Duas palestinas, a mesma luta

Na década de 1970, Leila Khaled atraiu atenção internacional com dois sequestros de aviões. Na década seguinte, surgiu a União dos Comitês de Mulheres Palestinas, na qual atua até hoje Abla Sa’adat. Conheça um pouco mais dessas duas trajetórias

315 1

Na década de 1970, Leila Khaled atraiu atenção internacional com dois sequestros de aviões. Na década seguinte, surgiu a União dos Comitês de Mulheres Palestinas, na qual atua até hoje Abla Sa’adat. Conheça um pouco mais dessas duas trajetórias 

Por Sâmia Gabriela Teixeira

“Este é o voo TWA 840”, disse o piloto quando foi interrompido por uma elegante mulher vestida de branco. Ela, enquanto segurava uma granada já sem o pino, tomou o rádio e alertou: “Não, este não é mais o voo 840. Senhoras e senhores, sua atenção, por favor. Este é o seu novo capitão falando, Shadia Abu Ghazali. O Comando Che Guevara, unidade da Frente Popular pela Libertação Palestina (FPLP) acaba de assumir o comando do voo da TWA”. Enquanto voavam sobre Israel, caças militares acompanhavam o avião comercial sequestrado. Mas o avião seguiu para Damasco e pousou sobre uma pista de concreto, já construída com antecedência pelo movimento palestino de resistência.

Após o pouso, a mulher de branco anunciou aos passageiros: “Saiam todos. Há uma bomba neste avião”. A aeronave explodiu assim que as pessoas desembarcaram e seguiram para um local seguro. A intenção da FPLP era de pousar em território árabe amigo para julgar o embaixador israelense nos Estados Unidos, Itzhak Rabin, ex-chefe do Estado-Maior do Exército Israelita, que participou da Guerra de 1967. Mas, na última hora, Rabin desistiu de embarcar. Apesar disso, esse primeiro sequestro de avião realizado pela palestina Leila Khaled, a elegante mulher vestida de branco, serviria para torná-la conhecida no mundo inteiro. Depois de três meses, Leila e seu companheiro foram liberados pela polícia síria, e a causa palestina passava a receber os holofotes da mídia.

Hoje, com 67 anos, Leila ainda é referência de luta em terras árabes. Ela esteve no Brasil entre novembro e dezembro para uma série de debates sobre a resistência palestina e as ocupações israelenses. Para ela, a atualidade pede novos caminhos para revolucionar. “Os palestinos eram conhecidos somente como refugiados. O mundo não sabia que tínhamos uma causa, uma terra ocupada. Então, nós utilizamos uma determinada tática para que o mundo nos enxergasse. E essa tática foi a força. Quando você usa o poder, quando você usa força, o mundo passa a te dar atenção. Hoje, não é mais necessário o sequestro de aviões. Essas ações não nos deram respostas, os sequestros deixaram a pergunta. E a revolução nos dará a resposta”, disse Leila, enquanto acendia um novo cigarro.

A questão e a resposta

A pergunta que, segundo Leila, os sequestros deixaram é “quem são os palestinos?” Décadas depois, de acordo com ela, os palestinos já são conhecidos e a opinião pública é considerada mais crítica em relação a Israel. “A revolução começou quando a raiva palestina emergiu após a invasão de Israel no sul do Líbano, em 1982. Em 1987, quando aconteceu a primeira Intifada nos territórios ocupados, o mundo todo começou a nos escutar. Viram as crianças jogando pedras e todas as pessoas indo para as ruas. O mundo então descobriu a questão palestina e reconheceu Israel como um ocupante, um opressor. Desde então, temos delegações de movimentos e comitês chegando à Palestina para denunciar a realidade, para ver como vivem os palestinos e como Israel lida com eles. E temos, a cada dia, mais e mais pessoas ao nosso lado.”

Aliás, essa crença de Leila na revolução é sóbria, sem exageros, consciente e, mesmo com o forte sentimento de esperança, ela fala com a racionalidade de uma guerrilheira. Para ela, uma terceira Intifada ainda está muito longe de ocorrer, e acredita que ainda teremos muitos anos para que as questões políticas na Palestina ganhem mais forma e consistência. Leila também não aposta suas fichas em acordos entre Hamas e Fatah ou na criação do Estado Palestino. “Não podemos ignorar esses dois grupos, pois são componentes desse cenário. Mas a pressão popular nas decisões de Hamas e Fatah deve existir sempre. Quanto à criação do Estado, defendo que exista um Estado único, laico, onde as terras sejam compartilhadas entre judeus, palestinos, muçulmanos e cristãos, sem distinção alguma. Uma nação democrática. Mas então eu pergunto, Israel está disposto a aceitar isso?”.

Quem vê essa mulher, falando com voz rouca e firme, cheia de questionamentos e duras afirmações, tenta imaginar como foi a sua infância e seu envolvimento na luta política pela libertação da Palestina. Leila tinha quatro anos de idade quando a Palestina virou Israel. Um grupo terrorista judeu, chamado Stern Gang, foi protagonista de um dos mais trágicos massacres no vilarejo de Deir Yassim, matando centenas de homens, mulheres e crianças. A família de Leila abandonou Haifa, onde moravam, e buscou refúgio no sul do Líbano. E foi na escola dos campos de refúgio que Leila notou as primeiras distinções de tratamento. “Todos tinham, cada um, seu próprio livro. Eu sempre tinha de dividir o meu com meus irmãos. Quando perguntava o motivo disso a minha mãe ela respondia ‘isso acontece porque somos palestinos. Só teremos o inteiro quando voltarmos à nossa terra’. Isso não saía mais dos meus pensamentos e acredito que foi então que comecei a militar”, relembrou.

Como membro, até hoje, da FPLP, Leila continua seu trabalho na Palestina, mesmo não podendo pisar em sua terra natal. Os trabalhos do movimento de resistência são dirigidos à juventude e às mulheres, que no cenário atual têm papel fundamental no campo político. “A juventude e as mulheres são o nosso futuro. Pensando assim, devemos transferir a nossa experiência para eles. Mostrar o que está certo, o que está errado, e o que Israel faz. Obter conhecimento também é uma luta. Temos que estimular a juventude a construir um novo futuro para o nosso povo. Educá-las politicamente, pois educação também é uma arma. Nosso inimigo tem nos educado esses anos todos, e eles usam a educação contra nós. Agora, temos para a revolução a tecnologia e a comunicação, e os jovens usam essas ferramentas de um modo muito eficaz”, disse.

Resistência dentro e fora das grades

Outra palestina que atua com esse objetivo de politização e articulação de resistência, principalmente com as mulheres, é Abla Sa’adat, dirigente da União dos Comitês de Mulheres Palestinas. Nascida no vilarejo de Betrima, em Ramallah, a palestina de 56 anos nem sempre esteve envolvida com a política. Hoje, ela é referência na luta das mulheres e nas campanhas pela libertação de presos políticos. O companheiro dela, Ahmad Sa’adat, é o secretário-geral da FPLP, e, de alguma maneira, foi uma forte inspiração para o engajamento político e social dela. Ele está detido desde 2001. Antes, já havia sido preso em 1968, 1969, 1970 e em 1976. Membro da FPLP, Ahmad tornou-se secretário-geral do movimento após a morte de Abu Ali Mustafa, um dos fundadores da frente, e ganhou destaque internacional pelo seu ativismo político e influência na luta palestina, mesmo estando em cárcere.

Abla o conheceu em 1968 e descobriu logo que a personalidade contestadora daquele jovem a faria se apaixonar por ele. “Eu trabalhava na casa vizinha à do Ahmad. Como era comum a troca de visitas entre as famílias, nos vimos muitas vezes por lá. Nos apaixonamos desde o início. Quando o vi falando sobre política e religião, com tanta convicção, segurança, confiança, logo o achei interessante, muito culto e inteligente”, relembrou. Desde 2008, quando foi condenado a 30 anos de prisão, ele está proibido de ver esposa, filhos ou qualquer outro parente. Até 2006, ele estava preso em Jericó, sob poder das autoridades palestinas. Em uma ação israelense, foi sequestrado pelas forças militares de Israel com mais outras centenas de presos políticos. Abla assistiu ao vivo a invasão militar. “Eu tinha medo que, com as explosões, as paredes caíssem em cima dos presos. Quando ouvi a voz de Ahmad numa reportagem da Al Jazeera, fiquei tranquila. Depois, vi os palestinos sendo trazidos somente com a roupa de baixo, e pensei que Ahmad seria morto, pois ele nunca permitiria que o forçassem a sair somente com a roupa de baixo. O mais difícil era aparentar ser forte na frente da imprensa e dos meus filhos. Perdi a paciência quando um repórter da NBC me perguntou se Ahmad resistiria até o fim. Eu respondi ‘resistir até o fim? Como resistir, sem nem ter as roupas do corpo, contra armas pesadas e militares descendo de helicóptero?’”, relatou.

Assim como Abla, milhares de mulheres palestinas sofrem com a detenção dos companheiros. Vivendo neste cenário, além de campanhas pela libertação dos presos políticos, que totalizam 4.900, ela atua na educação política das mulheres e viabiliza a autonomia dessa parte da sociedade que, hoje, livre dos cárceres israelenses, é a maior porcentagem da população palestina em terras ocupadas. “Como a educação está nas mãos de Israel, construímos creches para que as mulheres tivessem mais tempo para a militância. Incentivamos cooperativas para que possam gerir seu próprio negócio, e, principalmente, as conscientizamos do papel que a mulher tem hoje numa sociedade em que muitos homens, que antes eram chefes de família, estão presos pelas forças militares israelenses”, explica.

A questão dos presos políticos é um dos principais temas discutidos nos trabalhos com as mulheres. Abla considera esta uma questão tão importante quanto “o muro do apartheid, as campanhas de boicotes e criação de Estado palestino”. Para ela, é necessário reconhecer a ilegitimidade da prisão dos palestinos antes de conquistar a queda dos muros de Israel em terras palestinas. E que, exatamente por existir um contexto de opressão, “reconhecer o Estado palestino é o mesmo que reconhecer a ocupação israelense”. Para ela, a questão dos presos políticos deve ser considerada como a mais urgente a ser atendida. Segundo Abla, as consequências de uma detenção ilegal vão muito além do sofrimento do detido. “Quando falamos em quase cinco mil prisioneiros, não falamos apenas sobre números oficiais. Não são cinco mil injustiçados, mas cinco mil famílias que sentem a impunidade de um terrorismo de Estado, que vem de Israel. Vale lembrar que isso é terrorismo, e não o engajamento de cada preso político que lutou pela libertação de seu povo”, desabafou Abla.

As possibilidades de vitória

É possível que Leila Khaled, símbolo de resistência, não veja o dia em que a Palestina será libertada. Mas ela deixa para os jovens e mulheres um legado de confiança no poder dos movimentos políticos. Para quem acha que serão necessárias armas pesadas para a revolução palestina ganhar força, Leila redesenha com detalhes as cenas de crianças e mulheres que na primeira e segunda Intifadas estiveram à frente dos protestos, utilizando apenas pedras contra tanques militares. “Quando eu participei dos sequestros, me senti muito encorajada pelo meu povo. Tanto por homens como pelas mulheres. Mas me tornei essa espécie de símbolo de força, então tive que trabalhar com meu povo, ao lado dele, nos campos de refúgio, para que me enxergassem como um ser humano, e não um ser intangível”, explica Leila.

“Eu e outros companheiros mobilizamos palestinos para participar da luta, e muitas mulheres e jovens se uniram à causa. Mas, algumas mulheres não sabiam como ajudar, tinham filhos para criar. Pensávamos ‘como trazê-las também para a revolução, para a guerrilha?’. Uma senhora já de idade veio falar comigo e disse ‘eu tenho sete filhos. Estava lavando roupas agora na lavanderia em que trabalho quando soube que você estava aqui. Me diga, como eu posso ajudar?’. Eu disse ‘você fará parte da revolução se trouxer esse espírito de luta para as crianças. Você não precisa vir conosco e lutar, mas pode fazer a revolução cuidando de seus filhos’. Hoje, não precisamos de sequestros de aviões”, concluiu Leila, enquanto apagava o seu último cigarro.



No artigo


x