Grandes eventos, expulsões e moradia

Participei, na semana passada, em programa da EBC, de uma conversa muito proveitosa com a Relatora Especial da Organização das Nações Unidas para a Moradia Adequada, a urbanista Raquel Rolnik, e o presidente...

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Participei, na semana passada, em programa da EBC, de uma conversa muito proveitosa com a Relatora Especial da Organização das Nações Unidas para a Moradia Adequada, a urbanista Raquel Rolnik, e o presidente da Central Única das Favelas do Distrito Federal, Max Maciel. Os três coincidimos — meus dois interlocutores com muito mais conhecimento de causa do que eu — que o Brasil vive um processo sistemático de expulsão de populações pobres das áreas centrais das grandes cidades. O Dossiê lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, intitulado Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil, documenta, ao longo de mais de 100 páginas, uma impressionante lista de remoções, ameaças, expulsões violentas, bloqueios de acesso a bens públicos e “simplificações” (leia-se desmontagem) dos licenciamentos ambientais, tudo num contexto de crescente colonização do Estado pelo grande capital de empreiteiras.

Durante a conversa, eu trouxe à baila o excelente texto publicado pelo arquiteto mineiro (e professor da Universidade do Texas) Fernando Luiz Lara aqui na Fórum, intitulado O paradigma do asfalto, no qual Fernando apresenta a impressionante estatística de que 80% das áreas públicas da superfície urbana brasileira é impermeabilizada, seja com asfalto (20%), seja com o seu inseparável companheiro, o cimento em forma de concreto. Ainda hoje, temos dificuldades de pensar em “inclusão social” a não ser a partir de um modelo de construção com mais cimento e mais asfalto. Nesse aspecto, as coisas não mudaram muito desde JK.

Num determinado momento, a nossa conversa passou a incluir também a condição de possibilidade do sistemático conluio entre esse modelo de construção e a operação cotidiana do poder público. Não se entende isso, claro, sem entender a dinâmica das doações para campanhas eleitorais. As empreiteiras são as maiores doadoras de campanhas eleitorais, sua influência perpassa todos os principais partidos (para quem ainda não sabe, o PT já é, há bastante tempo, o receptor principal das doações de empreiteiras), determina rumos do poder público e presta pouquíssima conta do que faz com o espaço e com os representantes desse poder. Nenhuma reforma política faz sentido no Brasil se não passar a limpo o controle que as doações do setor privado, especialmente das empreiteiras, mantêm sobre as campanhas eleitorais.

Alguns podem não ver a relação entre as duas coisas, mas essa concepção de ocupação do espaço urbano é coerente com o tratamento que vem recebendo a Amazônia: ambas são tributárias da ideia de que crescer mais e fazer grandes obras é uma espécie de sine qua non para que, um dia, o bolo seja dividido.  Sabemos quando, como e com quem debutou essa ideia no Brasil. Na Amazônia, o crescimentismo toma a forma ecocida dos megaprojetos de hidrelétricas e de expansão da fronteira agrícola e, no espaço urbano, da verticalização e da shoppingficação, ambas ancoradas na expulsão de populações pobres e na privatização de áreas públicas.

O Dossiê montado pela Articulação dos Comitês Populares da Copa, linkado acima, é bem completo e traz detalhes assustadores da verdadeira guerra contra os pobres lançada pelos agentes da especulação imobiliária em parceria com o poder público, de todos os principais partidos, em todas as grandes capitais, especialmente nas sedes da Copa.  Levantei, em nosso papo, os exemplos de Cuiabá, com a demolição do estádio José Fragelli e a construção de um outro, caríssimo, que será um elefante branco numa cidade de 590 mil habitantes que não tem uma equipe sequer  nas Séries A ou B do Campeonato Brasileiro, e do Recife, que tem pelo menos dois estádios (Arruda e Ilha do Retiro) que poderiam receber reformas e abrigar jogos da Copa, mas onde se resolveu fazer mais um estádio, em São Lourenço da Mata, a 19km da cidade e com impactos ambientais severos e sequer bem estudados. No exemplo do Recife, Raquel Rolnik completou o quadro desolador com um histórico do projeto que eu só conhecia vagamente. Vale a pena ouvi-la dissertar sobre o caso.

Para quem não pôde assistir o programa da EBC na semana passada, aí vai o vídeo:

 

 

 



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7 comments

  1. Marcelo Procopio Responder

    Olá Idelber,
    não preciso falar (leio você desde Biscoito Fino, etc, etc).
    Fazemos aqui em Minas o jornal O Cometa (ou O Cometa Itabirano), de cultura, ideias e humor, há mais de 32 anos: nascido Itabirano em Belo Horizonte em novembro de 1979.

    Dias desses uma amiga deu a dica dessa matéria sua: http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/06/05/verticalizacao-higienizacao-e-entristecimento-de-belo-horizonte/

    Então pergunto: posso publicá-la na próxima edição do Cometa, de junho?
    – Claro, com todas as referências e links.
    É um assunto recorrente no jornal, desde principalmente Marcio Lacerda.
    Seu texto encaixaria bem na nossa linha.Talvez até juntando com este acima, também muito bom.

    Posso enviar uma ou duas edições do Cometa para você conhecer, em versão pdf. O site do jornal – cometaon.com.br, está fora do ar em nova reforma de ampliação.

    email do jornal> cometaon@gmail.com

    aguardo,
    abraços,
    Marcelo

    1. Idelber Responder

      Oi, Marcelo, claro que sim, pode publicar o texto.

  2. Patrick Responder

    Em Natal, o ex-prefeito Carlos Eduardo afirmava em 2007 que com R$ 17 milhões o Machadão estaria pronto pra Copa.

    Hoje, 2012, o Machadão foi implodido e estamos (contribuintes potiguares) gastando quase R$ 1 bilhão para erguer a Arena das Dunas. Sendo que os dois principais times da cidade, ABC e América, já tem (ABC) ou estão construindo (América) estádios próprios.

  3. Rodrigo Responder

    Idelber, parabéns por trazer o assunto à baila com riqueza de detalhes. Você saberia dizer qual foi o encaminhamento dado ao dossiê e qual é a expectativa quanto às consequências que o estudo possa gerar?

    1. Idelber Responder

      Oi, Rodrigo, o dossiê teve repercussão entre os movimentos populares e tem circulado bastante. O encaminhamento tem sido esse: fundamentar e embasar a luta dos afetados. Quanto a ações governamentais, aí o buraco é mais embaixo. O governo tem sistematicamente ignorado todos os protestos. Nesta semana mesmo, os próprios funcionários do IBAMA (ou seja, funcionários do governo) denunciaram assédio moral, pressões para alterar pareceres e chantagens para violar as leis que regulam a concessão de licenças ambientais. A carta dos funcionários do IBAMA pode ser lida aqui: http://amazonia.org.br/2012/06/servidores-do-ibama-denunciam-pressoes-de-governo-federal-por-licencas-de-obras-do-pac/

      Um abraço.

  4. João Paulo Rodrigues Responder

    Oi Idelber,

    Eu sei que é chato fazer isso, mas realmente falta tempo para ler tão importante material, então serei breve nas perguntas:

    1) Como entram – se é que guarda relação com o problema – as iniciativas ditas sociais nas favelas do Rio que recebem UPP?

    2) Como andam as doações de empresas de ônibus urbanos? Me parece que o transporte urbano é aliado das empreiteiras, pois a construção de mais avenidas, pontes, mais asfalto e nada de metrô, ciclovias etc. tem o óbvio resultado de tornar a população pobre ainda mais dependente de ônibus (e, na última década, vans). E quanto mais afastadas dos centros e dos bairros de classe média, mas dependente ela fica do transporte coletivo.

    Abraço.

    1. João Paulo Rodrigues Responder

      *E quanto mais afastada dos centros e dos bairros de classe média, mais dependente ela fica do transporte coletivo.


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