Yo non soy turista!

Pessoas que não bebem, tomam umas e outras e se tornam o centro do mundo, falando alto, gritando, dando risadas altas por qualquer motivo. E quem é botequeiro normalmente fica sem ambiente nesses lugares

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Pessoas que não bebem, tomam umas e outras e se tornam o centro do mundo, falando alto, gritando, dando risadas altas por qualquer motivo. E quem é botequeiro normalmente fica sem ambiente nesses lugares

Por Mouzar Benedito

Dezembro é um mês difícil pra quem gosta de frequentar bares em São Paulo. As comemorações de fim de ano são infernais. Juntam-se “colegas” de trabalho que no dia a dia às vezes nem se conversam, às vezes se sacaneiam, e vão a um bar brindar e entregar presentes de amigo secreto (em alguns lugares, o nome é amigo oculto) entre gritinhos estridentes.

Pessoas que não bebem, tomam umas e outras e se tornam o centro do mundo, falando alto, gritando, dando risadas altas por qualquer motivo. E quem é botequeiro normalmente fica sem ambiente nesses lugares.

Antes de ser um aposentado, um vagabundo que suga o dinheiro da nação segundo alguns por aí (os 35 anos de pagamento de INSS seriam para quê?), eu tentava sair de férias em dezembro não por gostar do calorão desse mês. Era para escapar das festinhas de fim de ano em São Paulo.

Numa dessas entra o Gutierrez, meio basco meio catalão.

Federico Gutierrez, sogro de um amigo nosso, o Zé Marruais, apesar da diferença de idade, ficou amigo da turma toda e nós o chamávamos de Don Gutierrez.

Chegou a nos acompanhar num acampamento de malucos, onde se tornou nossa salvação, fazendo tortilhas que comíamos aos montes.

Uma vez, estávamos saindo de viagem de férias para o Nordeste e ele disse que também sairia de férias dali uns dez dias e iria encontrar conosco onde estivéssemos. Não acreditamos, mas foi. Naquele tempo não existiam certas facilidades, como os telefones celulares, e a gente não tinha dia certo pra chegar a lugar nenhum, nem sabíamos em que hotel – geralmente espeluncas – iríamos ficar. Então, calculamos que na data da sua saída de férias estaríamos em Recife e marcamos um ponto lá. Combinamos que todos os dias passaríamos pelo Bar Savoy e deixaríamos grudado numa coluna um recado com referências sobre o nosso paradeiro.

No dia em que saiu de férias, pegou um ônibus pra Recife. Deixou as roupas num hotelzinho e foi direto para o Bar Savoy, na avenida Guararapes. E coincidiu que estávamos mesmo na cidade, o Luizinho, o Pretinho, Marinho, eu e um bando de meninas que namoravam ora um ora outro.

Ele chegou lá, não estávamos no bar, procurou na coluna bem no meio dele e achou um papelzinho colado com durex. E foi atrás da gente. Entrou no grupo e continuamos a viagem juntos. Fomos para João Pessoa. Logo em seguida chegaram as meninas que namorávamos em Recife. Resolveram continuar nossos namoros. E continuamos namorando ora uma ora outra. E o Gutierrez junto, sem namorar nenhuma (nem tentou), mas achando tudo muito divertido.

Mas havia um problema: ele andava com um bermudão largo, uma camisa cheia de coqueiros, boné, óculos escuros e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço, falando portunhol. A gente fazia tudo pra não parecer turista, e ele era o turista típico, numa época que essa categoria não era tão bem aceita como é hoje. Onde ele passava com aquele jeitão, tudo dobrava ou triplicava de preço, e ele chiava com o que cobravam: “Pero, yo non soy turista!”.

Tentamos convencê-lo a não ser tão ostensivo, mas não tinha jeito. Aí partimos pra sacanagem. Usando a sua máquina, quando se distraía, fotografávamos só besteiras. Eram chinelos na praia, mesas de botecos, troncos de coqueiro, os nossos próprios pés, só bobagens mesmo. E num certo momento pedimos que duas meninas se revezassem pulando no pescoço dele e o beijando. Ficou completamente atrapalhado, com aquelas meninas bonitas, de biquínis minúsculos se esfregando nele e o lambendo, mais do que beijando. E, pra piorar, nem imaginou que fotografamos tudo… com a máquina dele.

Don Gutierrez só mandou revelar as fotos quando chegou de volta a São Paulo. E só abriu os envelopes quando chegou em casa, para ir vendo as fotos pela primeira vez junto com a dona Angelina, sua mulher. E aí… surpresa! Como explicar aquelas gostosinhas quase nuas grudadas nele? Não teve explicação. E por pouco não teve divórcio.



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