.

Trata-se de um dos maiores obstáculos que se enfrenta no combate ao racismo brasileiro, e ele pode ser resumido mais ou menos nos seguintes termos. Os brancos brasileiros tendemos a acreditar sinceramente, a crer piamente, a estar convictos, de que sabemos o que é o racismo sem jamais termos feito o exercício de escutar suas vítimas. A dinâmica se agrava pelo fato extraordinário e mui curioso, bastante próprio do Brasil, de que 86% dos brancos brasileiros afirmam não ter preconceito contra negros, mas nesse mesmíssimo universo, 92% reconhecem que existe racismo no Brasil.

Conclusão: o branco brasileiro se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, racismo ao qual, curiosamente, ele se crê imune.  É um caso inédito na história da sociologia. Ao mesmo tempo em que se crê imune, o branco brasileiro tende a ter, sobre o fenômeno, uma opinião bastante convicta, sem jamais ter tomado a iniciativa de tentar escutar um negro sobre o que é ser vítima de racismo. O branco não vê, nessa atitude, nenhuma herança racista.

O resultado é extraordinário: praticamente todos os brancos brasileiros reconhecem que há racismo no país, praticamente todos eles dizem que não são parte dele, e mantêm ambas opiniões sem jamais ter feito o esforço metódico, sistemático, de ouvir as vítimas do racismo. Não se costuma, no Brasil, ver a contradição entre essas três coisas. Coisa mais incrível ainda é que, ao serem perguntados se conhecem alguma pessoa racista, os entrevistados, em sua grande maioria, apontavam pais, irmãos, tios, amigos ou namorados. Ou seja, o ambiente ao redor está inteirinho contaminado de racismo, só eu que não!

O racismo brasileiro, que está em todos os lugares mas nunca em nós mesmos, produz, a partir daí, um segundo efeito bastante perverso: conversar sobre a discriminação racial, sobre a segregação e a exclusão raciais, e sobre a luta dos afrobrasileiros por cidadania tende a provocar, na maioria da população branca brasileira, um visível desconforto, um claríssimo mal estar, um mal disfarçado desejo de que a conversa termine logo. É como se o racismo não existisse até o momento em que passamos a conversar sobre ele.

No caso da discussão sobre as cotas, por exemplo, eu ouvi, algumas dezenas de vezes, a reclamação de brancos brasileiros de que não dava pra discutir aquilo porque não se sentiam confortáveis para se oporem a essas medidas de reparação sem serem chamados de racistas. A apreensão é bizarríssima, porque estou nesse debate há mais de uma década e jamais vi um ativista do movimento negro, um militante pró-cotas, um representante de organização afrobrasileira chamar alguém de racista porque se opõe às cotas. Na verdade, eu nunca vi essa acusação ser feita nesses termos “ah, se você é contra as cotas, você é racista”. Mas esse é o fantasma evocado uma e outra vez para terminar a conversa. Se algum marciano pousasse no Brasil, sem conhecimento do contexto, e escutasse tudo isso, ele provavelmente concluiria que o grande problema racial brasileiro é que muitos brancos bem-intencionados estão sendo chamados de racistas.

Vi gente de esquerda (esquerda mesmo) me escrever esta semana dizendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?” A angústia é genuína e o fato de que ela seja expressa assim, sem a menor consciência de que talvez ela tenha algo a ver com o racismo, só mostra como é longo o caminho que temos que andar. São 386 anos de escravidão. Décadas e décadas de violência policial racista e exclusão. 512 anos de discriminação. O movimento negro decidiu que queria essa vitória, essa conquista: as cotas. Elas foram implantadas. Os resultados são melhores do que os esperados: a evasão dos cotistas é menor que a dos não cotistas e suas notas são iguais ou melhores. O Supremo Tribunal Federal validou a constitucionalidade do projeto. E há branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escrevendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?”, como se ela fosse contraditória com outras formas, como se ela tivesse que ser a melhor para ser eficaz. Pior de tudo, o branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escreve isso e não vê na frase nenhuma herança racista.

O remédio para se combater esse fenômeno só pode ser um: desenvolver uma ética da escuta. E é com esse chamado que eu termino, para que você realize um exercício que venho realizando há duas décadas: se você é um branco brasileiro, seja lá de que origem for, que tal tentar procurar, na sua cidade, ao longo do próximos meses, cinquenta cidadãos afrobrasileiros? Pergunte a eles sobre sua experiência. Concentre-se em ouvir. É a experiência deles que importa aqui. Não é sobre você que devemos falar. Pergunte, por exemplo, como é andar de noite por uma metrópole brasileira sendo negro. Pergunte se ele/ela já foi objeto de revista policial arbitrária. Pergunte se eles já foram agredidos com epítetos raciais. Pergunte se já foram barrados em algum lugar sem razão aparente. Pergunte se já foram interpelados ou olhados como se não tivessem o direito de estar onde estão. Pergunte se já viram parentes serem humilhados por causa da cor da pele. Faça estas e outras muitas perguntas possíveis (por exemplo, sobre a experiência de somente ver garis, porteiros e flanelinhas parecidos com você, enquanto seus amigos brancos veem médicos, advogados e engenheiros parecidos com eles). Leve em conta, neste tipo de exercício, que se você, branco, estiver conversando com um negro que lhe é subordinado, há uma possibilidade de que, dependendo de como a pergunta for feita, ele diga o que você quer ou precisa ouvir, por falta de confiança, por falta de costume, pela dor e pela humilhação envolvidas, pelos anos todos em que foi quase proibido de falar sobre o assunto (já há, inclusive, estudos acadêmicos sobre esse fenômeno). Lembre-se que o racismo é assunto delicado, mesmo no interior de famílias negras, e a conversa sobre ele, envolvendo negros e brancos, uma grande novidade no Brasil. Paute sua sensibilidade a partir desses fatos.

Ouça, ouça, ouça. Concentre-se na experiência deles, não na sua. Depois que concluir esse experimento, com cinquenta co-cidadãos seus, volte aqui e me conte. Se você estiver disposto a escrever um texto sobre a experiência, eu o publico na Revista Fórum.



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31 comments

  1. Raquel Faria Responder

    Fantástica iniciativa, a partir desse caminho acredito ser possível o diálogo,pois se trata de um exercício de empatia e não simplesmente simpatia.

  2. Marco Túlio Rocha Responder

    Prezado Idelber,

    sou filho de um preto com uma morena, quase branca. Minha família paterna é de pretos e de quase pretos. Garanto-lhe que sempre escutei o que pretos e quase-pretos têm a dizer sobre tudo o que quiseram falar. Chamar de nego ou de nega, na minha família, sempre foi uma forma de tratamento carinhosa. “Negão” é como um de meus primos mais queridos sempre foi chamado. Meu pai ascendeu socialmente, formando-se em Direito e dedicando-se à construção civil. Algumas vezes sofreu com o preconceito, mas sempre soube vencê-lo. O meio jurídico é repleto de pretos bem sucedidos. A minha experiência como filho de preto “bem sucedido” é no sentido de que o preconceito social no Brasil é maior do que o racial.
    Ninguém nega a existência de preconceito racial no Brasil. O que se discute é se o sistema de cotas raciais é o melhor modo de superá-lo. Eu e meus parentes pretos achamos que não.
    Acredito que se os pretos ouvidos não forem somente os engajados, a “ética da escuta” não resolverá a questão em favor das cotas raciais.

      1. mabel dias Responder

        olá idelber! sou assessora de comunicação da bamidelê e gostaria de pedir sua autorização para publicação deste texto seu em uma cartilha que estamos produzindo. ela não terá fins lucrativos.
        aguardo seu contato. abraços. Mabel Dias

        1. Idelber Responder

          Claro que sim, Mabel. Tudo aqui pode ser copiado. É só indicar quem é o autor e pronto.

    1. Carina Responder

      Duvido.

      1. Idelber Responder

        Carina, conhece a expressão “siga o link”? Pois é. Essa linha azul aí? Tá vendo? Ela é um link. Clicando nele, você é levada a uma pesquisa do Data Senado, que fundamenta o que está dito.

      2. aiaiai Responder

        E, Carina, aproveita e lê essa parte:

        “Entre aqueles que disseram ter renda superior a 10 salários
        mínimos, a maioria desaprova a reserva de vagas para candidatos negros e indígenas: 70% e 53%, respectivamente,
        manifestaram-se contra às cotas para esses públicos.”

        Talvez você se identifique.

    2. Eneraldo Carneiro Responder

      Acho que a idéia não é fazer uma estatística sobre quem é a favor ou contra as cotas. Cotas ou não cotas é uma questão conjuntural. O chamado do Idelber é bem mais profundo do que isso.

    3. Ana Maria Gonçalves Responder

      Caro Marco,

      Permita-me discordar: o que se discute (ou o que se deveria discutir), mesmo quando se discute cota, mesmo quando se foge do assunto por uma tangente mais “confortável”, é o racismo. Se não houvesse racismo, as cotas não seriam necessárias. Por isso, acho que os que são contra as cotas deveriam ser os primeiros abertos ao diálogo, à vontade de ir à raiz do problema.

      Chamar-se de nego, nega, negrão num contexto familiar ou entre amigos é bem diferente e tem outro peso de quando as mesmas palavras são usadas com o intuito de ofender. Acontecem os dois casos, e um não anula o outro. E o fato de o seu pai ter sofrido preconceito e sabido vencê-lo, diz respeito à experiência única dele, que pode ter envolvido vários fatores, como, por exemplo, uma boa estrutura familiar. Nem todos têm essa sorte, e é muito complicado basear-se numa experiência específica, que nem de perto é representativa da experiência coletiva, para a formulação de um “caminho-padrão” a ser seguido por todos os outros. Sendo assim, se eu fosse contra as cotas porque, sendo negra, não precisei de cota para ascender socialmente, posso também ser contra as creches, porque posso pagar uma babá, ou contra a educação pública, porque posso pagar escola particular, ou contra o transporte público, porque posso ter um carro. O fato de eu não ter precisado ou não vir a precisar, diz respeito à minha trajetória em particular. Todas as outras, inclusive dentro da minha família, são diferentes da minha, e assim devem ser consideradas.

      É bem interessante, no nosso caso de “negros bem sucedidos”, ir até universidades que adotam o sistema e conversar com alunos cotistas (sim, eu já fiz). Conhecer a história deles e cruzar as informações com o histórico racial do país fará todo sentido. Você vai entender que, lá no passado deles, o fato de um bisavô, por exemplo, ter sido impedido de ocupar um cargo, ou ter tido negada a possibilidade de estudar, fará toda diferença na trajetória do avô que, consequentemente afetará a do pai e chegará até ele. É o tal do capital social e/ou cultural, que se acumula ou se degrada ao longo do histórico individual ou familiar de cada um, e que é determinante na vida de todo mundo, afetando, inclusive, de maneira diversa diferentes membros de uma mesma geração familiar, como irmãos ou primos. Por isso, faça o exercício de olhar para além do seu ambiente familiar. Nós não somos regra, Marco, somos exceção. E o fato de termos fugido à estatística não significa que seja tão fácil assim (“ninguém sabe o duro que eu dei”), e muito menos que todos os outros conseguirão sem a ajuda que lhes é devida e justa, e que não tornará, de modo algum, a trajetória deles menos respeitada e menos digna do que a nossa. Apenas diferente. Afinal, se não precisamos, “não é sobre nós que devemos falar”, mas sobre as vidas dos que são atingidos diretamente pelo assunto do qual falamos.

      Um abraço,

      1. Adib Responder

        Minha nossa. E quem disse que caixa de comentários não valia a pena? Obrigado, Ana Maria.

    4. Diego Soares Responder

      Concordo com Marco Túlio Rocha.

      Acho que o preconceito no Brasil, e no MUNDO, é mais social do que racial.

      Na nossa cultura do consumismo, estão dentro os que consumem, fora os que não.

      Por razões históricas, no Brasil acontece de a maior parte dos que estão de fora do consumismo serem negros.

      Tenho minhas dúvidas se negros que ostentam os símbolos do poder econômico, sofrem preconceito pela cor de sua pele.

      No resto do mundo é a mesma coisa, só que em cada lugar o “negro” é de uma etnia.

      Na Alemanha, onde moro, os islâmicos sofrem esse preconceito, de uma maneira generalisada. No entanto, percebo mesmo aqui, que mesmo os alemães brancos porém com insígnias da pobreza e falta de poder consumista TAMBÉM sofrem o mesmo preconceito.

      Esses são os meus 5 centavos para adicionar à discussão.

      1. Ana Maria Gonçalves Responder

        Caro Diego,
        Esse vídeo deve ajudar a sanar sua dúvida, sendo, inclusive, muito mais comum do que se pensa:

        http://www.youtube.com/watch?v=375sS13XAT0&feature=fvsr

        Seria interessante assistir ao documentário inteiro – Café com Leite (água e azeite?) – , mas como sei que muita gente tem preguiça ou rejeição ao assunto, destaco, por exemplo, o depoimento de Zezé Motta, em 1’15” – “Aqui mesmo em São Paulo, eu tive um comercial de uma loja de tecidos, que eu fiz as fotos para o outdoor. O cliente me pagou e não pôs na rua. A agência me escolheu e o cliente não aceitou, alegando que a clientela da loja dele era de classe média, e não iria aceitar sugestões de uma negra”.

        Esse caso é emblemático porque o cliente deve ter pesquisas informando os gostos e hábitos da clientela classe média e, provavelmente, branca. Eu consideraria Zezé Motta classe alta, portanto, acima da clientela-alvo que, mesmo abaixo, não “iria aceitar sugestões de uma negra”. Zezé Motta é conhecida, e ninguém a confundiria com uma atriz negra e pobre fazendo papel de rica ou classe média. É preconceito de classe ou de cor?

        Pergunte para atores ou modelos negros, e você vai achar vários desses exemplos…

      2. André Responder

        A proposta do Idelber é justamente essa, pergunte aos negros (ricos e pobres) e tire suas dúvidas.

  3. Alamir Corrêa Responder

    Prezado Prof. Avelar,

    O seu texto propõe uma ideia interessante sem dúvida. Vou complicar um pouco mais a experiência – quem não sofreu discriminação que levante a primeira pedra. Há racismo sim, mas esse racismo não se limita à questão da cor, é mais amplo e mais tristonho, pois vários se sentem humilhados por qualquer diferença e reagem verbal e fisicamente com violência a tal humilhação por entre os dentes que seja. O discurso da igualdade é o mais perverso, pois percebo que essa igualdade só ocorre quando o outro concorda com a voz que a defende; as diferenças são o primeiro e verdadeiro obstáculo para outro racismo e não a semente do respeito.
    A falta da experiência do outro (aquele que talvez se assuma como negro e que vislumbra exemplos inferiores como espelho) torna alguém racista? Defendo cotas raciais há mais de trinta anos, mesmo que muita gente me olhe atravessado; para mim, importa que haja algum tipo de equilíbrio “in the long run”, daqui a oitenta ou cem anos, embora haja predições de que todos seremos mulatos/mestiços em 2120. A sua bem apropriada ética da escuta merece louvor, mas deve servir (no meu pequeno entendimento) para uma ética que vá privilegiar a escuta de todos que são diferentes daquele que escuta. A democracia brasileira ainda não saiu das primeiras fraldas, lhe falta o diálogo e lhe sobram bandeiras de afirmação positivada (dá-lhe Comte) que excluem imediatamente qualquer um que pense diferente. E aí sugiro: que todos (os excluídos também) escutem as razões e emoções, sem armas… talvez assim o diálogo surja e sejamos finalmente cidadãos de um mesmo país.

  4. André Responder

    Achar 50 negros na faculdade de engenharia em que dou aula, ou no bairro de classe média que eu moro? Pode ser 2,5 negros (2 negros e 1 pardo)?
    PS: Desculpe a brincadeira num assunto sério, mas o que vivemos no Brasil não é discriminação apenas, é um apartheid.

    1. Idelber Responder

      Claro, André, parte do exercício é esse mesmo. Procurar e procurar e dar-se conta de que … pô, metade da população brasileira é afrodescendente mas aqui onde eu transito só tem branco! Parte do exercício é pegar o buzum e ir atrás mesmo.

  5. Amanditas Responder

    Empatia. Falta isso em diversas frentes: no feminismo, nas discussões LGBT, nas discussões sociais e econômicas…

  6. marcos nunes Responder

    É como diz o brasileiro “não racista”: “Eu não sou racista! Tenho ATÉ alguns amigos pretos!”

  7. vânia Responder

    Em primeiro lugar gostaria de dizer que esse texto chegou até mim em boa hora, quando eu refletia sobre uma necessidade de diálogo pleno entre os grupos minoritários e os dirigentes. Há uma produção injusta de discusso onde só um grupo é ouvido e a voz de um grande contingente é oprimida ou talvez não isso, mas se é ouvido não é escutado, o que é diferente. A importância de escutar a voz de quem é realmente negro nas decisões legislativas com relação ao racismo é imprescindível com muita certeza. Eu pessoalmente tenho me envolvido nessas preocupações. Sou filha de uma senhora de pele de clara que, analfabeta, compreendia as noções de etnia melhor do que muitos colegas meus de faculdade. Ela dizia: “o Sarará é que é o negro de verdade”. Ela dizia que se eu ou uma de minhas irmãs tivessem um filhinho preto ela não pegaria no colo. O meu pai é preto filho de índia com negro e viveu numa fazenda escondida, uma terra sem fertilidade, onde trabalhava pagando aluguel da própria terra até poder comprar sua casa. Não estamos nenhum da família passando fome e somos donos de nossa vontade, ao menos. Mas diante de tudo isso, a minha irmã crê que o racismo no Brasil é uma questão sem importância, que não merece discussão pois pode aumentar a rebeldia dos negros e pobres e a coisa se reverter. Ela alega que o preconceito social no brasil tem muito mais relevância. Eu sei da relevância do lugar social do cidadão e o poder que o dinheiro tem nesse sistema capitalista que não foi instalado por um negro, aliás. Mas o que sempre vejo é que as pessoas precisam mudar de assunto, como se é para não haver guerra. O que está sendo evitado com tudo isso é o diálogo. Se não houver diálogo numa sociedade onde o negro está ascendendo intelectualmente e percebendo seu lugar de desvantagem por mais que corra atrás de progresso haverá sempre uma bomba escondida nos corações. Tem voz calada. Iso nunca deu certo. Sou a favor das cotas que me beneficiou e creio que mesmo que não me beneficiassem eu ainda assim seria.

  8. Ramiro Conceição Responder

    Idelber, excelente proposta. Vou mais além:

    1) Quem tem religião deve escutar efetivamente um ateu a explicar a sua posição;
    2) Quem é ateu deve escutar efetivamente um religioso a explicar a sua posição;
    3) Todo homem deve escutar efetivamente toda mulher a explicar o porquê dela se sentir descriminada;
    4) Toda mulher deve escutar efetivamente todo o homem a explicar o porquê dele estar tão inseguro diante da nova mulher que a cada dia se apresenta;
    5) Todo homem ou toda mulher hetero deve efetivamente escutar todo ser homoafetivo a explicar o porquê de sua sadia existência afetiva; e […] etc.

    Creio que tais atitudes afirmativas resultariam em cidadãos mais completos, efetivos defensores da democracia, no mais amplo sentido do termo; ou seja, tais exercícios de escutar EFETIVAMENTE O OUTRO, me parece ser a melhor maneira, dentro da existência humana, de aprender a conviver com o diferente, com a complexa diversidade do processo vital, onde somos sujeitos mas, também, objetos diretos e indiretos e etc.
    Por que não aprender toda a gramática cósmica que a todo instante se apresenta? Para as gerações futuras, tal exercício deveria ser efetivado o mais cedo possível lá, no primeiro banco da escola, onde se aprende a nomear as primeiras coisas.
    Estaria tudo resolvido? É óbvio que não. Pois padecemos de uma distorcida pedagogia aprendida, por séculos, que sempre nos ensinou que há seres superiores e inferiores; mas que, agora, como estamos carecas de saber, principalmente depois de Marx, não passa de uma ideologia de uma elite que procura a qualquer custo construir e deter a sua hegemonia de privilégios econômico-sociais, conseguida por criativos processos de rapinagem, dentro de cada específica condição histórica.
    No fundo, no fundo, como já foi dito, não há nada de novo sob o sol do coração humano. Por outro lado, no fundo, no fundo, como também já foi dito, e vai continuar a ser dito pela ciência, pela tecnologia e, principalmente, pela arte que é impossível não haver mudanças – tanto no micro como no macro do existir.
    Seremos felizes? Creio que não. Estaremos somente mais aptos a aceitar a nossa condição de seres inacabados, dentro de um processo irreversível que denominamos, desde de Darwin: evolução.
    Parece pouco, né? Mas não é. Somos uma das muitas espécies de consciência do Universo, que não é tacanho a ponto de distribuir privilégios: a segunda lei da termodinâmica, que explica o porquê de um processo irreversível, espontâneo, ocorrer num sentido, mas não ao contrário, é válida em todos os recantos estelares por nós conhecidos – até este momento.
    Parafraseando Rilke: não nos iludamos; na profundidade de tudo – há leis… E tais regem mudanças: tomara que na direção da esperança. Por ser religioso, mas não difusor de qualquer religião, gostaria de deixar, aqui, um poema…
    .
    .
    BARCOS
    by Ramiro Conceição

    .
    Nas praias do Brasil,
    barcos são patéticos.
    .
    A ESPERANÇA
    está de papo pro ar.
    .
    A LIBERDADE,
    no quebra-mar,
    está prenha
    de peixes e
    de homens:
    aqueles do mar, ao ar,
    estão mortos; aqueles
    do ar, ao mar, têm
    saudade da cidade.
    .
    O TRABALHO
    ronca de bruços
    debaixo do coqueiro,
    que samba e balança
    sob um batuque
    dum partido-alto.
    .
    Todavia,
    O PRESIDENTE
    foi quase a pique.
    .
    Naufragou
    o SENADO.
    .
    A CÂMARA
    naufragou.
    .
    A JUSTIÇA
    tá à deriva…
    .
    Digna, a DEMOCRACIA BRASILEIRA
    tenta bravamente voltar à terra firme…
    .
    Enquanto o SINISTRO se prepara continuamente
    ao sacrifício de seres… potencialmente livres.
    No meio da ventania,
    ROMEU e JULIETA
    se debatem nos rochedos…
    .
    Enquanto DEUS desacreditado
    parte pro além-mar… com medo.
    .
    Porém quem vem
    lá… no horizonte,
    em brincadeiras?
    .
    Ah… sempre eles!
    Os ARTISTAS a voar
    em suas nadadeiras…

    1. Ramiro Conceição Responder

      ASAS DO BURRINHO
      by Ramiro Conceição
      .
      Ultimamente, estou a exercitar
      as asas do meu burrinho
      e a lembrar, das patas, à minha águia.
      Afinal – existir é entrelaçar talentos.
      .
      BURRINHO PRESO
      by Ramiro Conceição
      .
      Amarrei o meu burrinho
      numa coluna do infinito
      pra que ele não voasse.

      Na caixa de fósforos,
      armazenei o mar pra
      que ele não secasse.

      Com a libélula surfei o vento
      e a deixei lá, no céu, no varal
      onde pendurado… fica o sol.
      .
      BURRINHO SOLTO
      by Ramiro Conceição
      .
      O segredo de todo inventor
      é soltar o burrinho voador.

      Existe invenção pro bem e pro mal
      mas, por favor, nada tem isso a ver
      com esse burrinho… trabalhador.

      A inocência sempre cria.
      A nossa historia malicia.

  9. Pesquise antes Responder

    [ Os brancos brasileiros tendemos a acreditar sinceramente, a crer piamente, a estar convictos, de que sabemos o que é o racismo sem jamais termos feito o exercício de escutar suas vítimas. A dinâmica se agrava pelo fato extraordinário e mui curioso, bastante próprio do Brasil, de que 86% dos brancos brasileiros afirmam não ter preconceito contra negros, mas nesse mesmíssimo universo, 92% reconhecem que existe racismo no Brasil. ]

    Nas minhas pesquisas isso é fato, os que atuam por métodos racista pouco se esquadras como brancos, mas gente que ascendeu até se valendo dos métodos racistas e agora os alimentam.

  10. José Luiz de França Responder

    Interessante reflexão e sugestão. Mas saibamos que não somos educados para a escuta do outro (muito menos do outro diferente de mim: negro, índio, mendicante…). Todo mundo quer falar, ensinar, mandar etc, ser o foco das relações. Como “desfocar”? Escutar verdadeiramente o outro? O outro em primeiro lugar. É um longo caminho. A sociedade atual não está disposta a trilhá-lo.
    Acredito, mesmo assim, que o “exercício da escuta” daria uma outra visão da realidade. Tudo isso resume-se na ética.

    José Luiz de França

  11. Felipe Responder

    Idelber, outro dia, conversando com um colega, ele criticou o modo como as cotas foram implantadas e pregou uma espécie de “isonomia”. Um exemplo com dados fictícios: se 80% dos estudantes de ensino médio brasileiro são de escola pública, então a cota universitária para escolas públicas deveria ser de 80% – e se 70% dos estudantes de escola públicas são negros e pardos, então 70% desses 80% de cota para escolas públicas são reservados a negros e pardos. Isso me pareceu uma proposta interessante. O que acha?

    1. Carlos Responder

      Felipe, eu sou branco (no Brasil; nos EUA sou “latino”, na Europa do Norte sou “outros”) e estudei em escola particular, mas sou canhoto. E se descobrirmos que os canhotos estao subrepresentados na universidade? Vamos dar uma cota de 20% pros canhotos? E no caso dos ruivos? Também verificaremos se estão corretamente representados, na mesma proporção de sua representatividade na população em geral? E mais: deveríamos criar uma cota invertida para orientais, uma cota máxima, dado que estão obviamente sobrerrepresentados?

      A resposta é não, obviamente, mas a pergunta que devemos nos fazer é por que isso é tão óbvio. E a resposta é que a cota só faz sentido para corrigir uma distorção que tenha ela própria sentido. É preciso que haja negros na universidade, e os há em quantidade muito baixa. Então criamos cotas pra negros, *temporariamente*, na esperança de que, com isso, na próxima geração não precisemos mais delas. Da mesma forma, espero que em 30 anos o avanço na educação pública nos permita retirar as cotas para escola pública.

      A cota existe para corrigir uma distorção (a terrível subrepresentação dos negros na elite brasileira, com efeitos perversos sobre toda a população), e não para chancelá-la, fatiando a sociedade em subgrupos raciais ou sociais – que são, como sabemos, arbitrariamente definidos – e garantir “representantes” seus na elite. Acredito que a cota é necessária não por ser a solução ideal, e sim apesar de seus males (é terrível ter que decidir se um estudante é “negro o suficiente” ou “pobre o suficiente”). Isso porque infelizmente a solução ideal (tornar o ensino público competitivo com o ensino privado) toma mais tempo do que queremos esperar. Mas a cota não deve de forma nenhuma ser vista como uma alternativa a essa melhoria fundamental e urgente. Acredito que essa ideia de “proporcionalidade” arrisca consolidar, em vez de corrigir, o problema.

      (Que, por sinal, é um problema localizado e não estrutural. Não devemos ter ilusões sobre o que estamos fazendo. Em uma geração, o que farão esses jovens brasileiros negros, filhos de cotistas aos quais estamos dando oportunidades? Em sua maioria, viajarão a Miami pra visitar a Disney, e irão a Paris pra comprar o enxoval de casamento. Não há nenhuma superioridade moral inata que os fará, negros e pobres, serem diferentes da elite à qual os estamos incorporando. Conheço muita gente que nasceu em família pobre, ganhou dinheiro e reproduz exatamente – normalmente, com menos pudores – o consumismo e a valorização do superficial que gostamos de criticar na elite. As cotas são uma política pontual com um objetivo pontual. O resultado será uma elite mais plural, mas que continuará sendo elite.)

      1. Felipe Responder

        Verdade.

        “Em uma geração, o que farão esses jovens brasileiros negros, filhos de cotistas aos quais estamos dando oportunidades? Em sua maioria, viajarão a Miami pra visitar a Disney, e irão a Paris pra comprar o enxoval de casamento.”

        Como disse o personagem do Jack Nicholson naquele filme clássico sobre a Revolução Russa, “Reds”: “a maioria dos pobres não quer mudança social. Eles querem ficar ricos para poder agir exatamente como os patrões de hoje. As pessoas não querem revolução, elas querem mais dinheiro”.

  12. Pedro Andrade Responder

    É preciso derrubar a falácia de que cotas sociais atingem o mesmo fim de cotas raciais. É preciso fazer essa desvinculação, pois o que se vê na nossa sociedade é que os negros ricos, que frequentam os mesmo locais da elite branca, são os que mais sofrem discriminação racial, são os mais humilhados pelo horror do racismo. A frase mais comum do racista é aquela que visa demarcar territórios, que quer mostrar que aquele lugar não pertence a um cidadão “de segunda classe”. Um cidadão negro em um restaurante de elite branca causa muito mais desconforto a ela do que aquele cidadão negro que transita por ambientes marginalizados e escondidos dos olhos racista, pelos elevadores de serviço da vida, que pega o ônibus na rodoviária, longe dos aeroportos. Ou seja, causa menos desconforto à elite branca aquele negro que conhece o “seu lugar”. Eu não consigo vislumbrar situação mais dolorosa do que perceber, anos depois, lutas e lutas mais tarde, quando enfim se alcança uma suposta ‘igualdade social’, vencidas todas as dificuldades do racismo institucionalizado, que você nunca será aceito por sua cor e por toda a “raça” (culturalmente falando) que você carrega.
    Assim, as cotas têm que ser raciais mesmo. Há de se formar uma elite negra, sob pena de sermos sempre esse país mesquinho, um Estado sem nação, dividido e sem voz que fale a verdade dos povos que compõem esse país.

  13. Ramiro Conceição Responder

    SOLIPSISMO
    by Ramiro Conceição

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    Descobri, em minhas andanças literárias, uma estranha e nebulosa palavra – solipsismo; que quer dizer, filosoficamente: “eu” e somente “eu” com minhas experiências são reais. Uau! Logo, você, você e você são partes do meu imaginário… Uau!
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    Porém – pera aí! Então “eu” também sou um objeto solipsista, fruto do imaginário de vocês? Ops! Não concordo! Meu umbigo é mais real que os seus, solipsistas. Vejam bem…
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    Sou branco. Por séculos, meus antepassados estudaram nas melhores escolas. Meu bisavô, meu avô e meu pai sempre foram cafeicultores, posteriormente industriais… Sempre estiveram a ditar as normas dessa nossa República. Desde sempre fomos, somos e seremos os doutores (sem doutorado) os nossos ditos, e diplomados, advogados, jornalistas e publicitários.
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    Aliás, sempre comemos histórica e prazerosamente as gostosas das suas ditas mulheres, não é verdade? Vocês que eram pretos, ou índios, passaram a mulatos, cafuzos, caboclos: essa cor acobreada dessa nova raça meridional que, claramente, é devida a nós que, ironicamente, somos batizados, por vocês, de branquelos.
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    Então, que catzo é esse negócio de cotas para estudar em nossas melhores escolas? Que troço é esse de afirmar cientificamente que não existem raças?
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    Vocês nunca devem esquecer que a escola é uma instituição criada, planejada e desenvolvida pra nós, e por nós, brancos – tão caridosos. Afinal, distribuímos pedaços da nossa renda nos cruzamentos, quando um de vocês miseráveis, sem qualquer educação, vêm, enchendo saco, pedir trocados.
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    Pô, será que vocês não compreendem? Pô, não dá pra descontar no imposto de renda!, pois não existe nota fiscal, legal, associada a miseráveis! Pô, tô cansado de tanta ingratidão, assalto, sequestro e injustiça.
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    Viva o solipsimo de nossa classe!
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    Construamos redomas imobiliárias à oferta e à demanda desse mercado – em crescimento. Sejamos empreendedores competitivos!
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    O resto? Que se foda! Não estaremos aqui. O que importa é o solipsismo: o nosso presente absoluto!

    1. Ramiro Conceição Responder

      Errei (desculpem-me…).
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      No primeiro parágrafo, onde se lê ‘ “eu” e somente “eu” com minhas experiências são reais” ’ ficou confusa e, creio, com erro de concordância. Então, por favor, que se leia: “eu”, e somente “eu”, e as minhas experiências são as faces reais.
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      PS- Espero sinceramente que fique melhor. Tentei. A essência do texto é a seguinte: o solipsismo social, isto é, a ideologia de uma elite hegemônica sobre a sociedade civil, é elevar o narcisismo e a onipotência, dessa elite, ao estágio de paroxismo.

  14. Eduardo Pessoa Responder

    Idelber e amigos,

    Sou leitor, negro, e sempre acompanho as matérias deste blogs (e de tantos outros). Taí meu twitter para quem tem dúvidas: @eduardo__pessoa.

    Pela primeira vez, vou deixar meu comentário aqui nesse espaço. Vamos partir do começo. Analisando sob o prisma jurídico, é consenso de que haja isonomia, isto é, igualdade perante a lei, entre brancos e negros.

    Essa previsão está explicitamente disposta na Constituição Federal de 1988, no caput do Art. 5º. De igual modo, a nossa carta constitucional garante direito a educação, saúde e trabalho, independente de discriminação.

    A respeito da condição de pobreza, que muitas pessoas padecem, o Governo Federal vem combatendo de forma veemente, por intermédio de programas como o Brasil sem Miséria, o Bolsa-Família e o PRONATEC (porta de saída do Bolsa-Família). Os resultados tem sido fantásticos.

    Também cabe um adendo em relação às pessoas dotadas de capacidade e força de vontade extraordinárias, que mesmo sem programas governamentais, conseguem vencer na vida, através de muita luta e suor. Esse fenômeno é comum em qualquer país do mundo.

    Contudo, a proposta aqui defendida pelo colega Idelber passa por um outro campo, desconhecido na maioria das pessoas brancas e que “ofusca” o debate acerca do nosso racismo: o campo da isotopia, ou seja, a possibilidade de compartilhar espaços de poder.

    Ainda que os acessos à universidade pública e ao mercado de trabalho “estejam aí” para qualquer pessoa brigar e conseguir o seu espaço, na prática verificamos discrepância entre a isonomia (igualdade perante a lei) e isotopia (igualdade de espaços de poder).

    O campo da isotopia se sustenta fortemente por valores simbólicos, aliados a uma paranóia psicossocial (nisso, a mídia cumpre bem o seu papel), que reforça a necessidade de distanciamento físico, ideológico, econômico e político entre pessoas brancas e negras.

    Dessa forma, os nossos centros urbanos estão estruturados para que as pessoas brancas vivam o mais distante possível das pessoas negras, que moram, em sua maioria, em bairros periféricos ou suburbanos.

    Essa paranóia psicossocial, alimentada por esses valores simbólicos, são revertidos em um belo presente chamado de “tolerância”. A tolerância nada mais é do que uma adesão intelectual a determinadas causas (causas dos homossexuais ou dos negros, como ocorre frequentemente), desde que os interessados (nesse caso nós, os negros) estejamos do lado de cá da pobreza e eles (as pessoas brancas) do lado de lá.

    Qual pessoa negra nunca ouviu de uma pessoa branca a clássica frase: “Não sou racista! Tolero as pessoas negras!”? Essa separação, aparentemente irracional (e ilegal, pois fere flagrantemente os incisos XV e XVI do Art. 5º da CF/88) se dá pela construção de anos e anos de valores, crenças e modos que anulem a presença do negro e de sua cultura na sociedade brasileira.

    Vejamos um exemplo prático. O bairro da Liberdade, em São Paulo, é um bairro com forte ascendência do extremo oriente asiático (chineses, japoneses, coreanos, etc). O comércio, as agência de governo e agências bancárias são povoadas por pessoas do próprio bairro, o que reforça a identidade cultural daquele local.

    Na cidade de Salvador, onde a maioria da população é negra, também tem um bairro chamado Liberdade. O mesmo bairro também tem comércio, órgãos de governo e agências bancárias. Ainda que o bairro seja de maioria negra, não os vemos no comércio como proprietários, como servidores das agências de governo ou nas agências bancárias. E por qual motivo?

    Em Santa Catarina, os descendentes de alemães comemoraram anualmente a Oktoberfesta, uma festa muito bonita e amplamente divulgada pela mídia brasileira. Legítimo. Agora reparem o destaque que é dado às festas da cultura negra. O destaque é ínfimo, em alguns casos, sequer lembrado.

    Fala-se em racialização! Ué, os asiáticos podem ser funcionários de agências bancárias no próprio bairro e os negros não?

    Outra paranóia criada pela isotopia também aparece no campo religioso. As religiões de raízes européias – cristã, judaica, etc – são tratadas como religião; já o Candomblé e a Umbanda são tratadas como “seita”.

    Outro exemplo recente: foi aprovada a Lei nº 12.644, que institui o Dia Nacional da Umbanda, comemorado todo dia 15 de novembro (no mesmo dia da Proclamação da República). A lei não fala de nenhuma atividade nesse dia.

    Agora olhem no DOU do dia 17/05/2012 (Seção 1) a Lei nº 12.645, que institui o Dia Nacional de Segurança e Saúde nas Escolas. Olhem o tanto de atividades que a lei permite que sejam realizadas nos estados e municípios.

    Por qual motivo?

    Outra coisa bastante comum, que a nossa colega Ana Maria Gonçalves, em seu artigo tratou com propriedade: a quantificação dos negros. Os negros são usados apenas como dados estatísticos, como material de laboratório. Pouco ou nada se sabe acerca da sua produção cultural, literária, artística, acadêmica, etc. Os negros são guetizados.

    E qual o resultado afinal dessa isotopia? Ora, uma vez que não existem negros disputando, em condições dignas, os mesmos espaços de poder que os brancos, temos representantes políticos falando “em nome” dos negros, e não de negro para negro (ou de negra para negra). Acho bonito quando ouço as pessoas dizerem que a Dilma fala de mulher para mulher (votei nela, no Lula e votaria neles novamente!)

    A diversidade, traço de riqueza cultural desse país, se perde, a medida que essa diversidade é constamente hierarquizada e normalizada. O sucesso ou o fracasso de uma pessoa está definido, no Brasil, apenas pelas características fenótipas, isto é, da aparência do indivíduo (a cor da pele, o cabelo, o nariz, o quadril, etc) atrelado aos valores simbólicos e sociais construídos em torno de sua imagem (periculosidade, preguiça, moleza, desleixo, sujeira, etc).

    Vejam que o chamado “sucateamento” da saúde pública, do transporte coletivo, está atrelada (ainda que implicitamente) a esse debate. A saída para essa questão racial no Brasil é fortalecer a convivência, o compartilhamento de espaços. Enfim, praticarmos a isotopia. A sugestão do Idelber vai ao encontro dessa ruptura isotópica que existe hoje no país.

    Vencemos uma: a legalidade das cotas nas universidades públicas. Os dados trazidos pelo Idelber jogam por terra os argumentos racistas.

    Precisamos vencer mais uma: as cotas nas organizações públicas e privadas; linhas de crédito para produtos estilo FUBU (For Us, By Us – Feito por nós, para nós). Mais do que um debate sociológico: a discussão racial perpassa o desenvolvimento social e econômico do Brasil.


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