A quem interessa o escândalo?

A posse da professora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres foi emocionante

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A posse da professora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres foi emocionante

Por Vange Leonel

Sim, meninas, eu vi e estava lá. A posse da professora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres foi emocionante. Festejada e aplaudida por um sem-número de feministas, a escolha da presidenta Dilma para a SPM foi considerada um grande avanço pelo movimento de mulheres.

Menicucci, que me disse uma vez ter se tornado feminista na cadeia, dedicou sua vida pós-prisão à luta das mulheres. Autora de vários ensaios sobre saúde das mulheres no trabalho e direitos reprodutivos, a nova ministra entende do riscado. Contudo, dias antes de assumir a SPM, parte da imprensa insinuou que a presidenta escolheu Eleonora apenas por serem amigas.
Sim, é verdade que as duas são amigas desde os tempos de juventude em Belo Horizonte e que depois, presas e torturadas pela ditadura, foram colegas de cela na chamada Torre das Donzelas no presídio Tiradentes. Mas é verdade também que Menicucci tem um trabalho reconhecido como feminista e sanitarista e que, ao aceitar o convite presidencial, deixou de lado um grande sonho: o de se tornar reitora da Unifesp. Talvez por isso, reconhecendo tanto as credenciais como a amizade de Menicucci, Dilma tenha afirmado, em seu discurso na SPM, que escolheu Eleonora pelo “conjunto da obra”.
No momento em que escrevo este texto, a nova ministra da SPM sofre ataques constantes de conservadores e religiosos por sua posição pessoal a favor da descriminalização do aborto. Mesmo sem renegar suas posições pessoais, Menicucci declarou que seguirá as diretrizes estabelecidas pelo governo, ou seja, a legislação sobre o aborto é uma questão da sociedade e do Congresso. Mas a velha imprensa insiste em dar voz a bispos, pastores e conservadores, amplificando a voz do obscurantismo.
Por que isso? Por que não divulgar outros aspectos da agenda de Menicucci à frente da SPM? Por que não dar visibilidade à função da SPM como formuladora de políticas públicas, que depois serão implantadas em outros ministérios, numa inédita transversalidade? Por que não falar de seu plano de políticas de saúde para a melhoria da qualidade de vida das mulheres, inclusive as esquecidas lésbicas e portadoras de deficiência, como a própria ministra explicitou em seu discurso? Por que não divulgar o esforço na construção da autonomia feminina ou a implementação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres? Enfim, qual o interesse em abordar apenas a opinião pessoal da ministra sobre o aborto?
Eu explico: é porque a mesma agenda retrógrada, hipócrita e obscurantista que atacou cruelmente a então candidata Dilma Rousseff nas eleições de 2010 ainda está ativa e pulsante. Pior: conta com a ajuda da mídia sensacionalista, louca por escândalos e polêmicas. Eu espero que Menicucci aguente firme os ataques que está sofrendo e os que ainda virão.
Os obscurantistas retrógrados estão com seus megafones nas ruas, em seus púlpitos, nas igrejas e em canais de televisão, apostando no retrocesso. Por isso nós, que desejamos avanço nas questões feministas, precisamos ocupar as ruas, jornais e TVs. Continuaremos fazendo nosso trabalho cá, para ajudar Eleonora a fazer o dela na SPM. Boa sorte, ministra. A luta continua!


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