O microfone aberto do Fora do Eixo

Congresso realizado em São Paulo reuniu 1.800 pessoas de todo o Brasil e chama a atenção para o debate cada vez mais efervescente em torno da música brasileira

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Congresso realizado em São Paulo reuniu 1.800 pessoas de todo o Brasil e chama a atenção para o debate cada vez mais efervescente em torno da música brasileira

Por Pedro Alexandre Sanches

O programa de TV está no ar. O assunto é educação: deficiências do ensino, os descaminhos dos educadores, o acesso das camadas sociais menos favorecidas à universidade, as cotas raciais. Rafael Moysés, negro, nascido em 1988, está sentado no auditório e pede a palavra. Surpreendentemente, os apresentadores concedem. Rafael senta-se ao sofá, ao lado dos educadores.

Ele se manifesta. Conta que entrou via Enem no curso de cooperativismo da Universidade Federal de Viçosa (MG). Filosofa. Intimida-se: “Eu sou calouro ainda, estou só começando”. Continua a filosofar. Dali a pouco, outra estudante, também afrodescendente, senta-se à roda e conta sua experiência com a universidade. O programa de TV progride.

Não estamos sintonizados na Globo, nem na televisão aberta, menos ainda na paga. O programa vai ao ar pela Pós-TV, que o produz e transmite via internet a partir da Casa Fora do Eixo, no bairro paulistano do Cambuci. Do lado de fora, há churrasco e cerveja, dentro da casa, há programa de (pós-) TV. Rafael perdeu a mãe neste ano, não tem iPad, falta-lhe um dente no sorriso aberto. É pobre, e muito, muito inteligente. É um entre centenas de foras-do-eixo que zanzam por ali, plenos de orgulho e vontade de viver e fazer diferença.

É o oitavo e último dia de jornada do IV Congresso Fora do Eixo, sediado no Paço das Artes, na USP, entre 11 e 18 de dezembro passados. Segundo o mato-grossense Pablo Capilé, líder mais visível do movimento Fora do Eixo, 1.800 pessoas de todos os cantos do Brasil participaram do congresso. Quem quis fumar maconha, fumou, e a polícia política tucana instalada na USP nem percebeu, ou fez que não.

Fora do Eixo (FdE) é uma movimentação que cresceu exponencialmente nos últimos anos, primeiro, a partir de Cuiabá (MT), depois, via internet, redes sociais e um circuito de festivais de música espalhados pelo Brasil. A música é o motor de tudo, mas frequentemente fica nítido que ela é mais meio que finalidade – isso talvez ajude a explicar a resistência de muitos músicos, e também de jornalistas musicais e culturais, ao processo de aglutinação e desenvolvimento dos fora-do-eixo.

Por sinal, o congresso trata também de comunicação e jornalismo. E de meio ambiente. Política cultural. Educação. Economia solidária. Política identitária (tímida, ainda, no que se refere a gênero, raça, sexualidade). Política (anti-) partidária. E assim por diante, num carrossel de temas e não temas – a “não programação” é uma das provocações lançadas pelos organizadores; “o debate é sobre vida”, (não) define, a certa altura, Capilé. Estranhamente, a ciranda caudalosa de “nãos” parece conduzir, pouco a pouco, a alguns “sins”.

Num debate sobre jornalismo e a necessidade de se construir um sistema fora-do-eixo de comunicação, extra-Folha,Veja etc., o jornalista mineiro Israel do Vale pergunta à grande plateia no vão (quase) livre do Paço das Artes: “Quantos jornalistas culturais estão aqui?”. Ninguém levanta a mão. “Quantos jornalistas estão aqui?”, refaz. Nenhum, além dos que estão presentes à mesa (Alex Antunes, Bruno Torturra, Eduardo Nunomura, Lino Bocchini e eu).

Não se veem, tampouco, músicos e artistas, além dos integrantes do grupo matogrossense Macaco Bong, que já foi premiado pela Rolling Stone brasileira e integra o coletivo de coletivos hoje chamado Fora do Eixo (na origem, em Cuiabá, era Espaço Cubo). Mas expliquemos melhor: os artistas que não estão presentes são aqueles que contam com o aparato de mídia, gravadora, programa de TV aberta, páginas de revistas de celebridade. Fora dessas categorias, todo mundo no congresso Fora do Eixo é artista – e jornalista e comunicador, e educador e estudante, e, de algum modo próprio e particular, fora-do-eixo. Não fosse, aqui não estava, como provam os ausentes e a ausência quase completa de repercussão na mídia tradicional.

Diferentes vozes

Desviar o debate do centralismo e da miséria intelectual rotineiramente praticados pelo velho eixo Rio-São Paulo é um programa explícito de ação do FdE. Tomar o poder (que poder?) do velho eixo parece ser outro objetivo, esse menos trombeteado. Chegando de mansinho já há alguns anos, FdE é um planeta pequeno (mas em crescimento contínuo), em rota de colisão com o eixo midiático-cultural que empobrece o Brasil há décadas.

No final da noite de sábado, 17 de dezembro, acontece no Paço a última plenária do congresso. Capilé propõe o formato arriscado, que tem tudo para dar errado: o microfone ficará à disposição de quem quiser manifestar o que quiser manifestar. Sete cadeiras de plástico permanecem desocupadas no centro do debate. E um pequeno fenômeno começa a acontecer.

Gente de todos os sotaques vêm se pronunciar. Muitas mulheres chegam ao microfone, com um invariável discurso introdutório, do tipo “estou nervosa”, “não estou acostumada a falar em público”. O próprio FdE puxou essa ciranda de expressão feminina, ao abrir oficialmente o congresso, na segunda-feira, 12, com uma mesa formada por 11 mulheres, no palco do solene e algo intimidador auditório Ibirapuera. Mantida pelo banco privado Itaú, a casa de espetáculos aceitou o fora-do-eixo-card, controversa moeda paralela do FdE, como pagamento de aluguel do espaço.

Entre as mulheres fora-do-eixo que abriram o congresso, havia gestoras da Petrobrás, da Vivo, da Vale e do FdE, a onipresente professora de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ivana Bentes e a cantora e a compositora paraense de tecnobrega Gaby Amarantos.

Mas voltemos à plenária de microfone aberto. Em mais de um momento, a encenação coletiva adquire feição que lembra reunião de alcoólicos ou narcóticos anônimos – só que não são anônimos, nesse caso. Vem ao microfone o alto e magro integrante de um duo-casal musical gaúcho de Santo Ângelo (infelizmente, não anotei os nomes). Ele é o mesmo que, dias antes, conversara sobre casamento bissexual com o casal Vange Leonel-Cilmara Bedaque, numa roda-ciranda sobre identidade sexual, sexualidade, feminismo, rock etc. Ao microfone aberto, diz que andava pensando seriamente em suicídio antes de vir ao congresso. Narra as dificuldades de ser fora-do-eixo no interior do Rio Grande do Sul. Promete que o suicídio está descartado, sob ovação da plateia.

“A vontade é me explodir agora em milhões de pedaços”, diz a capixaba Carol Ruas, que, além de mulher, se revela jornalista. Um poeta negrobrancomestiço vestindo saia lança o movimento “Os Femininos”, em referência amorosa ao subgrupo fora-do-eixista Femininas. Apodera-se do microfone gente de Santa Catarina, Ceará, Pernambuco, interior paulista, outros países da América Latina. “Tô nervoso, porque estar diante do espelho é foda”, proclama um escritor de sotaque norte-nordestino, mas radicado no centro duro de São Paulo.

Há laivos de terapia grupal, reunião sindical, assembleia estudantil e mesmo de culto religioso. Há ali gente da Central Única das Favelas (ex-presidente, o carioca Celso Athayde circulou pelo Paço outro dia). Os fora-do-eixo têm um quê de Movimento Sem Terra, de Movimento Sem Teto, de Movimento Sem Mídia.

Mas a tônica comum não é a de nenhuma dessas iniciativas. É outra: todo mundo que vem ao microfone é unânime em dizer que está feliz, muito feliz. Todos celebram a intensa experiência coletiva, o aprendizado grupal, a vivência nerd-hippie-politizada-hedonista. Ninguém tem queixas genéricas a fazer. Todos sacam discursos otimistas, querem produzir, agir, interagir e participar. Ninguém se queixa da vida, dos políticos ou do país. Todos esperam e preveem um glorioso 2012.

“O próximo congresso é daqui a um ano, logo depois do fim do mundo”, brinca com as profecias apocalípticas em voga Cláudio Prado, 66 anos, que acompanhou os Mutantes e os Novos Baianos, trabalhou com Gilberto Gil no Ministério da Cultura e está perdidamente apaixonado pelo FdE. Otimista entre otimistas, Cláudio sabe como ninguém que uma revolução cultural está em curso. De algum modo, o Congresso FdE é o “occupy qualquer coisa” daqui, disposto em rodas de ciranda anordestinadas, em vez de em acampamentos, protestos armados ou marchas anticorrupção vestidas de vassouras. Se é revolução ou não, ainda não sabemos. Mas que há um fenômeno cultural em curso, há – nos dividiremos entre os que estamos percebendo isso e os que não estão.

Entusiasmo e animosidades

O FdE provoca animosidade à mesma medida que causa entusiasmo. Logo no início do congresso, um grupo de 13 festivais musicais anuncia sua desfiliação da Abrafin, Associação Brasileira de Festivais Independentes. Estão descontentes com o que chamam de sobreposição do sistema FdE aos interesses da Abrafin – de fato, o atual presidente, Talles Lopes, é fora-do-eixo mineiro. O goiano Fabrício Nobre, presidente anterior, também era (e é), mas de uma fase em que o FdE ainda não chamava tanta atenção.

Ao que tudo indica, dá-se uma disputa que opõe os termos “reserva de mercado” e “código aberto”. O chamado “grupo dos 13” saiu incomodado com o assédio de pequenos festivais à Abrafin e com o desejo do FdE em aceitá-los sem reservas na associação. O FdE prega regionalização e descentralização, acesso para o maior número possível de festivais à Abrafin.

Desconfiados, os opositores temem que o Fora do Eixo queira, ao contrário, centralizar e manipular pequenos festivais, para acumular controle decisório e de verbas – os editais públicos à disposição são outro vespeiro a opor os que dizem não gostar de política (mas a praticam no bastidor) e os que gostam e praticam mais ou menos abertamente (os FdE).

O confronto toma aspectos freudianos. Ao longo do congresso, a música independente de Pernambuco assoma como inimigo preferencial nos discursos de Capilé – dois dos festivais que abandonaram a Abrafin, os pioneiros Abril pro Rock e RecBeat, são de fato pernambucanos. De certa forma, a desterritorialização FdE se contrapõe à revolução cultural/estética/política batizada manguebit, que recolocou Pernambuco no centro do debate cultural em meados dos anos 1990. O FdE não existiria sem os antecedentes pernambucanos, e nesse ponto Capilé parece se voltar contra o próprio pai.

Não à toa, o principal porta-voz anti-FdE tem sido o pernambucano China, ex-Sheik Tosado, atual Del Rey, artista solo e VJ da MTV. Ele acusa o FdE de pregar o não-pagamento de cachês aos artistas que tocam em seu circuito, o que é no máximo uma meia-verdade, mas contamina o debate midiático feito rastro de pólvora.

Artística e politicamente, China torna-se paradigma e exemplo de um modo anti-fora-do-eixo de agir. Faz política cultural de “trollagem” (para usar termo em voga nas redes sociais) ao FdE, enquanto prega, em música, a não-politização da música. “Não é música para entender/ só serve pra dançar/ não é hino de uma geração/ nem a mais pedida na Voz do Brasil/ sem discurso, sem intenção/ só serve pra dançar”, canta em “Só Serve pra Dançar”, carro-chefe de seu mais recente disco, Moto Contínuo (2011).

Do outro lado, Capilé morde a isca e reage aos primeiros fomentadores da cena heterogênea que hoje prospera. Acusa-os de “estagnados”, tomando uma parte pelo todo, como se o problema fosse o estado inteiro de Pernambuco, e não alguns de seus representantes.

Um trecho de debate da Pós-TV sobre a Abrafin, levado ao ar no domingo 28, virou hit na comunidade musical após ser retirado do ar pelo Fora do Eixo e, em seguida, vazado via YouTube. Ali, Capilé tecia críticas megalomaníacas a Pernambuco, e os adversários (China à frente) se refestelaram. O ato antidemocrático custou caro ao FdE. No front crítico, deixaram-se de lado o debate de alto nível e as propostas construtoras do congresso. Focaram-se única e exclusivamente na rusga aloprada com Pernambuco e nos pendores autoritários do líder dos fora-do-eixo.

Distantes do debate, caracterizaram Capilé como Hitler e se lançaram ao ataque, ironicamente sob contornos também nazistas, assustadores. Saiu todo tipo de bicho da caixa de Pandora de rancores (de novo atiçados pelos FdE, que se dizem “pós-rancor”, mas evidentemente não são desprovidos dele): racismo, homofobia, misoginia, aversão à política, torcida contra, trogloditismo generalizado.

O tipo físico caboclo/cafuzo/mameluco de Capilé foi intensamente ridicularizado nas redes. Naquele debate da Pós-TV, transmitido da casa onde ele trabalha e mora coletivamente (e onde pouco antes Rafael Moysés conquistara o direito à palavra), Capilé estava descalço, molambento. Os guardiães da “boa aparência” apelidaram-no de Mogli (o “menino lobo”), desqualificaram seu discurso via aparência e chacotearam sua postura na cadeira. Ridicularizavam o índio por sentar de cócoras, enquanto viam apenas no índio (nunca neles próprios) a sombra antidemocrática de Hitler.

A celeuma em torno da pernambucofobia e da foradoeixofobia está a pleno vapor em 21 de dezembro, quando concluo este texto. A princípio, preconceitos e fobias de parte a parte parecem abater, em pique de autossabotagem e tiro no pé, o caráter ensolarado do novo edifício que o congresso erguia alegremente.

Mas, aconteça o que acontecer daqui por diante, o debate cultural em torno da música brasileira ferve como nunca se viu em décadas recentes. E, picuinhas à parte, deve ser em grande parte creditado a figuras como Capilé e China, e a movimentos como o avassalador Fora do Eixo. Poeiras assentadas, saberemos o que restará do congresso, das sabotagens e do debate ligeiramente democratizado.

Como no caso do câncer de Lula, a agressividade dos livre-atiradores expõe mais os críticos que os criticados. À parte equívocos e desvarios dos fora-do-eixo, há ódio branco, “macho” e conservador atrás da má vontade com um movimento novo, propositivo, proativo, potencialmente transformador. Com trocadilho (contra-) racista e tudo, nunca passa em brancas nuvens o momento em que índios, negros, bichas, mulheres, muçulmanos, gordos, feios, loucos, foras-do-eixo e desajustados em geral se autoinvestem de poder e protagonismo.

 

 



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