Sem espaço para vida e morte

Desde o dia 3 de maio, quase nada foi dito sobre o operário de 25 anos de idade que morreu no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau

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Desde o dia 3 de maio, quase nada foi dito sobre o operário de 25 anos de idade que morreu no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau

Por Moriti Neto

Publicado por Nota de Rodapé. Foto por Luiz Carvalho/CUT.

Não é novidade. No jornalismo, nada dura muito. A correria insana por manchetes torna velho o que ocorreu há uma semana. A tragédia do dia ocupa o degrau mais alto no pódio das publicações e emissoras, mais ainda quando a ordem é virar a página de um Pinheirinho ou qualquer outra coisa ligada a movimentos populares. Assim foi com o paraense de Abaetetuba, José Roberto Viana Farias.

Desde o dia 3 de maio, quase nada foi dito sobre o operário de 25 anos de idade. Na data, no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, em construção no Rio Madeira, Rondônia, o funcionário da mega empreiteira Camargo Corrêa – parte do consórcio Energia Sustentável do Brasil, vencedor da licitação do Governo Federal e condutor do projeto – trabalhava acelerado. Como sempre, os gritos dos chefes exigiam “produção”, “produção”.

Sinaleiro de guindaste, José Roberto se equilibrava no topo de estruturas metálicas, servindo como os “olhos” dos motoristas das máquinas.

Estava há dois dias sem dormir. No dia 3, foi receber o pagamento e pagar contas em Porto Velho, capital do Estado, distante 135 quilômetros das obras. Voltou para o batente à noite, sem nenhum período de descanso, naquele que seria o último turno da sua vida.

A inexistência de bandejas de proteção no perímetro da estrutura, além da ausência de cabo guia para fixação do cinto de segurança, fizeram desaparecer a proteção ao trabalhador. O óbvio esgotamento físico e mental, se não foram definitivos, formam parte do cenário que provocou a queda fatal de José Roberto.

Histórias que poucos contam

No grupo de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, a Usina de Jirau foi palco recente de greves em que operários protestavam contra falsas promessas na contratação, descumprimento de acordos, maus-tratos físicos, ameaças, desvios de função, falta de equipamento de segurança, não pagamento de horas extras, treinamento insuficiente e até a existência de um cartão bônus de R$ 600 para quem, entre outras coisas, não tirasse folgas para visitar familiares e não ficasse doente.

Dado impactante é que o consórcio Energia Sustentável do Brasil recebeu aproximadamente mil autuações da Superintendência Regional do Trabalho desde o início das obras, em 2008. Entre os itens flagrados nas fiscalizações, há vários relacionados com falta de segurança para trabalhar.

No entanto, as polêmicas das grandes usinas geradoras de energia, como Jirau e Santo Antonio, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará, são cercadas, quase que totalmente, por debates baseados na questão ambiental. Campanhas mobilizam atores globais e exigem respeito à diversidade de fauna e flora locais, muitas vezes, sem nenhuma atenção à ciência.

Nesse embate, em que predomina o tom moralistóide na abordagem de assuntos estratégicos, como a energia, a justificativa é da importância do macro. Nele, vence a desculpa de um jornalismo ocupado com “questões maiores”, onde as histórias de vida e morte de trabalhadores de grandes empresas brasileiras que morrem nas obras regadas a recursos públicos – saídos do Fundo de Garantia e do BNDES – não têm espaço.



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