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A violenta desocupação ocorrida em São José dos Campos esconde interesses imobiliários, políticos e o problema crônico da falta de moradia

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A violenta desocupação ocorrida em São José dos Campos esconde interesses imobiliários, políticos e o problema crônico da falta de moradia

Por Igor Carvalho

Um terreno de 1,3 milhão de metros quadrados. De um lado, 6 mil pessoas. Homens, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, deficientes. Do outro, 2 mil homens da Polícia Militar, com tropa de choque, helicóptero, cavalaria e a Guarda Civil Metropolitana da prefeitura de São José dos Campos. Uma ação que foi contestada e condenada por representantes do poder público, da sociedade civil e de alguns órgãos da imprensa, alcançando repercussão no mundo todo e denúncias a organismos internacionais. As imagens de pessoas feridas, chorando suas perdas materiais e correndo com seus filhos no colo contrastam com as declarações dos responsáveis pela operação, que teria sido um “sucesso”: a juíza Márcia Loureiro, responsável pela ordem de reintegração de posse da área; o coronel Manoel Messias Mello, que comandou a operação; o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury (PSDB).

Todos os caminhos para se compreender o que foi a ação levam à especulação imobiliária, entremeada por interesses políticos, confessos ou não. Há, nesse imbróglio, uma figura conhecida, Naji Nahas. O libanês naturalizado brasileiro, outrora megaespeculador, foi preso em 2008, como resultado da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Sua empresa, a Selecta Comércio e Indústria S.A., é proprietária do terreno que as famílias ocuparam em 2004. Em 22 de janeiro de 2012, a juíza Márcia Loureiro autorizou a reintegração de posse do Pinheirinho. Ao fazê-lo, descumpriu um acordo costurado pelo senador Eduardo Suplicy (PT) com o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Ivan Sartori, e o juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, da 18ª Vara Cível de São Paulo, responsável pelo processo falimentar da Selecta. O acordo previa um período de 15 dias de negociações, evitando o confronto e o uso da força.

A gênese da desocupação

“Quero a casa do parquinho”, pedia o menino Pablo, de quatro anos de idade. Muito abatido, roupas sujas, conversou com a reportagem quando estava na igreja Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, sentado no colo de sua mãe. Mascando um pedaço de madeira, observava a irmã dormindo em um berço improvisado, dentro do carro de puxar entulhos, do pai. Reginaldo Santos Miguel, 34 anos, é o pai das duas crianças. O parquinho a que Pablo se refere foi construído pelo pai, no quintal de sua casa, que ficava em um lote de 250 m² no terreno ocupado. Tentando entender o que tinha acontecido havia menos de 24 horas, o carroceiro desabafa: “Olha, pra mim tá acontecendo algo muito grande aí, coisa de grana, né? Tem interesse grande e muito dinheiro, moço. Estão tirando minha casa para devolver o terreno para um ladrão. Comprando um monte de gente para maltratar e dar tiro em senhora, criança, pobre e gente que é deficiente. Muito sangue, pra quê? Tinha que ver o terror que foi aquilo lá, moço. Tudo isso pra fazer favor para esse corrupto.”

Reginaldo se refere a Naji Nahas, cuja empresa foi a última dona de um vasto terreno com uma história conturbada. A primeira versão que circulou na mídia sobre a origem da área do Pinheirinho revelou-se um grande boato. Dizia-se que as terras eram propriedade de quatro irmãos alemães, assassinados em 1969. Por não haver herdeiros e nem testamento, essas terras teriam sido incorporadas pela prefeitura de São José dos Campos. Depois, tornaram-se alvo de grilagem, até chegar, misteriosamente, às mãos de Naji Nahas.  A reportagem de Fórum investigou o histórico de propriedade da terra e teve acesso a documentos e certidões dos últimos cem anos da área, que comprovam que essa versão é falsa.

Em 1912, Manoel Antonio Teixeira, morador de Jacareí (cidade próxima a São José dos Campos), comprou o terreno de Francisco Truyts. Muitos foram os proprietários até 1959, quando Bechara Lahud comprou as terras, na época conhecida como Bairro do Rio Comprido. Durante os 16 anos seguintes, esse terreno continuaria sendo patrimônio da família Lahud e, somente em 27 de junho de 1978, os Lahud o venderam para Benedito Bento Filho, empresário do ramo hoteleiro de São José dos Campos. Após cinco anos com o terreno, o “comendador Bento”, como é conhecido na cidade, o vende para a Selecta Comércio e Indústria S.A., empresa de Naji Nahas.

Em 1978, quando adquiriu o terreno, Bento protocolou na prefeitura de São José um pedido de loteamento para a construção de 5.140 moradias. No ano de 1983, justamente o ano da aquisição das terras pela Selecta, a prefeitura cancelou esse loteamento e modificou o zoneamento da área, que passou de residencial para industrial, o que valorizou o terreno à época.

Mas a Selecta teve vida curta e faliu em 1989. Justamente quando o especulador Naji Nahas aplicou um golpe na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Ele foi acusado de tomar empréstimos e negociar, por meio de “laranjas”, ações em benefício próprio. Seus movimentos fizeram alavancar os valores de suas ações, e, nesse momento de pico, ele as vendia e embolsava uma diferença suficiente para pagar os bancos e lucrar. Com a falência, a Selecta, que nunca teve funcionários, passou a ter que saldar algumas dívidas com empresas parceiras em investimentos e com a União e o Município, já que nunca pagou impostos referentes ao terreno. A dívida com o município, hoje, é de R$ 15 milhões, só em IPTU, motivo da penhora do terreno, efetivada em 1992.

Satiagraha e o Pinheirinho 

No dia 31 de dezembro de 2003, tocou o celular de Waldir Martins, conhecido como Marrom. Do outro lado da linha, um morador que ocupava parte de um conjunto habitacional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) junto com outras 70 pessoas, no Parque Dom Pedro, bairro da zona sul de São José dos Campos. Os moradores tinham sofrido uma baixa no movimento com a saída de Santos Neves, um dos principais líderes, e careciam de uma nova referência. Marrom, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, conhecia a causa dos moradores, mas ainda não tinha atuação efetiva entre eles. Assim que percebeu as condições em que estavam as famílias e sabendo da possível remoção, juntou-se à luta e pensou em uma nova possibilidade para os sem teto. “O Pinheirinho era uma área conhecida pelos Movimentos de Sem Terra, uma área enorme, completamente improdutiva, e decidimos ocupar.” Em 26 de fevereiro de 2004, Marrom e mais 340 famílias entraram pela primeira vez no Pinheirinho, para ficar.

A reação foi rápida. Ainda em 2004, a massa falida da Selecta entrou com um pedido de reintegração de posse. O juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, da 18ª Vara Cível de São Paulo, responsável pelo processo falimentar da empresa, concede a liminar, que é imediatamente contestada pelos advogados do movimento. Em 2006, a RS Administração e Construção Ltda. compra toda a dívida da Selecta, estimada no valor total de R$ 48 milhões, segundo os advogados dos moradores do Pinheirinho. Antonio Donizeti, advogado do movimento, explica o que significa essa operação. “É uma falcatrua. A RS é uma empresa fantasma, com sede no Panamá. O que está acontecendo aí é que a RS passou a negociar a dívida com o município, toda vez que há uma negociação e um parcelamento zera-se o processo, então protela-se o processo falimentar. Em algum momento, a prefeitura pode tomar o terreno, através de um acordo, e a RS não vai ter desembolsado dinheiro algum. O que piora esse cenário é que uma terceira empresa não pode negociar as dívidas da Selecta com o município, os advogados são os mesmos, da Selecta e da RS, posso dizer porque participo das audiências.”

Um dos sócios da RS é Teófilo Guiral Rocha, um advogado ligado diretamente a Naji Nahas. Em um dos relatórios da Polícia Federal que fundamentava o pedido de mandados de busca e apreensão referentes à Operação Satiagraha, diversas escutas telefônicas descrevem a relação entre os dois, sendo que o nome do advogado de Nahas aparece 84 vezes no documento.  Ali, consta que “TEÓFILO GUIRAL ROCHA é advogado e responsável pela ‘legalização’ dos negócios de NAJI NAHAS”. O que se vê, no documento, são longas conversas entre os dois, sempre em tom de confiança mútua, e muitas vezes conduzidas por meio de códigos. Em um dos trechos, a RS Administração e Construção Ltda. é citada pelo próprio Teófilo.

“Em 24/03/08, às 15:18:16h, MARIO conversa com TEÓFILO e este diz que é diretor e sócio da firma RS (RS-ADMINISTRAÇÃO E CONSTRUÇÃO LTDA), juntamente com outra empresa do exterior denominada SOCIEDADE IMOBILIÁRIA DE INVESTIMENTOS. Perguntado sobre a SELECTA, TEÓFILO diz que há duas SELECTAS: uma denominada SELECTA PARTICIPAÇÕES E SERVIÇOS é o NAHAS e a esposa SULA, e outra, SELECTA COMÉRCIO E INDÚSTRIA, sendo procurador juntamente com o CANAÃ, tendo o NAHAS como seu diretor. MARIO diz que o início é a partir do dia 02/mai/08 (aparentemente deve estar falando de outra sociedade empresarial que estaria sendo montada por NAHAS).”

O que as conversas transcritas deixam transparecer é que Teófilo é um “laranja” de Nahas,  e a operação teria como objetivo fazer de Nahas um “credor de si próprio”. O documento de quitação da dívida é assinado no dia 1° de dezembro de 2006 pelo então advogado da Selecta Comércio e Indústria S.A., Wadih Helú, mais conhecido por ter sido presidente do Corinthians. Helú faleceu em 2011.

As tentativas de solução

“Desde o princípio, houve uma preocupação em estruturar nossa ocupação, torná-la o mais organizada possível para que fosse viável a nossa regulamentação”, relembra Marrom. Assim foi feito. O Pinheirinho era dividido em quadras, cada rua era nomeada com uma letra, cada casa possuía sua fossa, e o acampamento mantinha uma área urbana e outra rural, onde as famílias cultivavam alimentos para sua subsistência. Cada família tinha um lote de 250 m² para construir sua casa.

Em 2006, havia uma determinação das lideranças de que não seria permitida a entrada de mais famílias.  “Nós já estávamos com mais de mil famílias, sempre tivemos a ideia de oferecer um lote digno às pessoas, não poderia permitir que entrasse mais gente, já estávamos no limite.” Mesmo assim, mais pessoas foram chegando ao local, o que demonstrava o grave problema de déficit habitacional da região.

Naquele mesmo ano, os moradores receberam a visita de uma comissão criada pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), órgão ligado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos do governo federal, para intermediar um acordo entre a prefeitura e os moradores do Pinheirinho. A equipe era chefiada pela procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Ela Wiecko Castilho. Além dela, integraram a comitiva a procuradora Ivana Farina, o procurador da República em São José, Angelo Augusto Costa, e dois defensores públicos. A urbanista, arquiteta e professora de Urbanismo da PUC de Goiás, Lúcia Moraes, integrava a comissão e se recorda do que viu. “Eles já eram bem organizados, normalmente essas ocupações, com o passar do tempo, vão se tornando soberanas em suas necessidades.”

A comissão recomendou que fosse alterado, na região, o zoneamento, e que a área se tornasse de interesse social. Isso não aconteceu. “O zoneamento é de responsabilidade da prefeitura, eles não tiveram interesse em acatar nossa recomendação”, explica a urbanista, para em seguida salientar o descaso do poder municipal. “Depois dessa visita, fiz mais três ao Pinheirinho, mas nunca conseguimos nos comunicar com o prefeito, nem fomos recebidos por representantes da prefeitura.” Em uma das missões integradas por Lúcia Moraes – que foi relatora nacional de Direito Humano à Moradia Adequada, no período de 2005 a 2009 –,  realizada em julho de 2006, já era evidente a falta de disposição da prefeitura para estabelecer um diálogo com os moradores. “Encontra-se no Ministério das Cidades uma solicitação para que a comunidade possa comprar a área ocupada para construção das unidades habitacionais pelo Programa Credito Solidário, tendo sido acenada concordância pelo proprietário da área. No entanto, o processo encontra-se parado, já que a prefeitura recusa qualquer negociação e alega que as famílias fazem parte do cadastro da Secretaria Municipal de Habitação e devem  aguardar o momento para serem atendidas pelos programas de habitação do Município,  entre estes o Programa de Desfavelização em implantação na cidade”, dizia o relatório da missão.

Como parte das promessas feitas pelo governo municipal à população do Pinheirinho – e não cumpridas – está um ofício encaminhado aos moradores, pela secretária de governo da prefeitura de São José dos Campos, Claude Mary, em 1º de junho de 2010. Diz o documento oficial: “Em resposta ao Ofício solicitando agendamento de reunião para tratarmos da regularização da ocupação do Pinheirinho, informamos: A prefeitura reafirma que oferecerá apoio técnico para realização de projeto a ser encaminhado ao Ministério das Cidades e Secretaria Estadual da Habitação com o objetivo de obterem-se recursos para a regularização da ocupação do Pinheirinho.” Em nenhum momento a promessa se concretizou.

A remoção

Uma reunião realizada no dia 10 de novembro de 2011, entre a juíza Márcia Loureiro, o comando da Policial Militar, representantes da prefeitura de São José e da massa falida da Selecta, começou a determinar como seria a operação de remoção. Pouco tempo depois da reunião, nasceu, no Pinheirinho, a filha mais nova de Reginaldo Santos Miguel, o carroceiro que já era pai de Pablo; foi chamada de Pamela Eduarda de Oliveira Miguel. “Ah, foi bonito demais. Coisa de Deus na minha vida, essa menina. Era um sinal pra eu ficar mais tranquilo”, acreditava o ex-morador do Pinheirinho.

Em 12 de janeiro de 2012, um oficial de justiça entregou para o comando da Polícia Militar a decisão da Justiça Estadual, determinando a reintegração de posse. E os moradores impressionaram o país com imagens fortes. Alguns portam armas improvisadas com bambus, ferros e pedaços de pau. Trajam capacetes e escudos. Dão sua resposta, ao menos visual, ao forte aparato militar, que se montava para expulsá-los, no dia 14.

A juíza federal substituta, Roberta Monza Chiari, acatando uma ação cautelar da Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais, concedeu uma liminar que suspendia a reintegração de posse, quando todos os acessos à área já se encontravam fechados e 2 mil homens da Polícia Militar se dirigiam para lá, no dia 17. No mesmo dia, o juiz federal Carlos Alberto Antônio Júnior, substituto da 3ª Vara Federal em São José dos Campos/SP, cassou a liminar que suspendia a reintegração de posse, explicando em seu ofício que “uma vez acionado o plantão judicial, o juiz plantonista analisa o caso em regime de urgência e, logo que aberto o Fórum pela manhã, há regular distribuição do feito a uma das varas. No caso, este feito foi distribuído a este Juízo Federal”.

No mesmo dia o Ministério Público Federal (MPF), através do procurador da República, Ângelo Augusto da Costa, moveu uma ação acusando a prefeitura de São José de omissão na questão do Pinheirinho. O título do documento diz, em letras garrafais: “DISTRIBUIÇÃO URGENTE – RISCO GRAVE E IMINENTE DE PERECIMENTO DO DIREITO”. No texto, o procurador justifica a defesa de sua tese. “Afinal, mesmo que em situação, em tese, irregular, as famílias ali assentadas têm direitos individuais e sociais previstos na Constituição.”

Na tarde do dia 21, uma assembleia geral, feita dentro do Pinheirinho, contou com a presença do senador Eduardo Suplicy (PT). Ele foi avisar que havia firmado um acordo com o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Sartori, e com o juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, responsável pelo processo de falência, e estava previsto um período de 15 dias sem qualquer ação de desocupação para que houvesse negociação entre as partes envolvidas. Uma grande festa foi feita pela comunidade, que começou no sábado e se estendeu por boa parte da madrugada do domingo.

Sem considerar o acordo firmado, a juíza Márcia Loureiro determinou que a reintegração fosse efetuada. Com o conflito de competências estabelecido entre Justiça Estadual e Justiça Federal, foi determinado o início imediato da operação de remoção das famílias, ação que foi acompanhada pelo juiz assessor da presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Rodrigo Capez. O advogado do movimento, Aristeu César Pinto Neto, ressalta que, sob sua ótica, a Justiça Estadual não seria competente para dirimir a questão. “A Justiça Federal é competente e há o interesse da União no caso. Primeiro, interessa a regulamentação da área por parte do Ministério das Cidades; depois, temos a questão dos direitos humanos. O Brasil assinou e se comprometeu com tratados internacionais”, argumenta. “Outra questão: pela Constituição, quando há perigo de violação dos direitos humanos, o caso deve ser julgado pela Justiça Federal. O que vimos aqui (Pinheirinho) foi uma brutal afronta à Constituição brasileira.” Para Antonio Donizete Ferreira, um dos quatro advogados do movimento, “A própria Constituição prevê que toda propriedade tenha função social, ela (juíza Márcia Loureiro) nem está lembrando disso. Acima de tudo, ela tem de considerar o direito à vida, que vem antes do direito à propriedade”.

A desocupação e um cenário de pós-guerra

“A primeira coisa de que me lembro foram os barulhos de bomba e a gritaria”, conta Carlos de Fátima Moreira, de 53 anos, que foi acordado com os sons da invasão. A reintegração começou às 6h da manhã, enquanto a maioria dos moradores dormia e o “exército” de resistência local havia se dissipado por acreditar no acordo firmado no dia anterior. “Nessa operação, ficou claro que criaram, aqui, um ‘estado de exceção’. Isolaram a área e expulsaram todos. Não há registros da imprensa, que não pôde acompanhar o trabalho, é tudo na mão do poder público. Nem eu, que sou advogado dos moradores, pude entrar”, disse Aristeu Neto.

Maria Dirce da Silva Ferreira, moradora desde o começo da ocupação, relembra os primeiros momentos da operação policial na área. “Amanheceu o dia com a polícia lá no Pinheirinho. Rasgaram a roupa do meu filho, de tanto que puxaram ele. Não me deixaram pegar nada em casa, só a bolsa, os outros documentos eu perdi”. José Carlos Ferreira, morador, ainda tinha os olhos vermelhos por conta da ação policial, dias depois da desocupação. “Isso foi na hora da correria, eu tava na frente, aí os caras (polícia) vieram e jogaram spray de pimenta, não deu nem tempo de sair. Não fiz nada para eles, estava correndo só pra sair de lá. Moro lá há oito anos, estava dormindo. Quando começou o barulho, saí correndo”.

No dia 22, à noite, o bairro do Campo dos Alemães parecia um cenário de pós-guerra. Ruas vazias, carros incendiados pelas vias, poucas pessoas caminhavam. Por todo lado, podia-se ouvir sirenes e viaturas que derrapavam, sinais desnecessários de força, com suas armas expostas para fora dos veículos. Um grupo de aproximadamente 2 mil pessoas seguiu para a igreja Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, a 500 metros da entrada do Pinheirinho. Por medo da intervenção dos policiais e por desconfiança do governo municipal, preferiram não seguir para os abrigos àquela altura. Um homem, que preferiu não se identificar, questionava: “Como vou aceitar ser acolhido por quem acaba de me expulsar de minha própria casa? Sobrou algumas camisetas e os documentos dos meus filhos, foi o que deu pra pegar, agora querem que eu vá para aquele albergue, vou fazer o quê, lá? O que mais vão tirar de mim?”

Janaína Aparecida, moradora removida, era uma das mais exaltadas.  “Eu vi pessoas lá dentro serem agredidas, com cassetetes e spray de pimenta na cara. Se o prefeito quer pegar aquela bosta de terreno, ele pode pegar, mas olha o tanto de gente que tem aqui, dormindo no chão”, explicou, enraivecida, para em seguida atacar o prefeito Eduardo Cury. “Teve muita gente que gastou ali dentro pra levantar suas casas, isso é desumano. Esse prefeito é nazista, ele odeia pobre”. A violência policial não poupou nem o advogado Antonio Donizete Ferreira. “Tomei quatro tiros de borracha em três momentos diferentes. Um na perna, um na virilha e dois nas costas. Quando fui acompanhar uma oficial de justiça, eles abriram fogo. Gritei que era advogado e estava com o oficial, eles me pediram para sair andando e, quando virei de costas, tomei um tiro, pelas costas.”

Reginaldo Santos Miguel foi acordado com o choro da filha. Com um mês de idade, Pâmela ainda dorme no quarto com os pais. Ao perceber do que se tratava, Reginaldo a colocou no colo e correu com a mulher e o filho. Notou que havia esquecido os documentos e voltou para a casa. Na frente, dois policiais vigiavam a rua. Quando estava saindo, com a filha no colo e os documentos, foi atacado. “Eles não quiseram nem saber, viram minha filha, mas tiraram o cassetete e vieram pra cima de mim. Eu protegi o lado da criança e dei o outro para baterem. Foram várias cacetadas em mim.” Reginaldo teve uma fratura no ombro, que foi imobilizado. A filha nada sofreu.

Pela internet, vídeos e fotos mostravam a truculência da ação. Dentro da igreja, as condições sanitárias eram terríveis, apenas um banheiro para os dois mil abrigados, o chão e os bancos do local eram os suportes para noites de sono, roupas eram armazenadas também no chão da igreja e das suas dependências. O banho era tomado na casa de parentes, a água era retirada na rua, em torneiras de vizinhas e armazenada, a comida escassa e servida em péssimas condições. A igreja se tornou um polo de articulação dos moradores no embate entre eles e a prefeitura.

Ao desprezar o alojamento oferecido pelo governo municipal, os moradores se isolaram, já que o Eduardo Cury (PSDB), prefeito de São José, não lhes enviou nenhum tipo de ajuda. Viveram aqueles dias somente com doações. O almoço do dia 23 foi um pão com manteiga e um copo de achocolatado, para cada pessoa. Um médico e uma veterinária visitaram os moradores, no templo, e receitaram remédios para problemas básicos, os medicamentos foram doados e eram fornecidos no meio do estacionamento.  No dia 25 de janeiro, após o padre Ronildo de Rosa receber a visita de Claude Mary, secretária de governo do prefeito Eduardo Cury (PSDB), o pároco pediu que os desabrigados saíssem da igreja. “Estou sendo pressionado, agora vocês devem sair ou saio eu”, disse, na ocasião. No mesmo dia, caminhando por quatro quilômetros, mais de  400 pessoas seguiram até o alojamento da prefeitura, debaixo de um calor de 35°C aproximadamente, de acordo com serviços de meteorologia. Os outros 1,6 mil moradores que estavam na igreja foram para lares de parentes e a maioria foi para abrigos da prefeitura.

Um acordo entre a polícia, a Justiça e a prefeitura determinou que os moradores seriam retirados, mas que um cadastro acompanhado de uma numeração garantiria o retorno destes ao Pinheirinho para recuperar seus pertences e documentos. Isso não aconteceu. Muitas casas foram demolidas com móveis, roupas, brinquedos, eletrodomésticos e documentos dentro das moradias. “Não tenho mais nada. Televisão, sofá, fogão, geladeira, cama, roupas, foi tudo destruído por eles. Nem consegui voltar para pegar, cheguei lá e já tinham derrubado”, revela Reginaldo Santos Miguel.

Especulação imobiliária

“É muito evidente que em tudo isso há uma forte ligação com a especulação imobiliária”, afirma Ermínia Maricato, uma das mais respeitadas urbanistas do Brasil. Esse tem sido o cerne da discussão pós-invasão militar. Para Ermínia, “há, ainda, muito desconhecimento sobre a Constituição brasileira e um desrespeito aos tratados internacionais que o país assinou. Além de tudo, o custo social dessa operação é muito alto, me pareceu um absurdo não haver uma medida preventiva para essa gente. A mudança de valor desse terreno sem os pobres em cima vai ser um absurdo.”

Para Lúcia Moraes, que fez parte da comissão enviada pelo governo federal em 2006 ao Pinheirinho, “esse despejo é igual ao despejo do ano passado, em Goiás, no Parque Oeste Industrial, com a mesma violência e o mesmo desrespeito à vida humana. No centro das duas reintegrações está a especulação imobiliária.” Segundo ela, “a prefeitura não quer ter uma população de baixa renda, morando em um local tão valioso”.

Pós-doutora em Planejamento Urbano e Regional, a professora Sandra Costa da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), reforça a tese. “Naquela região há muita gente graúda. Quando as terras foram ocupadas, o vice-prefeito (Riugi Kojima, falecido em 2008) foi um dos grandes opositores da ocupação, porque a intenção deles era construir um grande parque industrial, lá”. Antonio Donizeti estabelece a mesma relação. “A família Kojima tem propriedades lá, ele tinha um interesse óbvio em tirar essas pessoas do Pinheirinho e valorizar a região”. Estivemos no 1º Cartório de Registros de São José dos Campos, e puxamos as certidões de imóveis em nome do ex-vice-prefeito. Encontramos um imóvel no Jardim Apolo, que não fica na região do Pinheirinho.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o comitê de campanha do PSDB de São José dos Campos, recebeu, em 2008, R$ 427 mil de doações declaradas de 22 empresas do ramo imobiliário, o que representa 20% do total arrecadado. No mesmo ano, Eduardo Cury se elegeu prefeito, mandato que cumpre até hoje.

Em entrevista ao jornal O Vale, a juíza Márcia Loureiro declarou seu orgulho pela operação. “Me surpreendeu positivamente a atuação da Polícia Militar, eu tinha essa expectativa, mas havia um receio porque as lideranças motivaram e incentivaram uma reação, uma carnificina, um banho de sangue, então eu tinha esse receio”, ponderou a juíza, elogiando, em seguida, a atuação militar: “A polícia exerceu e desempenhou um serviço admirável que é motivo de orgulho para todos nós.”

Enquanto autoridades se orgulhavam do “grande feito”, Reginaldo, sentado no chão do estacionamento da igreja, reflete sobre o futuro. “Faz tempo que eu percebi que vale muito mais puxar meu carrinho, conseguir minhas coisas do que pegar a dos outros, o problema é que os homi vêm aqui e pega o que é meu, nunca mais fiz um furto e nunca mais vou fazer; olha essas crianças, não posso ser mau exemplo para elas. O que é meu é meu, o que é deles é deles, moço. Minha família já sofreu demais por esse cabeça dura, aqui, não posso mais fazer besteiras.” Ao lembrar, emocionado, do Pinheirinho, descreve sua antiga morada. “Eu tinha meu sítio, lá. Coisa mais linda. Se você visse, tinha um jardim, uma hortinha, um campinho cheio de brinquedo para a criançada vir brincar com o Pablo. Tinha macaxeira, feijão, milho, fruta do conde e até cebola. Tinha um letreiro escrito ‘Bem Vindo – Minha Família, Minha Vida’.”



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