A vida depois da prisão de Nem

Fórum vai até o Vidigal e mostra um retrato do cenário local, que tenta se adaptar a uma nova realidade e ainda espera por um futuro melhor

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Fórum vai até o Vidigal e mostra um retrato do cenário local, que tenta se adaptar a uma nova realidade e ainda espera por um futuro melhor

Por Pedro Venceslau 

José Valdir Correia Cavalcanti levou um susto quando voltou para casa no Vidigal um dia depois da ocupação do morro pelas forças de segurança do governo do Rio de Janeiro, em meados de novembro. Quatorze meses depois de ser expulso de lá por soldados do traficante Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, e ir morar em Jacarepaguá, ele encontrou outra mobília e até uma televisão nova na sala. Localizada no “Arvrão”, o ponto mais alto do morro e de onde se tem uma vista deslumbrante da cidade, a casa serviu de abrigo para “Cabeção”, um dos gerentes do tráfico, no período em que José esteve fora.

“Esse lugar é estratégico. Se o Nem não tivesse sido preso, aqui seria o quartel-general contra a polícia”, contou o produtor de uma rede de TV que preparava o lugar para uma gravação. Mas com a notícia da queda do jovem “czar” do Vidigal e da Rocinha, a cúpula da organização ADA (Amigos dos Amigos) preferiu fugir e o proprietário sentiu-se seguro para pegar de volta o que era seu. Na comunidade do Vidigal, José Cavalcanti é mais conhecido como “Zé do Rádio”. Ele ficou famoso entre os moradores há dez anos depois de ser eleito locutor de uma rádio comunitária que presta serviços à população. Em 2008, tomou coragem e aproveitou seu prestígio para marcar uma audiência com Nem. “Fui recebido pela mulher dele, que me levou até a sala da casa e me serviu um suco. Fiquei impressionado com o luxo do lugar. O Nem chegou e foi atencioso. Então eu disse que há 20 anos não havia eleições para a Associação dos Moradores da Vila do Vidigal (AMVV) e que eu gostaria de organizar o processo”, conta.

Bem articulado, Zé argumentou que a eleição passaria uma mensagem para a opinião pública e a população: existe democracia no Vidigal. Deu certo. Poucos meses depois, Zé do Rádio derrotaria outros nove candidatos e seria eleito o legítimo presidente da Associação dos Moradores do Vidigal. “No começo, o Nem atendia muitos pedidos meus. Moradores vinham até a Associação pedir ajuda para evitar a morte de parentes condenados pelo tráfico. Eu levava a demanda e dava certo”.

Outra função de Zé do Rádio era servir como interlocutor entre o poder de fato (o tráfico) e o poder público. Em todas as favelas do Rio dominadas pelo crime organizado, os dirigentes das associações de moradores são os responsáveis pela manutenção do acordo tácito que garante a “paz” nos territórios governados pelo poder paralelo. Com o tempo, porém, Nem passou a exigir cada vez mais do presidente da associação do Vidigal. Zé do Rádio tentou se equilibrar como pôde entre os dois mundos. Se por um lado não era louco de se rebelar contra Nem, por outro, não queria ser apenas um fantoche. Foi então que o “capo” perdeu a paciência. “Foram na minha casa, colocaram uma arma na minha cabeça e me mandaram assinar documentos renunciando à presidência da Associação. Depois, me mandaram sair do Vidigal”.

Cidadania custa caro

Decidi ir a pé do bar Jobi, no Leblon, até a entrada do Vidigal. Depois de 20 minutos costeando o mar a passos largos pela avenida Niemeyer, cheguei à entrada do morro recém-pacificado. A primeira imagem foi emblemática. Um exército de vendedores uniformizados de pacotes da Sky circulava nervosamente entre soldados fortemente armados tentando convencer moradores a comprar o “pacote UPP”, uma promoção criada especialmente para moradores de áreas “pacificadas”.

Antes da ocupação, era o tráfico que geria o negócio. Por meio de gambiarras, os homens de Nem ofereciam pacotes de 120 canais por R$ 20 mensais. “Agora vou ter que pagar R$ 70 e ainda ficar sem os filmes…”, lamentava uma moradora que, resignada, preenchia a papelada de um dos vendedores. Ela e todos os moradores estão pagando um preço alto pela cidadania. Segundo o Sebrae-RJ, nada menos que 5.800 dos 6.500 negócios da favela, de botecos a salões de beleza, estão na informalidade. Com a ocupação, o Sebrae começou uma campanha para trazer os empreendimentos para a formalidade. Um dia depois da ocupação, boa parte dos moto-taxistas que cobram R$ 2,50 para subir e descer o morro, sumiu da entrada do Vidigal. Motivo: as motos não tinham documentação nenhuma e, não raro, eram roubadas. Os que estavam em dia com a burocracia, porém, comemoravam o fim do imposto pago ao tráfico para operar.

No caminho até o topo do morro, onde está localizado o “Arvrão” e onde conheci Zé do Rádio, cruzei vários turistas estrangeiros fazendo fotos alegremente. Uma argentina contou que seus amigos estavam hospedados em um albergue no próprio Vidigal. “Fica lá no alto, perto do “Arvrão. O dono é um alemão”. Na verdade, já existiam dois albergues no morro muito antes da ocupação da polícia. O “alemão”, chamado “Alto Vidigal Guest House”, era considerado um ponto “hype” de turistas e cariocas ousados que buscavam o pôr-do-sol perfeito. A vista vinha acompanhada de generosos cigarros de maconha comprados em bocas de fumo de Nem nas redondezas. Tudo estranhamente pacífico e seguro. Pouco antes de chegar ao “Arvrão” – onde fica uma óbvia árvore enorme – cruzei com um repórter da Band Rio usando colete à prova de balas e batendo papo com um grupo de policiais do Bope. O tema era a morte de um colega cinegrafista da emissora no dia da invasão. Uma bala de fuzil atravessou o colete. “O pessoal da Globo está usando colete com placa de cerâmica…”, disse um soldado. Outro questiona a informação. “Ué, mas isso não pode… Colete com placa de cerâmica é de uso exclusivo da polícia”. Segue-se então um debate sobre a eficácia dos coletes e o risco de fazer esse tipo de cobertura.

Foi o repórter da Band, chamado Che Oliveira, quem me apresentou a Zé do Rádio. Mais tarde, fico sabendo pelo colega que além do líder comunitário, outras 11 famílias que viviam em casas consideradas estratégicas pelo tráfico em caso de combate foram expulsas. “Dessas, só duas vão ficar no Vidigal. As outras voltaram para o Nordeste. “É que muitos soldados do Nem não têm ficha na polícia e continuam morando no morro”, conta ele. O próprio Zé do Rádio conta já estar recebendo ameaças.

Na volta para a base do morro, paro na sede Associação dos Moradores para tentar conversar com Wanderley Ferreira, o Deley, atual presidente do órgão. Ele é acusado por Zé do Rádio de ter sido colocado por Nem no cargo depois de sua expulsão. Deley não estava. Voltei mais duas vezes e telefonei outras tantas, sem sucesso. Na última tentativa, um diretor da Associação aceitou falar, mas só “informalmente”. Ele negou qualquer relação com Nem, disse que Zé sumiu da comunidade porque estava “vendendo terrenos que não eram dele” e revelou que ambos – Zé e Delay – têm algo em comum. “São filiados a partidos políticos. O Zé é do PRB e o Delay, do PV”.

Zé do Rádio confirma a informação. “Fui candidato a deputado estadual ano passado e tive 700 votos. Não pude fazer campanha e acabei jogando o material que ganhei do Rodrigo Bethlem (que concorreu a deputado federal) no lixo…”. Revela-se então outra faceta do poder paralelo. Políticos só recebem votos nas favelas do tráfico se selarem alianças com moradores. Em geral, o acordo tem que passar pelo crivo dos traficantes. Daqui para frente, tudo será diferente. Por trás do discurso triunfalista do governo sobre as UPPs, existe uma multidão de moradores felizes com a liberdade, mas receosos com o futuro. Por pior que fosse viver sob a gestão do tráfico, havia uma zona de conforto. O livre arbítrio vem acompanhado de muitas contas para pagar…

 

E as “celebridades” sobem o morro

Passa um pouco da hora do almoço quando uma caminhonete preta do Bope com quatro mulheres “civis” na garupa estaciona no pé da Rocinha. Enquanto o motorista aguarda ordens para subir, o grupo visivelmente constrangido é fotografado por moradores. “É aquela moça da Globo…Como ela chama mesmo…?”, pergunta uma excitada vendedora de pacotes da Sky.

Olhando de perto, reconheço uma delas: a atriz Carla Camurati. Um policial informa, então, que as outras ocupantes são Rita Paes, esposa do secretário de Segurança, Jośe Beltrame, e duas assessoras. O destino final do grupo é a quadra da Rua 1, onde “até outro dia funcionava uma boca de fumo”. Tudo isso era para dizer que as moças pretendem apresentar ali um balé.

Poucas horas depois é a vez da secretária estadual de Esportes e Lazer, Marcia Lins, subir o morro com o Bope. Seu convidado é o ex-tenista Gustavo Kuerten. Depois de simular um bate bola com crianças, o ídolo se posta ao lado da secretária para outro pomposo anúncio: a construção da primeira quadra pública de tênis do Rio será na Rocinha, mais precisamente no Portão Vermelho.

Poucos dias depois de ser ocupada pelas forças de “pacificação”, a Rocinha tornou-se a menina dos olhos da elite política e da opinião pública carioca. Candidato a reeleição, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) não perde uma chance de capitalizar a ocupação. No dia 21 de novembro, ele anunciou que a comunidade receberá o cartão postal de sua gestão, o “choque de ordem”. Isso significa que as 150 barracas do Largo Boaideiro serão convidadas a se legalizar.

Em outra frente, a Light começou a bater de casa em casa oferecendo geladeiras novas – e que consomem um quarto da energia – aos moradores. A má notícia é que 50 funcionários da companhia deflagraram operação para acabar com cerca de 6 mil “gatos” de ligação clandestina de eletricidade. A previsão oficial é que toda rede elétrica seja substituída até 2013. Para os moradores, isso significa mais uma conta para pagar.



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