Nós, ciborgues

A virtualização das experiências sexuais proporciona uma libertação das definições de gêneros e orientações sexuais. No fundo, na tela, na etérea e impalpável web, somos todos ciborgues pós-gênero

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A virtualização das experiências sexuais proporciona uma libertação das definições de gêneros e orientações sexuais. No fundo, na tela, na etérea e impalpável web, somos todos ciborgues pós-gênero

Por Vange Leonel 

Logo que a internet surgiu aqui no Brasil, antes mesmo da web, as interações entre computadores ocorriam sem interface gráfica, estampadas em letras verdes contra o fundo preto da tela. Mesmo sem os recursos de hoje, as BBSs (mal comparando, uma espécie de provedor discado) abriam salas e mais salas de bate-papo para namoro virtual porque a demanda já era enorme. Afinal, a tecnologia, desde Graham Bell e seu telefone, funciona também para aproximar as pessoas ou aliviar a sensação de solidão (às vezes, o efeito é contrário, mas isso fica pra outro texto).

Eu me lembro de uma anedota que circulava bastante naquele início de era dos namoros virtuais pela rede de computadores. Numa sala de bate-papo para lésbicas, depois de meses de “xaveco”, sexo virtual, declarações de amor etc., as duas meninas marcaram um encontro “na vida real”. Quando finalmente se conheceram no bar… Surpresa! As duas supostas “sapatas” eram homens heterossexuais que se passavam por lésbicas para “pegar mulher” na internet.

Não sei se o caso é real ou não, mas é verossímil. Muitos homens heterossexuais já me contaram que frequentam salas de bate-papo com este fim. Não me admiraria que dois deles se envolvessem num episódio como o que descrevi acima.

Mais que o estelionato moral de se fingir o que não se é, a anedota me chama atenção para o quanto nossa sexualidade pode ser plástica e fluida. Ou, explicando de outro modo: fingir ser o que não se é pode ser uma maneira de exercer seu desejo de ser aquilo que você jura que não quer ser. Obviamente, há situações em que a falsidade ideológica é usada para cometer crimes e isto é abominável. Mas o que vou abordar aqui são as ocasiões nas quais essa fantasia é consentida como parte do jogo, como num baile de máscaras.

Um amigo meu, heterossexual, jogava The Sims (um jogo de simulação da vida real) e se surpreendeu, certo dia, quando seu “sim” (avatar) se apaixonou por outro homem no jogo (esta, aliás, foi uma das grandes inovações do game, cujos algoritmos permitiam que avatares do mesmo sexo pudessem se envolver sexual e emocionalmente e até assinar contratos de união homoafetiva). Meu amigo havia criado um “sim” homem e hetero, à sua imagem e semelhança, e começou uma amizade com outro “sim” do sexo masculino. Mas depois de algum tempo saindo juntos, bebendo juntos e lavando a louça juntos, gráficos de coraçõezinhos começaram a surgir na tela, indicando que os dois “sims” estavam apaixonados. Essa experiência deixou meu amigo maravilhado. Não-homofóbico, ele adorou poder viver uma relação homossexual num jogo para computador.

Meu ponto aqui é que essa virtualização das experiências sexuais nos proporciona uma libertação das definições de gêneros e orientações sexuais. No fundo, na tela, na etérea e impalpável web, somos todos ciborgues pós-gênero. Em seu ensaio “Posgenderism: Beyond the Gender Binary”, George Dvorski e James Hughes escreveram: “Hoje, as tecnologias informacionais, biológicas e neurológicas tornam possível o projeto de nos libertar das amarras do patriarcado e da divisão binária dos gêneros. As tecnologias pós-gênero colocarão um fim às autoidentidades estáticas (biológicas e sexuais), deixando que os indivíduos decidam, eles mesmos, quais traços psicológicos e biológicos querem manter ou descartar”. É, sem dúvida, um admirável mundo novo.



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