Crack: realidade cada vez mais comum

Operação malsucedida em uma das cracolândias paulistanas chama a atenção para o problema que já começa a dominar o cenário nacional

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Operação malsucedida em uma das cracolândias paulistanas chama a atenção para o problema que já começa a dominar o cenário nacional

Por Glauco Faria e Sâmia Gabriela Teixeira

Há um ano, esta Fórum deu como capa de sua edição de fevereiro o crack. O objetivo era colocar em evidência um problema que já dava sinais de ser uma questão nacional, exigindo a elaboração de estratégias em diferentes áreas como Saúde, Segurança Pública e Assistência Social. Mas que também tinha como desafio superar preconceitos e mitos que foram construídos durante anos, estigmatizando os dependentes que se multiplicam nas ruas do País.

Em janeiro deste ano, a prefeitura de São Paulo, em operação conjunta com o governo do estado, promoveu uma ação que, ao que tudo indica, não só não logrou êxito como colaborou para que os estigmas que pesavam sobre as pessoas que fazem uso da droga fossem reforçados. As pesquisas de opinião feitas sobre a Operação Centro Legal ou “Sufoco”, como ficou conhecida, mostram dados contraditórios. O levantamento feito pelo Instituto Informa, para o jornal O Estado de S. Paulo, ouviu mil pessoas entre 27 e 30 de janeiro e destacou que 84,7% da população da capital apoiam a ação, mas, ao mesmo tempo, 67,9% dos pesquisados não acreditam que a operação basta para resolver o problema do tráfico no local. Ou seja, os paulistanos acham que alguma medida deveria ter sido tomada em relação à cracolândia, mas duvidam da eficácia daquilo que foi feito.

“Essa questão da cracolândia é higienista. Não atacaram outras cracolândias porque não dá mídia”, sustenta Marcelo Niel, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele alerta que a região que foi alvo da operação policial, que está incluída no âmbito do projeto Nova Luz, é somente um dos locais onde se consome crack de forma pública na cidade de São Paulo. “Em São Paulo, em primeiro lugar, não são cracolândias tão invisíveis, existe uma, na favela do Heliópolis; outra, em uma favela da região do Cambuci, muito parecida com a do centro, com gente andando e consumindo. Na favela de Águas Espraiadas, as pessoas alugam barracos, assim como em outros lugares, e também há consumo na rua”, aponta.

Além dessa “diversidade” de locais em que usuários de crack se concentram, São Paulo também conta, tanto em bairros de classe média como na periferia, com as “cracolândias invisíveis”, imóveis onde os usuários podem utilizar a droga de forma privativa. “Alugar imóveis para o uso de crack é o melhor negócio imobiliário. As pessoas ficam em dez, 12, naqueles barraquinhos, e tem até cabines para uso individual. Fazem por uma questão de segurança e discrição, já que não é todo usuário que está nessa situação de utilizar a droga na rua”, explica Niel.

Mas a ineficácia da ação não se resume apenas ao fato de a repressão se dar em um único lugar. O coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, explicou aquela que seria a estratégia utilizada na região da Luz. “A falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e o sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda”, defendia, durante a operação.

“É uma grande falácia, os indivíduos que circulam no local, se não acharem a droga ali, vão em outro lugar, as pessoas sabem onde as drogas estão. Ele não vai entrar em crise de abstinência porque estourou uma cracolândia, ele vai pra outra”, argumenta Niel. “Do ponto de vista da repressão, faz sentido destruir, mas não tem nada a ver com a saúde. E a solução da internação compulsória, em geral, não vai adiantar, porque ela não tem aspecto curativo, serve pra tirar a pessoa daquela fase pior. Mas sem indicação e estrutura adequada, bate a fissura no usuário e ele volta para o uso.” No fim de janeiro, a própria Polícia Militar admitia que os usuários haviam se espalhado por 27 bairros da cidade.

Cenário paulista

Ainda que o seu consumo chame mais atenção nas concentrações do centro da capital paulista, o problema do crack vai muito além. No estado, a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas da Assembleia Legislativa fez um levantamento para mapear o problema no primeiro semestre de 2011. Foram enviados questionários com dez perguntas para 325 municípios, onde se concentra 76% da população do estado. O crack aparece em 31% das respostas, figurando como a droga ilícita mais utilizada nos municípios do estado, ficando atrás do álcool, que aparece em 49% das respostas. A maior parte dos municípios, 79%, não conta com leitos públicos para tratamento de dependentes químicos.

“O levantamento realizado pela Frente Parlamentar apontou que o crack está hoje em todos os 645 municípios paulistas e atinge todas as classes sociais. É uma verdadeira epidemia e um grande desafio para nossos gestores. Conforme verificamos no levantamento, essa droga avançou ainda mais em cidades com população entre 50 mil e 100 mil habitantes, que totalizam 50 no estado”, pondera o deputado estadual Antonio Mentor (PT), membro da Frente. “As prefeituras destas e das demais cidades estão ainda engatinhando na rede de serviços de Saúde e Assistência Social para atender os dependentes, além de receberem pouca orientação e quase nenhum recurso do governo estadual, que até hoje não apresentou um plano para enfrentar esse gravíssimo problema. Veja que não chegam a 400 os leitos públicos disponíveis para tratamento de dependentes”, pontua. “Outro dado preocupante do nosso levantamento é a presença do crack entre crianças e adolescentes, de 9 a 15 anos, em cidades das regiões de Registro, Araçatuba, Campinas e Ribeirão Preto, principalmente.” Em municípios da região de Barretos, o crack já é tido como a droga mais presente. Ali, 33,3% das respostas se referem à droga como uma das mais encontradas, enquanto que 25% apontam o álcool.

Outra constatação da Frente Parlamentar diz respeito a categorias específicas de profissionais que estariam sofrendo mais com o problema de dependência da droga, utilizada para suportar uma excessiva carga de trabalho. É o caso de trabalhadores das usinas de cana e na indústria cerâmica. Em 2003, a pesquisadora Arlete Fonseca de Andrade já observava em sua tese de mestrado em Psicologia Social na PUC-SP, Cana e crack: sintoma ou problema? Um estudo sobre os trabalhadores no corte de cana e o consumo do crack, como a disseminação da droga entre os trabalhadores dos canaviais do interior paulista (mais especificamente na região de Jaú) vinha se tornando uma questão de saúde pública. “O uso de drogas abarca vários contextos, como: a história individual, grupal, cultural e social regida em cada sociedade. Em relação às comunidades rurais, as razões podem ser diversas, como a falta de perspectivas nos âmbitos profissional e pessoal, ausência de assistência da rede pública para atender suas necessidades básicas, o trabalho que exercem ser muito exaustivo (ganham por produtividade/dia de cana cortada) ruptura dos vínculos familiares, religiosos e culturais etc.”, analisa, em sua pesquisa. “O crack é um sintoma de vários problemas sociais que surgiram entre as populações rurais, e o estágio em que se encontra atualmente já se caracterizou numa doença crônica, que é a dependência física e psicológica dessa droga.”

Mas tal problema não está circunscrito apenas a São Paulo. Em Alagoas, no ano passado, o Fórum Estadual de Combate às Drogas identificou que muitos trabalhadores do estado já faziam uso da droga, segundo seus próprios depoimentos, como forma de aumentar sua produtividade nas usinas de cana-de-açúcar. “O crack é hoje uma droga de fácil acesso. Seu poder mercadológico é grande e, infelizmente, no Brasil, a coisa piora a cada dia. Não existe uma política eficiente sobre o crack, então, isso facilita muito a entrada dele em qualquer profissão. No caso dos cortadores de cana, houve uma grande mentira colocada aos trabalhadores, que seria produzir mais quando estivesse sobre o efeito do crack. Fiz um trabalho na usina em Boca da Mata, e lá soube que essa ilusão foi passada pelos traficantes, que fazem de tudo para vender a droga”, relata Noélia Costa, coordenadora do Fórum de Combate às Drogas de Alagoas.

Nas cidades, em todas as classes sociais

Levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) divulgado no início do ano mostrou que, dos 4.430 municípios brasileiros que responderam aos questionários da pesquisa, problemas relacionados ao crack, que atingem áreas distintas como Saúde, Segurança Pública, Assistência Social e outras, são comuns em 93,9% das cidades. Em maior ou menor grau, espaços onde se concentram usuários da droga, como a cracolândia da região da Luz, em São Paulo, estão presentes em outras 16 capitais brasileiras, segundo dados de um mapeamento realizado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Há variações entre um lugar e outro. Em Salvador, há concentrações de alta densidade como nas capitais do Sudeste, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e também existe o consumo do chamado “virado”, uma mistura de cocaína com pedras de crack. O mesmo ocorre no Distrito Federal, no Plano Piloto e em cidades próximas. Já em Manaus, na região Norte, predominam polos de menor concentração, enquanto Florianópolis e Porto Alegre, na região Sul, apresentam locais de tamanho médio. Em nove dos 17 municípios, ruas em áreas degradadas das regiões centrais são utilizadas pelos usuários. Em Cuiabá, por exemplo, há alguns bairros com “minicracolândias”, onde o uso também se faz de forma pública. Ana Elisa Limeira, coordenadora do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (Conen), reconhece que uma das principais dificuldades para a abordagem da situação é a falta de dados mais precisos sobre o uso do crack no estado e também no Brasil. Segundo ela, a realização de fóruns regionais em 2011 servirá para construir uma política estadual sobre o tema, graças a informações fornecidas por especialistas na área e pela sociedade civil. “Também foi desenvolvida uma grande pesquisa sobre a realidade mato-grossense do atendimento, assistência e rede de prevenção às drogas em nosso estado, que será divulgada pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em março”, informa.

Luciane Marques Raupp, em tese de doutorado em Saúde Pública apresentada no ano passado na Universidade de São Paulo, analisou os circuitos de uso de crack nas cidades de São Paulo e Porto Alegre. Citando o livro de Marisa Feffermann, Vidas Arriscadas, ela relembra como a introdução do crack mudou a própria lógica do tráfico na capital paulista. “Primeiramente, porque incentivou a importação de pasta-base em vez de cocaína e, também, por seu comércio baseado principalmente no microtráfico [forma de comércio no qual usuários vendem drogas para sustentar seu consumo].” Conforme Raupp, as concentrações de usuários analisadas nos centros das duas capitais são “resultado tanto dos processos de crescimento das cidades e degradação de alguns de seus espaços centrais quanto dos rumos das políticas públicas, as quais, por omissão ou ênfase em estratégias equivocadas, não conseguiram lidar adequadamente com a emergência e a propagação do uso de crack.” Com base no estudo, há também sutis diferenças entre as cracolândias; em São Paulo, há agrupamentos heterogêneos com crianças, adolescentes e adultos compartilhando cachimbos, enquanto na capital gaúcha os grupos têm maioria masculina, somente com adultos e jovens, sem crianças, além de se constatar a presença de idosos migrando do álcool para o crack.

Embora a propagação da droga tenha se dado primeiro entre a população de renda mais baixa e pessoas em situação de rua, o que fica evidente analisando-se os locais onde o consumo se dá de forma mais visível nos centros urbanos, o problema da dependência do crack já atinge também outros segmentos socioeconômicos. “O crack começou como ‘droga de pobre’, chegando primeiro ao indivíduo em uma situação social menos favorecida. Hoje em dia, é muito raro ver os meninos em situação de rua cheirando cola, porque migraram para o crack. O morador de rua que antes só bebia, também está usando crack”, destaca Marcelo Niel. “No entanto, o que vemos acontecer hoje em dia é que a droga tem atingido outro tipo de usuário, são pessoas mais velhas, alguns com dinheiro, que acabam se tornando dependentes do crack. A diferença para os outros usuários é que a pessoa usa o crack, mas tem a família, vai e volta, fica em determinada situação precária por alguns dias, mas consegue de alguma forma retornar para o seu cotidiano”, explica. O uso e a aquisição do crack em grupo pode significar para os excluídos uma forma de pertencimento, justificando também a convivência com outros estratos sociais. “Quando um grupo está consumindo qualquer tipo de droga, por mais diferente que seja, existe uma integração, e os diversos tipos de preconceitos são deixados de lado, pois a droga age com efeito de interação entre as pessoas, fazendo com que elas deixem de lado seus valores morais, sociais e culturais, unificando-as num só corpo agindo para uma determinada função, qual seja, consumir a droga. A única coisa que importa naquele momento na vida dessas pessoas é a própria droga”, sustenta Arlete Fonseca de Andrade, em sua dissertação de mestrado.

Ainda que possam eventualmente buscar a droga nas mesmas fontes ou até mesmo utilizá-las em conjunto, seja nas ruas ou mesmo em lugares privados, a diferença entre usuários de segmentos sociais distintos se faz presente na possibilidade de ter acesso à rede de atendimento à saúde. De acordo com o levantamento da CNM, 91,5% das cidades não têm programas para combate ao crack e somente 14,78% destas afirmaram possuir unidades do Centro de Atenção Psicossocial (Caps), que, entre outras atribuições, oferece atendimento clínico a usuários de drogas. Ou seja, o poder público, em todas as suas instâncias, ainda não está preparado para enfrentar a questão e oferecer atendimento universal às classes mais baixas, em especial, aos moradores de rua.

O próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, admitiu que o País vive uma “epidemia de crack”, em dezembro do ano passado, quando lançou um programa de ações integradas com o mote Crack, é possível vencer. Segundo dados do Ministério, entre 2003 e 2011, o atendimento a usuários de crack na rede de Saúde aumentou dez vezes. O governo federal promete investir R$ 4 bilhões até 2014, em ações executadas de forma conjunta com municípios, estados e sociedade civil. Ainda que seja tardia, a atenção do poder público para o problema do crack é bem-vinda, mas com um esforço que envolva iniciativas que possam ir além da simples criminalização do usuário, superando as emblemáticas ações higienistas que colaboram para estigmatizar mais os dependentes.

Cotidiano de violência

Um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 170 pessoas na cracolândia da região da Luz, no centro de São Paulo, mostra que mais de metade dos usuários do local usam o crack há mais de dez anos, ou seja, embora tenha um potencial destrutivo muito alto, os dependentes podem viver muitos anos utilizando a droga. O risco maior de morte está, na prática, no envolvimento com a criminalidade e com um cotidiano marcado pela violência. A mesma pesquisa constata que 13% afirmaram praticar assaltos para sustentar o vício, enquanto outros 13% admitiam prestar serviços a traficantes. Outros 53% afirmaram ter testemunhado mortes na cracolândia.

“A pessoa rapidamente caminha para uma deterioração, ela não necessariamente parte para o delito, mas, se está na fissura, se envolve com delitos”, explica Marcelo Niel. “Mas a população de rua está em situação de risco para o uso de drogas, e está sujeita ao crack também”, completa.

O grande delito no circuito comercial do tráfico, que pode levar à morte do usuário, é o consumo de drogas com outros traficantes. O meio dos traficantes de garantir a lucratividade é administrar as dívidas dos dependentes, que passam a prestar serviços para sustentar o vício. Em uma das matérias de capa de Fórum, de fevereiro de 2011, Luiz Flávio Sapori, coordenador do Centro de Pesquisas em Segurança Pública da PUC-MG, alertava para essa peculiaridade. “Estou convencido de que a realidade de BH é replicável para as demais capitais brasileiras. Acredito que o crack tem relação com o grande crescimento de homicídios nas capitais nordestinas ao longo dessa década, as que mais tiveram crescimento da violência urbana”, afirmava, fundamentando sua argumentação em estudo que mostrava a linha tênue que existia entre consumo e tráfico no comércio da droga.

 



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