“Nós jornalistas não estamos sendo capazes de entender Belo Monte”, diz Sakamoto

O papel da mídia na cobertura da construção da hidrelétrica é debatido em evento, que faz parte do Xingu+23, a ser realizado paralelamente à Rio+20, no município de Vitória do Xingu (PA)

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O papel da mídia na cobertura da construção da hidrelétrica é debatido em evento, que faz parte do Xingu+23, a ser realizado paralelamente à Rio+20, no município de Vitória do Xingu (PA) 

Por Mikaele Teodoro

A construção da Usina de Belo Monte é discutida há mais de 20 anos no Brasil, representando um dos maiores debates públicos da história do país. A imprensa nacional e também a internacional não deixam de noticiar as guerras travadas entre os defensores e os ambientalistas contrários à construção. Mas por que Belo Monte desperta tanto interesse midiático?

Em menos de um mês, 1 milhão de assinaturas foram recolhidas exigindo a parada imediata das obras em Belo Monte. O vídeo Gota d’Água, estrelado por atores globais que pediam um debate público sobre o assunto, gerou uma verdadeira guerra de vídeos na internet.

Verena Glass, jornalista do Movimento Xingu Vivo para Sempre e da ONG Repórter Brasil, explica que o caso “mexe” com temas muito delicados e que geralmente ganham muita comoção. “Mexe com a valorização de direitos humanos, Amazônia e indígenas. Esses assuntos geram muito interesse da opinião pública, da sociedade civil e de todo indivíduo”, enfatiza.

Segundo Verena, a proporção da mobilização nacional em torno de Belo Monte indicará quais serão as ações futuras do governo em relação a grandes obras. “É um fenômeno muito importante porque é um evento de mídia, e dependendo do trabalho que der vão repensar outras construções.”

Para a jornalista, as matérias produzidas pela mídia tradicional são “pequenas e superficiais”. Ela argumenta ainda que o debate internacional, às vezes, é mais profundo do que o feito no país. A resistência à obra, inclusive, ganhou militantes estrangeiros. Já em 1989, o cantor britânico Sting chamava a atenção do mundo para a questão da construção da usina hidrelétrica. Na ocasião, ele fez varias mobilizações ao lado do líder caiapó Raoni. Passados alguns anos, foi a vez de James Camerom, diretor do filme Avatar, abraçar a causa. O diretor participou de manifestos e levou a pauta ao presidente americano Barack Obama causando uma nova onda de interesse internacional. “Existe pouca informação e muita paixão em relação à Belo Monte”, comenta Verena.

Na opinião de Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil e professor da PUC-SP, o debate deve ser levado a outro patamar. “Nós jornalistas não estamos sendo capazes de entender Belo Monte”, explica ele, referindo-se ao cuidado que o jornalista deve ter para evitar reproduções e representações equivocadas da questão. “É importante pensar alternativas para as pessoas que estão lá e trazer esse debate para a mídia”. Para ele, “não se tem uma visão real da Amazônia”. “O que deve ser discutido é que você pode ter qualidade de vida sem mudar seu modo de vida”, defende. “Belo Monte é um esquadro, um gabarito, dependendo do que acontece lá, o governo vai decidir se vale a pena ou não outras construções”, finaliza.

Para o professor do IEE/USP (Instituto de Eletrônica e Energia) Célio Bermann, é importante continuar o debate sobre Belo Monte. Crítico ao projeto, ele defende que a usina não é sustentável, tanto pelos impactos causados, como pelo custo: “A construção está orçada em 30 bilhões de reais. Belo Monte nunca vai se pagar”. Ele afirma que a capacidade energética da usina será de 11 mil MW, no entanto, “só estará disponível durante três ou quatro meses”. “Tem alguma coisa errada nesse projeto sustentável”, conclui.

Xingu+23

O tema mídia e Belo Monte foi debatido por Sakamoto, Verena e Bermann na quinta, 24, na Faculdade de História da Universidade de São Paulo (USP), no Seminário “Xingu+23: Encontro dos Povos da Amazônia, em defesa dos rios, das florestas e da vida”. O evento é uma etapa preparatória do Xingu+23, que será realizado paralelamente à Conferência Rio+20, de 13 a 20 de junho, no município de Vitória do Xingu (PA). Situado às margens da Transamazônica, a menos de 100 metros dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte (e a cerca de 50 km de Altamira). O evento remete ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, realizado há 23 anos, em 1989.

Foto: Xingu Vivo para Sempre



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