Uruguai, Chile e as desigualdades latino americanas

Modelo econômico chileno, tido como exemplo em tempos idos, produziu um dos países mais desiguais da região

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Modelo econômico chileno, tido como exemplo em tempos idos, produziu um dos países mais desiguais da região

Por Victor Farinelli

No dia 11 de novembro, aconteceu mais uma rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, com destaque para a partida entre Uruguai e Chile. No mítico Estádio Centenário, o primeiro a sediar uma final de Mundial, um dos países menos desiguais do continente recebia um dos que têm a maior taxa de desigualdade. No quesito meramente futebolístico, a Celeste Olímpica goleou o Chile por 4×0.

A seleção chilena de futebol poderia servir de metáfora – não perfeita, mas próxima – da imagem que o país projeta, sobretudo no mundo empresarial. Nunca foi exemplo de futebol vistoso, jamais conseguiu um título e seu passado contém episódios dos mais tenebrosos da história do esporte mundial, como o caso Rojas, mas volta e meia é citada como força emergente. Também é – os incidentes deste ano demonstram, sobretudo a manobra para a saída do técnico argentino Marcelo Bielsa, desafeto do presidente Sebastián Piñera – uma das equipes que, atualmente, está mais diretamente atrelada ao poder Executivo nacional, com claros fins políticos.

Já a escalação atual do escrete vermelho reflete melhor o que vive boa parte da sociedade chilena. São raros os jogadores figurando entre os mais famosos e bem pagos do mundo, como Alexis Sánchez, contratação estelar do Barcelona; e o palmeirense Valdívia, um dos maiores salários do futebol brasileiro. A grande maioria joga em times de menor expressão da Europa, incluindo alguns que militam nas segundas divisões espanhola e italiana, onde seus salários são dez vezes menores que o de um Valdívia e cem vezes menores que o de Sánchez.

Mas não foi o futebol o que inspirou o economista chileno Andrés Zahler, da Universidad Diego Portales (UDP), a fazer um estudo mais detalhado da situação econômica das famílias chilenas. “Foi a partir da repercussão, na imprensa daqui, do fato de o PIB chileno ter superado os USD$ [pesos chilenos] 200 bilhões em 2010, o que nos mantém num patamar em que a renda per capita é comparável a de países como a Hungria. Logo me perguntei se as famílias chilenas possuem renda equivalente à média das famílias húngaras.” Junto a essa inquietação, somaram-se observações a respeito do índice de Gini, que mede a distribuição de renda em cada país, sendo zero mais próximo à equidade e 100 representando o total desequilíbrio. O Gini chileno é de 53 (superior ao do Brasil, que é de 49). Mas Zahler não se satisfez somente com o dado bruto, e resolveu lapidá-lo.

Separou as famílias chilenas em dez extratos socioeconômicos e passou a analisar cada um deles e suas diferenças. O extrato mais rico da sociedade chilena, que segundo Zahler corresponderia a cerca de 1,5% das famílias do país, conta com uma renda média de aproximadamente USD$ 62 mil, padrão comparável ao de países como Noruega e Estados Unidos. “Claro que aqui estamos falando de um segmento aprofundado, a média entre os seus habitantes não varia tanto quanto a dos países; nesse caso, seria mais adequado comparar com a Noruega, cujo índice de Gini é de 25, enquanto nos Estados Unidos é de 45, e tem aumentado significativamente ano após ano”, explicou o economista.

O segundo extrato mais elevado do Chile é o que mais se aproxima à renda média das famílias da Hungria (Gini de 31), por volta de USD$ 21 mil, mas esse segmento constitui cerca 2,5% da população do país – somado ao primeiro extrato, não configuraria sequer 5% dos chilenos. O terceiro extrato (3% da população), de renda média por volta dos USD$ 14, 5 mil, é o primeiro setor que guarda semelhança com alguns países latino americanos, mais precisamente Argentina e México, cujos respectivos índices de Gini são 46 e 51, não muito melhores que os do Chile. Provavelmente, uma análise mais fragmentada da renda média de argentinos e mexicanos demonstraria o mesmo nível de desigualdade que veremos mais adiante.

Entre o quarto e o sétimo extratos estabelecidos por Zahler, a renda média das famílias varia entre USD$ 11 mil (equivalente ao do Brasil e da Costa Rica, Gini de 50) e USD$ 6 mil (como a de El Salvador, Gini de 47). São os setores cujo patamar está mais próximo ao da maioria dos países latinos, incluindo alguns dos mais pobres, e representam, juntos, 23% das famílias chilenas – somados aos três anteriores, configuram menos de um terço da população do país. No oitavo extrato, segundo o estudo de Zahler, a renda média é de USD$ 4,8 mil (como a da Guatemala, de Gini 48) mas este corresponde a 10% dos chilenos, ou seja, ainda não chegamos aos 50% mais pobres do país.

Somente o penúltimo extrato atravessa a linha imaginária que avança até a metade de baixo. Cerca de 15% dos chilenos formaria parte do segmento que tem renda média de aproximadamente USD$ 3,6 mil, comparável com Índia e Filipinas (Gini 36 e 44, respectivamente). Aos demais 45%, quase metade da população, resta o último segmento, o de menores recursos, cuja renda mensal mal alcança os USD$ 2mil, e o que os equipara à média de países como Senegal (Gini 39) e Costa do Marfim (Gini 41).

 

O crônico Estado ausente

Tendo em vista a capacidade de produção de riquezas do Chile, maior exportador mundial de cobre, o economista buscou entre os países vizinhos um parâmetro que pudesse evidenciar a má distribuição dessas riquezas, e encontrou no Uruguai o exemplo ideal. Nenhum dos dois países, segundo o economista, escapa à desigualdade que assola todo o continente, mas o panorama uruguaio não lhe parece tão cruel quanto o chileno. “O Uruguai produz quase quatro vezes menos que o Chile, mas a renda média dos dois países é equivalente, o que em si já demonstra um desequilíbrio menor, e daí a dedução de que a maioria dos uruguaios tem um padrão de vida melhor que a maioria dos chilenos”, analisa Zahler.

O Chile sempre figurou entre os mais citados em círculos empresariais e nas análises macroeconômicas como um modelo a seguir no continente, ou no mínimo como o menos equivocado dos modelos da região. Em 2011, as ruas do país trataram de desmentir essa falsa impressão, com o movimento estudantil denunciando a brutal situação de endividamento vivida pela grande maioria das famílias chilenas, devido a um sistema educacional no qual não há gratuidade nem na rede pública, problema que se verifica também no serviço de saúde, além da Previdência Social que, ainda durante a ditadura, foi entregue inteiramente à iniciativa privada.

Zahler vê com bons olhos o movimento estudantil que tomou o país – “as mensalidades universitárias chilenas são as mais caras do mundo, quando se faz a comparação com a renda per capita”, argumenta o economista, que não considera que o modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Chile nos últimos anos seja totalmente equivocado. Para ele, houve avanços importantes durante os governos da Concertación (aliança de centro-esquerda que governou o país entre 1990 e 2010), no sentido de frear o neoliberalismo exacerbado da ditadura de Pinochet, embora lamente que eles poderiam ter sido mais ousados, sobretudo no que diz respeito à proteção social. “O conflito estudantil também foi alimentado por aquele indivíduo que, mesmo quando não é afetado pelos problemas do modelo educacional, encontrou nas manifestações uma forma de dizer que se sente indefeso diante de um sistema que dá muito mais vantagens às empresas que aos cidadãos.”

Em forte sintonia com o trabalho de Andrés Zahler estão alguns números divulgados este mês pelo instituto Latinobarómetro (sediado no Chile e dedicado a realizar estudos a respeito da realidade socioeconômica da região latina). A pesquisa anual de medição da opinião pública realizada pelo instituto revela que os chilenos são os mais insatisfeitos do continente com a distribuição de renda em seus país: apenas 6% dos pesquisados a consideram justa ou muito justa. O Uruguai, utilizado por Zahler em seu estudo, está entre os países onde há menos insatisfação a esse respeito, embora somente 27% dos entrevistados tenham respondido positivamente – o país com maior índice de aprovação à distribuição de renda foi o Equador, com 43% de respostas positivas, enquanto o Brasil apontou um grau de satisfação de 15%.

Outros indicadores do Latinobarómetro que ressaltam a teoria de Zahler: 62% dos chilenos se consideram muito ou minimamente satisfeitos com sua situação econômica, enquanto ente os uruguaios esse índice foi de 79% (o do Brasil foi de 81%, o mais alto foi o da Costa Rica, com 89%). No Chile, somente 30% consideram que a economia vai melhorar no próximo ano, contra 46% dos uruguaios – os brasileiros, com 64%, foram os latinos que mais demonstraram otimismo com o futuro econômico do país, entre os uruguaios o índice ficou em 46%. Por fim, 54% dos uruguaios consideram seu governo mais próximo dos interesses do povo, em comparação aos interesses das grandes corporações (o melhor índice do continente com respeito a esta pergunta, e o único que supera os 50%), muito mais que os 22% de chilenos que pensam o mesmo a respeito do seu governo e que os 27% de brasileiros.

Logo, a versão socioeconômica do duelo entre Uruguai e Chile continua sendo muito mais preocupante que o resultado futebolístico. Os uruguaios, que desfrutam de direitos mais garantidos pelo Estado que os chilenos (como educação, saúde e previdência em sistemas híbridos, onde o Estado assume grande parte do serviço, entregue de forma gratuita), não tiveram um 2011 tão conturbado socialmente, e menos ainda futebolisticamente – os 4 a 0 sobre a seleção chilena consolidou a liderança cisplatina nas Eliminatórias da Copa, o que, somado ao título da Copa América, conquistado em julho, ratificou a Celeste Olímpica como a melhor do continente pelo segundo ano consecutivo. Tanto no futebol quanto na distribuição de renda, os chilenos precisam melhorar.



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