No rastro do pré-sal

Decisão do governo de nacionalizar toda a linha produtiva do pré-sal abriu horizontes além do petróleo para o Brasil. Mas os riscos existem

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Decisão do governo de nacionalizar toda a linha produtiva do pré-sal abriu horizontes além do petróleo para o Brasil. Mas os riscos existem

Por Pedro Venceslau 

A perfuração da camada pré-sal exige equipamentos e navios de última geração. Chamados de “sondas”, eles representam a joia da coroa do mercado de petróleo. A construção de cada unidade exige mão de obra de 3 mil profissionais, demora em média quatro anos para ficar pronta e seu preço pode variar entre US$ 650 milhões e US$ 750 milhões. Quando concluído, o navio sonda de 20 mil toneladas de aço tem capacidade para perfurar em lâminas d’água que vão até 10 mil metros de profundidade. Como o petróleo um dia acaba, o modelo mais comum de negócio é o aluguel destes equipamentos.

Segundo especialistas do mercado ouvidos pela Fórum, empresas pagam em média US$ 570 mil por dia e, quando constatam que o serviço acabou, encerram o contrato. O navio, então, levanta âncora e parte para outro lugar do mundo levando consigo uma cidade ambulante. Existem poucas empresas que oferecem esse serviço. Trata-se de um mercado que exige altíssimos investimentos, mas com garantia de retorno. Enquanto houver petróleo no mundo, as sondas estarão trabalhando. Com a descoberta de que há (muito) petróleo na camada do pré-sal em águas brasleiras, o país transformou-se imediatamente na menina dos olhos dos fabricantes de sondas.

Só até o fim de 2014, o governo pretende gastar US$ 224 bilhões para explorar as reservas que descobriu. A má notícia para os estaleiros e locatários é que o Brasil optou por construir aqui suas próprias sondas. Mas será que temos mão de obra capacitada para isso? Esse processo não vai encarecer e retardar a exploração? A opção não é meramente ideológica? Essas e outras perguntas estão sendo feitas dia após dia por especialistas, técnicos e políticos. “O Estaleiro Atlântico Sul, que assinou os primeiros contratos, vive uma situação peculiar. Ele atraiu muitos clientes, entre eles a Transpetro, mas está pagando caro pelo pioneirismo. Existe pouca mão de obra qualificada”, explica Alexandre Gaspari, especialista no tema e editor executivo da revista Brasil Energia.

Até o ano 2000, essa indústria era muito restrita e só fazia reparos e barcos-apoio, de pequeno porte. Com o advento do pré-sal e a decisão política de que toda a sua produção (inclusive as sondas) seriam 100% brasileiras, houve uma explosão de demanda. “A política da Petrobrás de estímulo à indústria nacional está colocando o Brasil em outro mercado, o de fabricantes de sondas. Isso é inédito. A questão é saber se teremos tecnologia e capacidade de construí-las com um preço competitivo”, diz Gaspari.

Brasil, polo naval

Em uma das peças publicitárias mais bem sucedidas da campanha presidencial de 2002, o então candidato Lula foi até Santos, no litoral paulista, gravar entre navios petroleiros da Petrobrás. A ideia era mostrar que a estatal brasileira estava gerando empregos em Cingapura. De maneira didática, o petista criticou a opção por contratar estaleiros de outros países e defendeu que o Brasil criasse o seu próprio parque naval.

O debate que veio a seguir foi acirrado. Tucanos, técnicos e “especialistas” acusavam a ideia de “estatizante”, “nacionalista” e “populista”. Em artigos e debates, o argumento era estritamente “técnico”: a empresa petrolífera brasileira perderia competividade no mercado internacional, já que não havia no país mão de obra especializada. Mais: o custo seria muito grande e o processo, demorado. Uma década mais tarde, o maior fabricante de embarcações petrolíferas do mundo, o estaleiro Jurong Shipyard, de Cingapura, anunciaria a construção de sua primeira planta no Brasil. Com a decisão de construir uma planta em Aracruz, no interior do Espírito Santo, o grupo de Cingapura foi ousado. Investiu milhões em um projeto sem antes ter assinado nenhum contrato de longo prazo. “Nosso negócio é estaleiro. A decisão de vir para cá foi tomada porque temos confiança na economia brasileira. Queremos muito nos estabelecer aqui”, disse à Fórum Martin Cheak Choon, presidente da Jurong Brasil, depois da solenidade em Aracruz em que foi colocada a pedra fundamental do estaleiro.

A Petrobrás criou uma holding para comprar e operar sondas de perfuração do pré-sal. Batizada de “Sete Brasil”, a empresa tem o controle diluído entre fundos de investimentos. Na prática, a Sete vai comprar as sondas para depois alugá-las para a Petrobrás. O primeiro pacote de 28 sondas foi encomendado ao Estaleiro Atlântico Sul. Ao estaleiro Jurong, a Sete encomendou, por ora, apenas uma sonda. Os dois estaleiros disputam um feito: quem vai fabricar a primeira sonda 100% brasileira. A “disputa” acabou contagiando os governos de Pernambuco, onde fica a EAS; e do Espírito Santo, onde está a Jurong. “Estamos tendo a oportunidade de receber o primeiro contrato da Sete com a Jurong. Isso pode viabilizar que o primeiro navio sonda do Brasil seja fabricado no Espírito Santo. Ele pode começar a funcionar já em setembro. Essa atividade não existia no nosso estado. Estamos virando um polo naval”, diz o governador capixaba, Renato Casagrande. “Serão necessárias muitas sondas no Brasil, todas elas com conteúdo nacional elevado. Esse é o primeiro passo”, pondera Fábio Rezende Cunha, gerente de engenharia e implantação de projetos da Sete Brasil.

Por trás das boas intenções, existe um grande dilema. O Brasil não dispõe da mão de obra necessária para acompanhar o ritmo vertiginoso desse mercado. Desde que Lula começou a implantar um parque naval no país, a profissão de engenheiro naval tornou-se uma das mais requisitadas. A Universidade de São Paulo (USP) criou o curso de Engenharia Mecânica em seu campus em Santos. No Rio de Janeiro, a previsão é de que, nos próximos cinco anos, sejam criadas pelo menos 19,3 mil vagas nos estaleiros do estado. O governo criou, por meio do Ministério de Minas e Energia, um programa para treinar trabalhadores a atuarem no setor de petróleo e gás, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp). Segundo o órgão, serão abertas pelo menos 212 mil vagas de empregos nos próximos anos.

Para se ter uma ideia, cada plataforma precisa de pelo menos 300 profissionais. O grande problema é que não se forma um especialista em pré-sal da noite para o dia. E os estaleiros têm pressa. Apesar de prometer entregar “a primeira sonda da América Latina” em tempo recorde – 42 meses – Mark Cheak Choon, da Jurong Brasil, promete que não importará mão de obra. “Não vamos trazer, a princípio, mão de obra de Cingapura. A ideia é treinarmos mão de obra local”. Dirigentes da própria companhia reconhecem reservadamente que a decisão de nacionalizar as etapas da produção custa, pelo menos no curto prazo, mais caro à Petrobrás. No médio prazo, contudo, a tendência é que os preços se aproximem do mercado internacional. Segundo especialistas, vale a pena esperar. Como o aluguel de navios sondas é caríssimo, a construção de uma embarcação se paga em três anos. “A vantagem para o Brasil é acrescentar as sondas de perfuração à lista de equipamentos offshore que os estaleiros brasileiros já produzem”, explica Ariovaldo Rocha, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval Offshore (Sinaval). Em 2012, ao menos doze novas sondas entrarão em operação para perfurar 66 poços exploratórios no mar. Destes, 18 serão na Bacia de Santos, 16 na Bacia de Campos, 11 na Bacia do Espírito Santo, 9 em Sergipe, 5 na margem leste.

Dilema ambiental

Os riscos ambientais embutidos na perfuração em águas profundas são o maior obstáculo da exploração. A camada do pré-sal tem peculiariedades geológicas que desafiam o conhecimento dos especialistas. No trajeto até o “ouro negro”, existem rochas raras e pelo menos 2 quilômetros de sal, o que dificulta e torna delicada a operação. Se o sal prender-se à coluna de perfuração, o poço se fecha e causa prejuízos bilionários. Isso sem falar no alto risco de um vazamento nas águas do Atlântico. Segundo um relatório feito pela FGV e a Ernst & Young sobre os pontos críticos desse tipo de exploração, ainda não se sabe se as instalações existentes para o tratamento de resíduos e efluentes comportarão o volume adicional das operações do pré-sal. Além dos riscos inerentes ao negócio, que não são pequenos, os ambientalistas apontam para o que seria um erro histórico: a produção no pré-sal tenderia a sujar a matriz energética no momento em que o mundo discute alternativas renováveis.

“O planejamento que faltou na implantação da Bacia de Campos não pode faltar no pré-sal. Tem a questão grave da pesca, a atividade mais impactada pela produção offshore de petróleo e gás. É preciso repensar o descarte de resíduos orgânicos pelas plataformas e embarcações em alto mar”, clamou o ambientalista Fernando Marcelo Tavares, em artigo publicado em diversos sítios na internet. O que se vê hoje no discurso oficial sobre o pré-sal é entusiasmo e ufanismo. Essa euforia também está presente nos setoristas da área, nos colunistas e no discurso dos técnicos. É como se o Brasil precisasse de um desastre para enxergar além da espessa e sedutora camada negra do petróleo.



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