“Muitos médicos se sentem ameaçados pelo fato das enfermeiras poderem fazer partos”

O médico Jorge Kuhn diz que prestígio e interesses financeiros de médicos são afetados pelo parto humanizado domiciliar

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O médico Jorge Kuhn diz que prestígio e interesses financeiros de médicos são afetados pelo parto humanizado domiciliar

Por Felipe Rousselet 

Jorge Kuhn, coordenador do Departamento de Obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo, falou com a reportagem de Fórum sobre sua posição em relação ao parto humanizado domiciliar e as condições para que ele seja realizado. O Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) encaminhou denúncia ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo), por conta de uma entrevista concedida por ele no último domingo, 10, ao Fantástico, o que pode valer a cassação do seu registro profissional. Confira trechos da entrevista abaixo.

Condições para o parto domiciliar humanizado

Como afirmei ao Fantástico, apoio a iniciativa do parto humanizado desde que tenha três condições básicas. A primeira condição é que o desejo parta da mulher e do marido. Essa é a condição fundamental. O parto domiciliar não é uma sugestão do profissional de saúde, ou seja, médico, enfermeira ou parteira. A iniciativa tem que partir sempre da mulher, ela vai dizer “doutor, eu quero fazer o meu parto na minha casa”, aí eu aprofundo a conversa perguntando para ela o quanto ela quer este parto domiciliar e o motivo deste desejo. Vou aprofundando as perguntas como se fosse uma árvore, que você começa com uma pergunta e, a partir da resposta, tem os galhos que vão se ramificando.

A segunda condição é uma gestação de absoluta normalidade. Ela não pode ter nenhuma intercorrência, nenhum problema de saúde, nem ela e nem o bebê. Qualquer intercorrência durante a gestação deve levar o parto a ser hospitalar. É a chamada gestação de risco.

O terceiro ponto é que, por ser uma gestação de baixo risco e haver a possibilidade de se transformar em uma gestação de alto risco durante o parto, pode haver uma necessidade de remoção, do transporte materno ou do bebê para um hospital, então é fundamental que ela tenha um plano B. Ou seja, um hospital de referência que fique a menos de 20 minutos da sua residência. Para isso, costumo dizer assim: faça o trajeto da sua residência ao hospital X num domingo de manhã, de trânsito livre, para você ver o percurso mais rápido, e faça esse mesmo trajeto numa sexta-feira no começo da noite, para ver o tempo do percurso mais lento. Assim, ela pode achar um hospital que tenha toda a infraestrutura necessária para uma operação cesariana de emergência ou para uma necessidade de uma UTI, tanto para a mãe quanto para o bebê.

Denúncia do Cremerj

Acho que existem muitas variáveis que podem estar envolvidas. Veja bem, “podem” estar. Quem sou eu para analisar isso, afinal, não participo dos conselhos, já participei do Cremesp e de uma entidade chamada Câmara Técnica da Saúde da Mulher, mas não posso saber sobre a atual legislatura . Ainda não recebi a denúncia, então não sei no que eles se baseiam para me denunciar. Mas, de qualquer forma, nós sabemos que de uma maneira geral médicos não querem que enfermeiras atendam partos. De uma maneira geral, lógico que existem exceções, como eu e muitos outros.

Mas eu não estou sozinho. Não invento nada, não sou nenhum criador ou gênio. O que falo é produto de muita leitura, baseado em evidências científicas de primeira qualidade e também na minha experiência pessoal. A OMS já preconiza desde 1985 que o parto é um evento natural na imensa maioria das vezes, digamos, 90% das vezes, e a mulher não precisa do médico para parir. É um ato fisiológico, é um ato natural. Quando você tem duas ou mais profissões que podem fazer a mesma tarefa, no caso, médicos, enfermeiras e parteiras, vai haver conflitos de interesses. Não só de prestígio, como interesses financeiros. Acredito sim que muitos médicos se sentem ameaçados pelo fato das enfermeiras poderem fazer partos.

Doulas, médicos e enfermeiras

Para dar um exemplo, existe a figura da doula, que é uma acompanhante. Não é uma profissão, e sim uma ocupação, reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Não tem sindicato nem lei do exercício profissional. Existem doulas que estão tão bem na sua ocupação que ganham quatro vezes mais que um médico para atender um parto. Isso causa no mínimo uma estranheza na classe médica. Uma profissão que não é profissão, uma ocupação, que exige evidentemente muita dedicação, não tem hora, dia ou lugar para a mulher entrar em trabalho de parto.

É uma ocupação muito difícil. É preciso gostar muito do que faz, mas ela pode ser melhor remunerada que o médico. Da mesma forma que os médicos não aceitam enfermeiras para realizarem partos, muitas enfermeiras não aceitam doulas para atender partos. Não estou dizendo que a doula vai realizar o parto, e sim apoiar. Quem pode atender uma mulher em trabalho de parto, no hospital ou em casa, é o médico, a enfermeira ou a parteira. Mas a doula é uma figura fundamental, ela fica ao lado da mulher o tempo todo dando o apoio afetivo e emocional. Acho que sim, há interesses mercantilistas, porque muitos médicos se sentem muito incomodados com essa situação, assim como muitas enfermeiras se sentem muito incomodadas com o fato de doulas acompanharem partos, porque vão ganhar por isso.

 



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