Um túnel e o destino incerto de 8 mil famílias

Desapropriação e remoção de milhares de famílias levam preocupação ao bairro do Jabaquara

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Desapropriação e remoção de milhares de famílias levam preocupação ao bairro do Jabaquara
Por Igor Carvalho
“Eu não sei para aonde irei, se me tirarem daqui”.  A preocupação é do seo José Henrique, pai de uma das 8.395 famílias que serão removidas de suas moradias para a construção de um parque linear na beira do córrego Água Espraiada. Próximo ao parque, será construído, também, um túnel de 2.350 metros, precedido de uma via segregada de 750 metros. Só para essa obra, está prevista a desapropriação de 700 casas, segundo o engenheiro José Orlando, representante dos moradores da área em que será construído o túnel.
A Lei nº 13.260, de 28 de dezembro de 2001, aprovou a Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, incluindo uma obra que tinha como principal intuito ligar a Av. Dr. Lino de Moraes Leme até a Rodovia dos Imigrantes. O projeto era extenso e previa, ainda, a construção de ciclovia, viadutos, pontes e também das unidades de Habitação de Interesse Social. Passaram-se quase dez anos para que fossem promovidas alterações na lei, o que ocorreu em 4 de julho de 2011. José Orlando presenciou a votação na Câmara Municipal de São Paulo que determinou as modificações. “Foi uma vergonha, estávamos acampados havia 32 dias na Câmara, protestando contra a alteração da lei. No último dia antes do recesso, no fim da noite, depois de uma estranha paralisação, eles votaram.” Dos 52 vereadores presentes para a votação, 35 foram a favor da mudança na lei, que determinava a construção do túnel, que não estava previsto na lei de 2001.
Há 15 favelas que se formaram na beira do córrego Água Espraiada, e todas essas pessoas serão removidas de suas moradias para que a obra tenha seu início. Porém, na outra ponta desse imbróglio, está uma determinação, prevista na lei, de que a prefeitura deve fornecer moradia aos desalojados. A assessoria de imprensa da SP Obras, órgão vinculado à Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras – que tem como objetivo executar programas, projetos e obras definidos pela administração municipal –, alega que “o Cades [Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável] concedeu licença para as obras de reassentamento de 4 mil famílias – das 8.395 famílias previstas para serem atendidas – e, agora, o projeto está sendo finalizado para que as obras sejam iniciadas”.
Alguns moradores, como José Henrique, temem que sejam removidos de suas moradias antes que as habitações populares estejam prontas. Muitos não vão ser contemplados, e isso os preocupa. “Foi cadastrada uma parte da população, não a totalidade. Quem é cadastrado tem um cartão magnético. Como vou acreditar neles, se não começaram nenhuma das 45 obras que vão abrigar as famílias desalojadas?” Em sua resposta, a SP Obras não fala diretamente sobre o assunto, mas deixa a entender o que deve acontecer. “As famílias aguardarão em aluguel social a entrega das moradias definitivas.”
Desvalorização dos imóveis e falta de justificativa irritam moradores
Na região inserida no projeto de lei para a construção do túnel, a preocupação é similar. Alguns moradores estão sendo procurados por uma empresa que diz representar uma empreiteira que vai realizar obras na região, para negociarem seus imóveis que serão demolidos. Para João Salgueiro, 74 anos, morador da região há 30, “essa obra é um loucura, antes passava só na região do córrego, estava certo, desde que se dê moradia ao pessoal da favela, mas nesse novo projeto [túnel], tudo é bagunçado. Tenho problemas sérios de saúde, fiz oito operações. Eu mesmo levantei minha casa e agora vou ter que me desfazer dela”.  José Orlando repercute o que tem escutado dos moradores, nas reuniões do movimento. “Quando você liga nessa empresa, eles fazem propostas escabrosas, tem imóveis valiosos aqui que estão sendo desvalorizados.”
Até o fechamento desta matéria, a Prefeitura de São Paulo, por meio de contato com a SP Obras, não apresentou um estudo de fluxo de tráfego que justifique a construção do túnel na região.


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