Sobre um romantismo sem vergonha

A trajetória de Wando, falecido em janeiro, mostra um artista que rompeu estereótipos e limites sociais em suas músicas, conseguindo alcançar um público livre de preconceitos

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A trajetória de Wando, falecido em janeiro, mostra um artista que rompeu estereótipos e limites sociais em suas músicas, conseguindo alcançar um público livre de preconceitos

Por Pedro Alexandre Sanches 

O mestiço Wando (1945-2012) veio da pequena Cajuri, no interior de Minas Gerais, mas trazia a sina litorânea do sambista impressa na pele no início de sua carreira musical, na virada dos anos 1960 para 1970. Seu primeiro LP, de 1973, chamava-se Glória a Deus no Céu e Samba na Terra, e a faixa-título abria o disco em pique de batucada feroz, sob o subtítulo “Samba é Aleluia”.

Não se falava explicitamente sobre isto na década de 1970, apesar do levante black power comandado passo a passo por Wilson Simonal, a partir de 1961. Mas desde os artistas mestiços até os negros era esperado que seguissem essa risca e se tornassem exclusivamente sambistas, restringindo-se às glórias e aos estigmas do bom malandro, bom de chinfra, de cintura e de submissão, no caso dos homens, e da boa mulata, boa das cadeiras, de cama e de tanque, no das mulheres.

Para o negro que fugisse dos cativeiros da mente rumo à liberdade em compasso de bossa nova (Alaíde Costa, Johnny Alf, Leny Andrade), tropicália (Gilberto Gil, Luiz Melodia) ou funk (Tim Maia, Toni Tornado, Erlon Chaves), sobraria bordoada, ou no mínimo a contínua ação disciplinadora da indústria fonográfica (Zezé Motta, Emílio Santiago). A fronteira tênue e difusa entre o samba e outros gêneros era o limite (Jorge Ben, Jair Rodrigues, Alcione, Martinho da Vila, Paulinho da Viola).

Wando não era puro – era mestiço. Ex-engraxate, jornaleiro, feirante e caminhoneiro, incluiu no primeiro LP um (quase) samba de (quase) protesto tenso e corpulento, chamado “O ferroviário”: “São cinco da manhã, ele já está de pé/ está se preparando pra tomar café/ um pouco sonolento, ele não dormiu bem/ pensando na farmácia que tem pra pagar/ pensando no aluguel que não pode atrasar/ (…) e quando chega fevereiro/ veste a fantasia e na avenida vai sambar/ esquece o trem, tudo que tem”. Ensaiava um “Pedro Pedreiro” à sua maneira, mas, sem olhos azuis, pele clara e placidez capazes de conquistar o público universitário, terminava o disco chorando, em melancólica balada, que “O importante é ser fevereiro” (era o samba que o lançou, em 1971, pela voz de Jair Rodrigues). Fevereiro, sim, mas… o ano inteiro?

O segundo álbum, Wando (1975), começava com “Nega de Obaluaê”: “Essa nega fez feitiço/ emprestou meu nome ao santo/ e agora como faço?”. A batucada funkeada integrava o cantor e compositor a um movimento musical que nunca existiu, ao menos não de modo organizado: o samba-rock. Compondo para si ou para Bebeto e Os Originais do Samba do trapalhão Mussum, Wando tateava seguindo as veredas de samba suingado e misturado abertas pelo êxito e talento de Jorge Ben – em seu caso, caindo de boca no candomblé, com o balanço irresistível de “Nega de Obaluaê”, “Odoiá” (1976), “Ponto” (1980), “Oxóssi” (1983).

Pareada com “Nega de Obaluaê” e com uma versão funkeada de “Na baixa do sapateiro”, do conterrâneo Ary Barroso, a utópica “Velho batuqueiro” se conformava ao carnaval, mas tentava discutir o racismo, num tempo em que ninguém gostava de discutir esse assunto (alguém gosta hoje em dia?): “É preto, é branco, todo mundo é igual/ na guerra da folia é paz no carnaval”.

Em paralelo com o samba-rock, Wando abria outra frente, essa essencialmente não-sambista: a do romantismo sem qualquer vergonha de ser (in)feliz. “Moça” era o grande sucesso nacional do LP de 1975, locomovido pela inclusão na novela global Pecado Capital. A exemplo de outra faixa do LP (“Na boca no povo”), “Moça” queria discutir um tema tabu: a prostituição feminina.

“Você é tão falada, cantada na boca/ na boca do povo, do povo, do povo”, começava “Na boca do povo”, em tarefa que “Moça” concluiria. “Moça, sei que já não é pura/ teu passado é tão forte/ pode até machucar/ dobre as mangas do tempo/ jogue o teu sentimento todo em minhas mãos”, cantava um apaixonado narrador, entre atordoado e solidário.

Sensualidade explícita e desejo de liberdade

A sexualidade na música mais popular do Brasil é uma das questões esmiuçadas pelo historiador Paulo Cesar de Araújo no livro Eu não sou cachorro, não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Record, 2002), que demonstra o peso da repressão e da censura (tanto a oficial, dirigida pela ditadura militar, quanto a informal, espraiada em toda a sociedade) não só sobre os luminares da MPB universitária (Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré etc.), mas também sobre os representantes da música realmente popular, consumida e criada para e por estratos da base da pirâmide social brasileira.

Estamos falando da frente musical tarjada como “cafona” ou “brega”, que pressionava o conservadorismo e o (falso) moralismo da época pela via comportamental. Falamos de Wando e de muitos outros que não eram aceitos no cercado onde se espremiam Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia, os tropicalistas, Secos & Molhados, Novos Baianos e poucos outros.

Odair José despertava a ira da repressão sendo talvez mais conservador que os conservadores instalados no poder e pregando o lema “Pare de tomar a pílula” (1973), contra o modo (reacionário) adotado pelo regime para tentar conter a natalidade nas populações de baixa renda. Em “Vou tirar você desse lugar” (1972), o narrador de Odair, apaixonado por uma prostituta, sonhava regatá-la da profissão-tabu. Em especial nos capítulos “Pederastas, maconheiros e prostitutas” e “Capricho dos instintos insaciáveis, Eu não sou cachorro, não descreve as desventuras de artistas como Odair, Diana, Waldick Soriano, Claudia Barroso, Lindomar Castilho, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, Dom & Ravel e Cláudio Fontana junto à polícia da moral e dos “bons” costumes, fosse ela fardada ou à paisana.

Wando transitou em todos esses nichos. No Wando de 1976, incluiu os títulos “Você às vezes até sou eu” e “Ê, amigo” (“ê, amigo/ se for por amor vou pagar o meu castigo”), de alusão sutil, mas perceptível, à homossexualidade. Em Gosto de maçã (1978), o compositor foi explícito e confessional na faixa “Emoções”: “Nos fizemos tão meninos, livres, tão vadios de tanto querer/ (…) me entregastes teus segredos e eu falei do medo do meu coração/ (…) nas nossas juras prometemos ser/ até que a morte nos separe/ ou até o dia amanhecer/ nós faremos nosso mundo, nós seremos tudo que devemos ser/ a lua iluminou teu corpo, moreno bonito, pra me provocar/ (…) te agasalhei nos braços, pele, mãos, espaços acariciei/ te amei suavemente e tão docemente me fiz teu rei”. Mais uma vez a Globo encampou, incluindo “Emoções” numa novela romântica das seis da tarde, “Memórias de amor”.

Limites sociais eram sempre beliscados pelo músico, como no retrato do amor entre um homem mais novo e uma mulher mais velha da faixa-título de Gazela (1979) ou, mais tarde, no baladão “Drogado de Amor” (1986). A veia social/racial foi, entretanto, a que mais latejou na primeira década de produção de Wando. Vários títulos são autoexplicativos: “Menino de rua” (1976), “Cor da minha cor (Seja)” (1977), “Moreno” (1978), “O menino do rio de lágrimas” (1979).

“O rei” (1976) e “Ilusão de Carnaval” (1977) insistiram no tema precoce de “O ferroviário”. Focalizavam especificamente o dia de rei/rainha vivido, na passarela do samba, por quem seria plebeu/plebeia pelo resto inteiro do ano. “Porta do sol/ Jesus” abria o álbum de 1976 flechando o coração do racismo com uma seta de provocação atirada por um Salvador mestiço: “Jesus, Jesus/ negro bonito dos olhos azuis”. E o mestiço seguia reivindicando o sincretismo religioso: “Ele é o rei/ ele é Oxalá”.

Em Ilusão (1977), Wando brincou com fogo com a ditadura, que entrava em fase de distensão. Inspirado numa história real, “Presidente da favela” era o nome de um sambinha que dizia sozinho mais do que muitos esquerdistas da MPB não haviam ousado proclamar no pós-AI-5: “Dalvino de Freitas, presidente da favela onde tenho meu barraco/ disse que agora na favela é outro papo/ vamos ter ruas calçadas, água boa de beber, pra você ver/ vamos ter escolas/ isso quer dizer que vamos ter status/ condução na porta do barraco/ minha nega Luzia não precisa andar a pé”. A conclusão era bombástica: “Que sirva de exemplo a todas as favelas brasileiras/ arranje um presidente de boas maneiras/ que a vida lá no morro será bem melhor”. Eleger, a favela, seu próprio presidente? Com as eleições cassadas e o general Ernesto Geisel biônico no poder?

No mesmo LP havia “Boca calada”, um samba-soul com berimbaus sobre… a mordaça da censura: “Canta, meu povo,/ enquanto é cedo/ boca calada/ me causa medo”. Paulo Cesar de Araújo menciona em seu livro que Wando teve algumas músicas censuradas durante esse período, mas não dá detalhes sobre quais seriam essas músicas. Talvez ocupada demais com as muitas iscas lançadas por Chico Buarque, a Censura não impediu a livre circulação de alfinetes pop como “Emoções”, “Presidente da favela”, “Porta do sol/ Jesus (Negro bonito de olhos azuis)” e “Boca calada”.

Pouco a pouco, o romantismo passou a gerar mais frutos para Wando que os sambas e os samba-rocks. Por volta de 1976, ídolos populares de envergadura começaram a gravar as canções mais mansas do poeta pop: Roberto Carlos (“A menina e o poeta”), Nelson Gonçalves (“Moça”), Angela Maria (“Vá, mas volte”), Cauby Peixoto (“Gosto de maçã”). “Gosto de maçã” mereceu até mesmo uma terna versão caipira, por conta da dupla Cascatinha & Inhana.

Se não levou adiante os temas de identidade racial e orientação sexual, o artista encontrou no romantismo mais picante e sexualizado o alicerce que iria levá-lo adiante e além. Títulos como “Senhorita, senhorita” (1977), “Marca dos dentes” (1979), “A mosca e a aranha” (1980) e “Cantada” (1981) pavimentaram o terreno durante uma fase de relativo encolhimento, que começou a se resolver de modo hesitante na latinidade nômade de “Se quiser chorar por mim” (1978), “Tirerepá” (1980) e, numa fagulha de virada e consolidação, “Coração cigano” (1981): “Meu coração é um forasteiro/ não tem destino e nem paradeiro/ meu coração é aventureiro/ coração cigano, coração bandoleiro/ sou uma gaivota solta no ar/ que voa livre pra qualquer lugar”.

Somadas, as investidas na sensualidade explícita e o desejo de liberdade talvez sejam suficientes para justificar o apelo sexy do mineiro moreno fogoso junto a um público livre de preconceitos e esgares elitistas. De “Moça” e “Na boca do povo” a “Olhos de seda” (1982) e “Coisa cristalina” (1983), Wando foi aos poucos encontrando um dom particular de acariciar a sensibilidade feminina. Sob suave tom espanholado/gitano, dizia “Olhos de seda”: “Era quase minha/ quase minha amada/ leve, tão suave/ quis sentir-me o gosto/ seu olhar de seda/ fez corar meu rosto”. Seu rosto pode corar, mas, não, não é poesia pop má ou pobre que temos aqui.

A voz aveludada de Wando passou a embalar peças do mais rasgado sexy-romantismo, como “Chora, coração” (de novo, o desejo de liberdade, “chora, coração,/ passarinho na gaiola/ feito gente na prisão”) e o clássico djavaniano, bissex, fêmeo (composto por Rose, sua esposa à época) “Fogo e paixão” (“você é luz, é raio, estrela e luar/ manhã de sol/ meu iaiá, meu ioiô”), ambas de 1984. Vieram as bregas descabeladas “Ui-Wando paixão” (1986), “Eu já tirei a tua roupa” (1987), “Obsceno” (1988), “Amor pelo telefone” (1990), “Depois da cama” e “Sua flor seduziu meu beija-flor (carente)” (1992)… Para quem o excluía classificando sua música como “vulgar”, ele remetia o título do LP de 1985, Vulgar e comum é não morrer de amor. Para mesmerizar os pudicos, gravava “Sem pudor” (1986).

Num país devastado pela exclusão social e pela hostilidade pairando tensa e “cordial” entre camadas sociais divergentes, fez cruel sentido a operação silenciosa de apartar a “breguice” dos “cafonas” da “sofisticação” da MPB “culta”, esnobe e zelosa de seus próprios privilégios. Wando fez fama e fortuna à margem, seduzindo morenas e mestiços que ousaram pular as cercas proibitivas de cá para lá e de lá para cá. É mais ou menos o que faz, hoje, a gigantesca e plural cena periférica que não deixa a música (im)popular brasileira morrer asfixiada pela própria pasmaceira. Ironia também cruel é que Wando eleja partir bem na hora da florada das sementes que ajudou a plantar vinte e trinta e quarenta anos atrás.

P.S.: Para mim, dito crítico de música, é lastimável e irremediável que este texto tenha sido escrito apenas após a morte de Wando. Ele e seus correlatos nunca tiveram entrada nas editorias culturais dos veículos elitistas em que trabalhei – e nem (ou principalmente) eu próprio estava minimamente interessado em nossos wandos até ir ler, espelhados em Eu não sou cachorro, não, os meus próprios preconceitos raciais, sexuais, sociais, intelectuais etc. etc. etc.



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