Ademilde Fonseca e Paraphernalia

O "Ritmo Explosivo" do Paraphernalia e a voz de Ademilde Fonseca, a "Rainha do Choro"

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Por julinho Bittencourt

No último 28 de março, logo após completar 91 anos, a cantora Ademilde Fonseca nos deixou. Na semana anterior, havia gravado um especial para a televisão e, no dia 26, dois dias antes de sofrer um infarto fulminante, havia feito um showem Porto Alegre. Morreu, portanto, fazendo o que mais gostava e encantava a todos ao fazer: cantar.

Se o leitor desatento não percebeu, é bom que se repita. Ademilde estava com 91 anos e em plena atividade. Uma atividade que começou bem lá atrás, no início da década de 1940, quando estourou com uma versão absolutamente incomum e inovadora para o clássico “Tico-tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu, Erwin Drake e Aloysio de Oliveira, três anos antes da gravação de Carmem Miranda.

Antes disso, já insinuava reinventar o choro com outra gravação notável para “Apanhei-te cavaquinho”, de Ernesto Nazareth, tendo como lado B do bolachão a sestrosa “Urubu malandro”, clássico do folclore urbano brasileiro eternizado por Pixinguinha e seus Oito Batutas.

E foi assim, cantando e reinventando o primeiro gênero musical urbano do Brasil, que Ademilde Fonseca ganhou notoriedade e o apelido carinhoso de “Rainha do Choro” do flautista, arranjador e compositor Benedito Lacerda. A importância dela para o choro e, consequentemente, para a nossa moderna música popular ainda está para ser revista e reavaliada.

O choro, um gênero até então eminentemente instrumental, ganhou na sua voz ampla penetração popular. Ademilde chegou a vender meio milhão de discos e colocar na voz e na memória afetiva da população melodias inesquecíveis. Peças que se confundem com a nossa própria nacionalidade como “O que vier eu traço”, “Delicado”, “Sonoroso” e, é claro, “Brasileirinho”, entre muitas outras.

Ademilde foi reverenciada por todas as gerações de músicos que vieram a partir dela. Uma que nunca escondeu a sua inconteste influência foi Baby Consuelo. Desde o lendário grupo Novos Baianos, da década de 1970, Baby sempre encontrou na antecessora uma grande inspiração. O seu primeiro disco solo foi batizado de O que vier eu traço, um dos maiores sucessos de Ademilde. No disco Pra enlouquecer, um grande sucesso comercial de Baby, ela participa com a então jovem pupila numa eletrizante versão para “Apanhei-te cavaquinho” e no final ouve-se, na própria faixa, uma linda homenagem. Ademilde, na época, declarou: “Baby me tirou de dentro de casa”.

Com um timbre de voz lindo, afinação rara e um senso rítmico absoluto, Ademilde encantou o Brasil e, acima de tudo, transformou a sua música. Cantava no mesmo nível que Jacob tocava seu bandolim; Altamiro Carrilho, a sua flauta; Valdir Azevedo, o seu bandolim. Seu instrumento se manteve intacto até o fim, dobrando andamentos, quebrando células, inovando o novo, sempre e de novo. Nos deixa com muitas saudades e a missão cumprida. O Brasil é que fica outro depois dela.

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E é este outro país, cheio de novidade e suingue, que também aparece no primeiro disco da banda Paraphernalia. O release da bolachinha – Paraphernalia – Ritmo explosivo – entrega de saída algumas das duas melhores qualidades da banda. O som deles é instrumental, mas livre de convenções e, principalmente, virtuosismo. Ninguém vai ouvir nesse disco de lançamento aquele repetir incansável de escalas subindo e descendo, tão comum a tantos grupos do gênero.

Outra das imprescindíveis qualidades é a total ausência de americomania. Apesar de receber clara influência de ritmos de várias partes como o jazz, latino, samba, funk, soul, disco e o escambau, o som da banda está a anos-luz do sotaque dos primos ricos do Norte.

A música que fazem, na verdade, transpira o que se ouve e vê pelas ruas e casas noturnas da cidade do Rio de Janeiro. Uma grande mistura de tendências de todas as partes do mundo, que dialogam com a cultura negra e habitam a Cidade Maravilhosa em estado de êxtase e hedonismo.

O som, como bem diz o título, é feito – e tem sido assim – para arrebatar salões. Onde a rapaziada toca, o bicho pega. E a rapaziada, é bom que se diga, é formada por, nada mais nada menos, alguns dos melhores músicos de apoio de grandes artistas brasileiros, como Marcos Valle, João Donato, Eumir Deodato, Lincoln Olivetti, Kassin, Gal Costa, Celso Fonseca, Vanessa da Matta e Adriana Calcanhotto.

Cansados de apenas e tão somente engordar a empada alheia, o guitarrista Bernardo Bosisio e o contrabaixista Alberto Continentino formaram, lá atrás, em2001, aParaphernalia, que, após várias formações, chegou ao seu formato atual, com Donatinho nos teclados, Felipe Pinaud na flauta, Leandro Joaquim no trompete, Marlon Sette no trombone, Renato “Massa” Calmon na bateria e Joca Perpignan na percussão.

Daí para o disco foi um pequeno passo de pouco mais de uma década. Mas valeu, e muito, a pena. Gravado quase que totalmente ao vivo no estúdio, Ritmo explosivo tem um som quente, redondo, pra lá de bem gravado. As composições, a maioria de Alberto Continentino, são estruturadas a partir de pequenos blocos melódicos e células rítmicas curtas, que se desencadeiam livremente entre as bases instrumentais. Tudo espantosamente simples, bem desencadeado e eletrizante logo aos primeiros acordes.

Os poucos improvisos são curtos e impregnados de sentido, quase uma ponte entre os trechos das composições. O som da banda Paraphernalia é feito para segurar o espectador sem encher a paciência, coisa que consegue do primeiro ao último acorde do disco, com inteligência e invenção.

A capa de Ritmo explosivo merece um comentário à parte. Com linda foto de Rafael Lopes, que parodia a do LP Ed Lincoln, de 1966, organista rei dos bailes de então, é uma grande pista para o que se encontra no disco. Produzido pelo onipresente Kassin e Ricardo Garcia, o disco é, de fato, uma festa imperdível de bom gosto, musicalidade e muito suingue.

 



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