Cooperativismo cresce no sertão da Bahia

Os moradores do semiárido da Bahia enfrentam, em 2012, uma das piores secas dos últimos 30 anos. Com a falta de chuvas, aproximadamente 200 municípios declararam situação de emergência

1285 1

Por Adriana Delorenzo

Os moradores do semiárido da Bahia enfrentam, em 2012, uma das piores secas dos últimos 30 anos. Com a falta de chuvas, aproximadamente 200 municípios declararam situação de emergência. O governo do estado adotou medidas para restringir o uso de água somente para consumo humano e animal. Agricultura e projetos de irrigação tiveram o abastecimento suspenso. Por falta da sua fonte de energia natural, hidrelétricas também estão paradas.

“Viver na seca é muito difícil, os animais não têm o que beber, fica tudo acabado”, diz o agricultor Ciriaco da Silva, conhecido como seo Dudu. Natural do município de Antas, no nordeste baiano, ele planta caju, mandioca, milho e feijão, entre outros. Tem 14 filhos, sendo que seis deixaram a seca e estão trabalhando em São Paulo. A vida na comunidade de seo Dudu não é fácil. A luz elétrica chegou há pouco tempo com o programa federal “Luz para todos”. Cisternas nas casas têm amenizado a falta de água. Apesar das dificuldades, os agricultores têm encontrado na união e na solidariedade uma oportunidade de emprego e renda. Seo Dudu é um dos 60 produtores que se juntaram na Cooperativa Regional dos Agricultores Familiares de Antas, Novo Triunfo e Sítio do Quinto (Coopans) e comemoraram a inauguração de uma unidade de beneficiamento de castanha de caju, no último 18 de abril.

A unidade faz parte do Programa Trabalho e Cidadania, da Fundação Banco do Brasil, que busca reaplicar a tecnologia social “mini-fábricas de caju”. Desde 2004, aFundação investe na região do semiárido, fomentando o cooperativismo e assessorando os produtores tanto no processamento como na comercialização de castanhas. Além da Bahia, a tecnologia social foi levada ao Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Ao todo, mais de R$ 21,5 milhões já foram investidos na cajucultura. “Nos últimos anos, a FBB tem associado a tecnologia social com a economia solidária”, afirma o presidente da entidade, Jorge Streit. “A cadeia [produtiva] do caju é muito forte no sertão e em algumas regiões litorâneas do Nordeste. No geral, acontece quase a mesma coisa em todos os lugares, existe uma rede de atravessadores que atuam nessa atividade produtiva, e os produtores vendem a castanha por um preço muito baixo”, diz Streit.

Com o objetivo de aumentar o valor agregado da castanha e ampliar a renda dos agricultores, a FBB já construiu cinco unidades de beneficiamento, no nordeste baiano. Duas delas foram inauguradas no dia 18 de abril: uma, na Coopans, onde estava seo Dudu, na comunidade de Baixa da Roça; e outra unidade em Ribeira do Amparo, na Cooperativa Regional dos Agricultores Familiares de Ribeira do Amparo, Cipó e Ribeira do Pombal (Cooperprac). As cidades ficam a cerca de300 quilômetros de Salvador. Até o final do ano, serão sete unidades na região e uma central de comercialização, envolvendo 600 produtores de 21 municípios. “Com essa iniciativa, agregamos tecnologia e conhecimento ao trabalho deles, com assessoramento técnico eem gestão. Tudo isso faz com que essas comunidades consigam entregar produtos com mais qualidade e com maior valor agregado, fazendo com que aumente o ganho e a autoestima das populações”, destaca Streit.

Assim, onde os produtores já contam com uma minifábrica, a realidade começou a mudar. “Vendíamos a castanha para atravessadores do Ceará, in natura, por R$ 1 ou R$ 1,50 o quilo”, relata Genildo dos Santos, que há seis anos conseguiu um lote de10 hectares num assentamento de reforma agrária na região. Hoje, ele tem mil pés de cajueiro “anão precoce” e500 pés do “gigante”. Segundo Santos, o objetivo é vender a castanha a R$ 28 o quilo, preço que já é cobrado pelos produtores de Benzaê, cuja unidade de beneficiamento de castanha foi inaugurada em 2008. “Agora, depois do treinamento, nós passamos a beneficiar, as castanhas, e vamos mandar para a central”, diz.

Segundo o agrônomo da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) e coordenador do Centro de Formação em Agricultura Familiar, José Augusto Garcia da Silva, “a castanha de caju é uma commoditie que tem mercado garantido”. Ele explica que há procura para exportação do produto, mas é necessário produzir em quantidade. Para Silva, a criação de diversas unidades de produção cooperativadas é o modelo ideal para aumentar o volume de castanhas. Ele ressalta ainda o melhoramento genético da planta do caju, que, após cruzamentos de espécies, deu origem ao chamado cajueiro “anão precoce”. “O cajueiro comum [gigante] é bom, ele cresce, dá sombra, mas de cada cem plantas, cerca de 70 são consideradas de baixa produção ou improdutivas”, explica. “O cajueiro anão precoce é pequeno, você colhe com a mão.”

Outra possibilidade de aumentar o ganho das comunidades é aproveitar outras partes da fruta. De acordo com Silva, hoje aproximadamente 85% do caju é jogado no lixo, já que o pedúnculo (a parte amarela, rosada ou vermelha) não é aproveitado. Presente na inauguração da Cooperprac, o governador da Bahia, Jacques Wagner, ressaltou a possibilidade de as comunidades também passarem a produzir cajuína (um suco de caju fermentado) e de aproveitar o líquido da casca da castanha de caju (LCC), que pode ser usado como combustível, ou em resinas, vernizes, inseticidas, entre outros. “Daqui a três ou quatro anos, a cooperativa já vai estar se multiplicando e crescer mais ainda. Isso é o começo de uma redenção.”

A presidenta da Cooperativa da Cajucultura Familiar do Nordeste da Bahia (Cooperacaju), Maria da Paz Ferreira de Andrade, também acredita que produzir cajuína poderá ser o próximo passo. Por enquanto, ela

comemora a mudança que o cooperativismo e apoio estão provocando na região. “As pessoas estão plantando. Antes tinha só pasto, agora vejo muitos cajueiros plantados”, afirma. “Indiretamente, toda a cidade está sendo beneficiada. Tem dinheiro movimentando o município. O pessoal está comprando mais, o comércio está chamando mais pessoas para ajudar no trabalho.” A Cooperacaju é responsável por reunir toda a produção das cooperativas e comercializá-la. A sede está sendo construída no município de Ribeira do Pombal, e os agricultores pretendem aproveitá-la para vender todos os outros produtos e, assim, fortalecer a cooperativa e os produtores. “Há muitos anos temos esse sonho. Precisamos dessa parceria [com a FBB]. Nossa região é rica, só precisamos nos fortalecer.”

Exemplo de sucesso

Esse princípio de fortalecimento do trabalho coletivo já foi aplicado em outra região da Bahia, na cadeia produtiva da mandioca. A Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia (Coopasub) foi fundada em maio de 2005, também com investimentos da Fundação Banco do Brasil. A cooperativa começou com 104 produtores de 13 municípios e conta, hoje, com 2,3 mil cooperados de 18 cidades. Segundo o presidente da Coopasub, Izaltiene Rodrigues Gomes, a comercialização numa cooperativa reunindo todos traz vantagens, como a venda por um preço bem melhor. Antes, a tonelada de raiz de mandioca era vendida a R$ 140. Hoje, é vendida por R$ 250. “São cerca de 10 mil pessoas que tiram sua renda da cooperativa”, comemora o agricultor familiar Izaltiene, que acabou de se formar agrônomo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).

Ele relata que o processo de cooperativismo começou com um diagnóstico socioambiental na região. Com base nesse levantamento, foi planejado o projeto. Verificou-se que os produtores necessitavam de investimentos em assistência técnica, em mecanização, na estrutura nas casas de farinha e nas unidades de processamento de raiz, que é a fecularia. Em setembro do ano passado, a fecularia da Coopasub foi inaugurada em Vitória da Conquista. A média de renda de cada cooperado, hoje, é na faixa de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. Antes, era de cerca de um salário mínimo. Isso contando todos os produtos, que são comercializados pela cooperativa, não apenas os provenientes da mandioca. Ele ressalta a importância do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) para o fortalecimento da agricultura familiar e o aumento da renda.

De acordo com o consultor da FBB na Bahia, Jeziel Campos, a mesma experiência bem-sucedida no sudoeste baiano é implantada no nordeste do estado. “A busca é pelo cooperativismo. Fazemos a capacitação dos agricultores, o treinamento para o beneficiamento, a gestão, logística. Tudo isso para o produto alcançar um valor de mercado”, explica. “A cultura na região era vender a matéria–prima, não tinha a cultura do beneficiamento em formato industrial. Isso é muito novo. Era um processo artesanal mesmo.”

O presidente da FBB, Jorge Streit, ressalta que no Nordeste não há uma cultura de associativismo muito forte, como existe no Sul do país. “O processamento de castanhas no Brasil está sendo monopolizado por grandes empresas. Grandes grupos montavam fábricas de grande porte no Rio Grande do Norte e no Ceará, e o agricultor familiar não conseguia alcançar esse tipo de produção.” Por isso, a Fundação buscou levar a tecnologia até a comunidade. “Do ponto de vista da TS, muito do que está sendo colocado aqui é tecnologia convencional, mas ela é social no que diz respeito à apropriação da comunidade. A comunidade está experimentando uma tecnologia que veio da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] e que foi desenvolvida em interação com a comunidade”, diz. “Do ponto de vista de otimização e custo industrial, numa unidade como essa [Cooperprac], onde vão trabalhar 20 pessoas, talvez numa indústria convencional funcione com oito. Nosso objetivo é que mais gente tenha emprego e renda e que o resultado seja distribuído entre todos.”

A tecnologia das “minifábricas de caju” já era conhecida há muito tempo no nordeste, mas de forma rudimentar. A Embrapa, segundo Streit, retrabalhou o processo, agregando melhorias. Ele ainda explica que a empresa é uma das parceiras da Fundação, assim como o Sebrae, o BNDES e a Ebda. De acordo com Dalmo Fugita, gerente de Economia Solidária do BNDES, apoiar iniciativas como essa é uma forma de o banco cumprir sua missão institucional, ou o “S” de social. “Hoje temos uma missão muito clara, que é contribuir para o Plano Brasil sem Miséria, com o eixo específico na inclusão socioprodutiva, gerando oportunidades. É um investimento estruturante para grupos que precisam desse apoio, para que eles possam, com o tempo, ser gestores do próprio negócio, agregar novos cooperados, dinamizar a economia local e promover a redução de desigualdade.”

Combate à “indústria da seca”

“Antes, aqui só havia um forte coronelismo. Tudo foi conquistado com muita mobilização, manifestação. Conseguimos sementes para plantar, transporte para as crianças estudarem”, relembra a deputada estadual (PT-BA) Fátima Nunes. Querida na comunidade, Fátima nasceu em Paripiranga, pequeno município no sertão, a 366 quilômetrosde Salvador. Na sua infância, a família ralava a planta da mandioca para fazer beiju. Até que, na década de 1970, ela começou a militar nas Comunidades Eclesiais de Base. A partir daí, lembra ela, começaram a nascer os sindicatos de trabalhadores rurais, as associações comunitárias, os movimentos sociais. Para Fátima, a inauguração das unidades de beneficiamento de castanhas e o fomento ao cooperativismo são uma conquista muito grande para a região. “Desde o governador Waldir Pires [1987-1989] tentamos, mas o processo foi interrompido com o Carlismo [hegemonia de Antonio Carlos Magalhães no estado] e voltou com Lula. Esse lastro de organização serviu para seguirmosem frente. Agora, temos os equipamentos e um povo mais participativo”, afirma.

O fruto desse processo de mobilização de mais de três décadas fez surgir novas lideranças nas comunidades do nordeste baiano, que ainda hoje lutam por políticas públicas. A presidenta da Coopans, Domingas Genialda Jesus de Miranda, por exemplo, tem 28 anos. Aos 25, era presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Outra liderança é Silvanice Rodrigues dos Santos Silva, de 30 anos, que é tesoureira da Coopans e presidenta da Associação dos Produtores Rurais de Baixa da Roça. Ativista, em 2005 ela participou dos seminários promovidos pela FBB. “De tudo a gente faz um pouco para desenvolver a comunidade.” E Silvanice faz muito. Em2008, aAssociação conseguiu uma Casa de Farinha, mas, ela conta, o prefeito colocou uma pessoa lá dentro que se apropriou do espaço. “Daí falamos: vamos tomar para a associação e fomos lá e invadimos. Conseguimos recuperar. O nosso sonho é ter uma casa boa pra fazer tapioca, aproveitar a manipueira.”

Em sua propriedade, herança da família, Silvanice planta caju e mandioca. “Quem tem muita terra é fazendeiro, eu tenho um pouquinho”, comenta. E, de pouco em pouco, a Associação conseguiu implantar 60 cisternas de placa na comunidade e um computador na sede para os jovens aprenderem. “Não é porque a gente é da roça que a gente é burro”, salienta.

Em meio às inaugurações, a Fundação ainda anunciou que a região receberá 11.800 cisternas construídas com base no modelo da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) para o enfrentamento da seca. Para Jorge Streit, mais importante do que as construções são os ganhos coletivos da comunidade, que deixa de trabalhar individualmente e passa a ter a cultura de ser solidário. “O sindicalismo e os movimentos sociais já vinham de práticas coletivas. Agora, o desafio é produzir, gerando emprego e renda o ano inteiro.”

Sem dúvida, as transformações nas comunidades são inegáveis, mas a seca e a ausência de muitos serviços ainda persistem na paisagem semiárida. “Em qualquer tempo, em qualquer governo, vai sempre ser preciso a luta do povo”, finaliza Fátima. F

A jornalista Adriana Delorenzo viajou para o sertão da Bahia a convite da Fundação Banco do Brasil.



No artigo

1 comment

  1. JOSE ALVES DE AMORIM Responder

    OLHA PARABENZ PELO O MARAVILHOS PROGETO, EU TENHO UM GRANDE SONHO DE REALIZA UM PROGETO DESTE PERFIUL AQUI NA MINHA REGIANHO. PERTO DE ANAGÉ PERTO DE VITORIA DA CONQUISTA. AS LAGOS JA FAZ MAIS DE 8 ANOS QUE NAO JUNTA AGUA. AS PESSOAS BEBE E LABUTA COM AGUA DE CAMINHAO PIPAS.EU VOU CONSEGUIR EM NOME DE JESUS E VOU PRECISAR MUNITO DA AJUDA DE PROFICIONAS COMPETENTES IGUAL A VCS PRA MIM AJUDAR. ABRIGA E UM ABRO ZE ALVES..


x