De Edivaldo a Edy Star

O artista baiano foi, ao lado dos Secos & Molhados, o ponta-de-lança da versão brasileira do glam rock, mesmo enfrentando a censura da ditadura militar e sendo o único artista brasileiro do mainstream assumidamente gay à época

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O artista baiano foi, ao lado dos Secos & Molhados, o ponta-de-lança da versão brasileira do glam rock, mesmo enfrentando a censura da ditadura militar e sendo o único artista brasileiro do mainstream assumidamente gay à época

Por Pedro Alexandre Sanches

“Eu trabalhava num lugar da alta sociedade em Ipanema, a boate Number One, vindo dos puteiros da Praça Mauá.” Foi espetacular o arco cumprido no início dos anos 1970, em curto prazo, pelo cantor baiano que hoje conta 74 anos. Num dia, Edivaldo Souza estava trabalhando na boate Cowboy: “Eram shows completamente transgressivos, o que a ditadura não permitia. Tinha número pornô de lésbica, anão correndo nu, striptease, tudo acontecendo no teatro de puteiro, restrito ao pessoal que frequentava a praça Mauá.”

No dia seguinte, o mais paradigmático jornal de esquerda dos anos 1970 cruzou seu caminho, e o cinderelo Edivaldo converteu-se em Edy Star: “O Pasquim esteve na Cowboy e achou aquilo o máximo. Pronto, virou “point”. Aí eram limusines, os Marcondes Ferraz, os Braga, pessoal de soçaite começando a frequentar.” Na reviravolta, Edy virou astro da Som Livre (a gravadora da Rede Globo) e lançou um disco solo (seu único até hoje). …Sweet Edy…, lançado em 1974, foi confeccionado sobre um chão de estrelas. Roberto e Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Moraes Moreira e Luiz Galvão prepararam músicas especialmente para o “muso”. “Deita numa cama de prego e cria fama de faquir”, Caetano o descrevia em “O conteúdo”.

No encarte original, relançado agora em CD luxuoso pelo selo Joia Moderna (do DJ Zé Pedro), figuravam depoimentos elogiosos de um verdadeiro “quem é quem” da sociedade carioca de 1974: Roberto, Caetano, Gil, Nara Leão, Fernando Sabino, Suzana Vieira, Tarso de Castro, Darlene Glória, Ricardo Amaral, Nelson Motta etc. O mais entusiasmado, seu conterrâneo Jorge Amado, errava o alvo na mosca. “Guardem seu nome, não tardará que seja repetido e consagrado.” O faquir não se sustentou por muito tempo em cima da cama de prego.

A cambalhota da Praça Mauá para Ipanema não foi a maior nem a primeira vivida pelo rapaz de Juazeiro (terra natal de João Gilberto), que queria ser – era – artista. Antes de animador de puteiro, ele havia sido petroleiro. “Fui auxiliar técnico de produção de petróleo durante um ano e meio na Petrobras. Eu odiava, detestava a Petrobras. Em 1960, larguei o emprego e fui embora com o circo Fekete. Ali, eu era Edy, o embaixador do rock, cantando músicas de Sergio Murilo”, diverte-se. E emenda o caso com a pergunta-sugestão: “Você sabe o que é um gay, um veado, no meio de 1,5 mil homens? Imagine.” Edivaldo era – é – homossexual desde muito antes de vestir o figurino de Edy Star. “Nunca estive no armário, querido.”

Apesar do ambiente repressivo do Brasil sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici, o artista baiano foi, ao lado dos Secos & Molhados, o “ponta-de-lança” da versão brasileira do glam rock de David Bowie, Marc Bolan, Elton John e Freddie Mercury. Num pastiche tropicalizado entre a persona andrógina Ziggy Stardust, de Bowie, e o hard-rockstar Alice Cooper, Gil fez para ele “Edyth Cooper”. Sergio Natureza e Renato Piau, autores gravados por Paulinho da Viola e Luiz Melodia, criaram “Sweet Edy” e “Bem Entendido”. O título dessa última tomava a gíria da época para designar homossexual – “entendido” – e foi suprimido da lista de faixas na contracapa original (mas não do disco em si).

“Se pensa que é brincadeira/ olhe bem para a minha cara/ será que eu pareço bicho/ ou alguma coisa rara?/ pare de me sufocar/ eu quero tocar bonito/ porque senão eu grito/ e dou vexame”, declarava-se na faixa de abertura, “Claustrofobia”, assinada por Roberto e Erasmo e revestida de conteúdo gay não explícito, mas evidente, como o resto de quase todas as faixas do LP. “Bicho, eu parei na do Edy Star”, afirmava no encarte o sempre comportado Roberto.

Ditaduras e “ditabrandas” à parte, a homossexualidade era prato servido à mesa dos brasileiros dos anos 1970. O roqueiro glam Edy foi efêmero, assim como o emepebista transgressor Ney Matogrosso foi – é – perene na história moderna de nossa música. Edy rejeita qualquer comparação: “Não tem nada a ver. Sou amigo do Ney há muitos anos. Outro dia, me perguntaram se eu queria entrar nos Secos & Molhados quando ele saiu. Isso não é verdade, nunca fui convidado, nunca ouvi esse papo. Quero avisar também que, com certeza não fui uma das experiências homossexuais do Paulo Coelho.”

“Todo mundo dizia que era rock glam, mas eu não me considerava rock glam. Eu era cabareteiro, sempre fui cabaré”, relativiza a pecha recebida por conta das plumas, paetês, purpurinas, lantejoulas e saltos plataforma de 1974. “Botaram esse rótulo, e eu não nego nada. Até mentira estou dizendo que é verdade”, debocha.

Raul Seixas e a Sociedade da Grã–Ordem Kavernista

Do Pasquim para o sistema Globo foi outro pulo. “O pai do Cazuza, João Araújo [à época diretor da Som Livre], foi assistir ao show, era amigo do dono da Number One – nessa sociedade todo mundo é amigo, é uma máfia maravilhosa. ‘Quer fazer um disco?’, perguntou. Claro, quem não quer fazer um disco? Todo mundo quer fazer um disco! Eu tinha vontade de fazer um disco e, ao mesmo tempo, um certo repúdio. Todo mundo era contra o sistema Globo de televisão. Mas fiz, e fiz todos os programas musicais da Globo daquela época.”

Houve ainda um outro interlúdio admirável, cravejado entre o fim do Edivaldo da Petrobras e o início do Edy Star da Globo. Em 1971, ele integrou um quarteto-relâmpago de experimentalismo tropicalista, a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. O ideólogo, à época desconhecido, era baiano como Edy e se chamava Raul Seixas. Produtor da gravadora CBS, “Raulzito” concebeu e gravou Sessão das 10 com três artistas que amargariam posteriormente o estigma de “malditos”: Edy, a paulistana Miriam Batucada e o capixaba Sérgio Sampaio. Dos quatro, apenas Edy resta vivo.

“Outro dia, me disseram: ‘Nossa, você está durando muito!’ Se quiser, morro amanhã, pra lhe satisfazer, não é? Eu tenho culpa?”, ironiza. “Eu me cuido, querido. Sempre fui monógamo, sobrevivi à Aids, a um câncer, à ditadura. Uma das razões por que cheguei à minha idade é que não conto com quem trepei”, gargalha. “Quem come e guarda come duas vezes. Aliás, come várias vezes. Tive muitos artistas, políticos. Clérigos, também”, gargalha de novo. “O papa é um escroto, é contra camisinha no século 21, sabendo que o Vaticano está cheio de bichas. Não posso acreditar neste Deus vingativo deles. Mas estou aqui, vivo, de bem com a vida, aos 74 anos. Deus é muito “boa” comigo.”

Edy desmente a lenda de que Raul teria gravado Sessão das 10 escondido da gravadora. “Raul não mentia, mas inventava pra caralho. É um disco comum, planejado, com arranjos, coral, tudo pensado. Teve gravações à noite? Teve. Mas não foi feito na calada da noite, como dizem. Todo mundo grava à noite. Ele queria fazer um disco como Tropicália [1968] e como Frank Zappa, e fez.”

E conta babados daquela experiência. A cantora Diana, então namorada de Odair José, foi cogitada para o papel depois assumido por Miriam Batucada. “Diana odiava aquele iê-iê-iê (cantarola) ‘todo dia é o mesmo dia, toda hora é a mesma hora’. Chorava pra não gravar. Mas seo Evandro Ribeiro (diretor da CBS e artífice da imagem de Roberto Carlos) mandava, ela gravava, a música estourava. Ela queria ser Gal Costa – todas queriam.”

A segunda parte da lenda ele comprova. “Seo Evandro sabia que iria ter o disco da Grã-Ordem, mas não sabia o que era. O disco saiu, e fomos censurados pela própria gravadora. A matriz (a Columbia norte-americana) perguntou que disco era aquele, ‘What is this?’, e ele foi recolhido das lojas. Acho que seu Evandro se chateou muito, também, porque Raul estava cantando. Ele disse: ‘Isto aqui é copa e cozinha, é povão, é Roberto Carlos e Jerry Adriani. Se quer cantar, vai para a Philips, o salão é lá’. Aí todo mundo debandou da CBS, foi cada um pra um lado. E eu fui pra Praça Mauá.”

Quando houve esse episódio, Raul já era antigo na vida de Edy. Foi ele quem o trouxe para o Rio, acenando com um contrato na CBS. “Conheci Raul na Rua da Imperatriz, em Salvador, quando ele fundou o Elvis Rock Club. Tenho a minha carteirinha ainda”, lembra ele, que presta depoimento no recente documentário Raul Seixas – O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho. “Reencontrei Raulzito já com (o conjunto de iê-iê-iê) Os Panteras, depois da fase do circo, na Rádio Cultura da Bahia, onde fazíamos um programa de auditório, Só para Mulheres.”

Atribuída apenas a Leno em …Sweet Edy…, a faixa “Superestrela” era também de Raul Seixas. “Colocar o nome de Raul hoje em dia dá um problema tão grande que é preferível não colocar. Prefiro ficar longe das ‘merdeiras’ dele, aquelas herdeiras que só fazem merda”, diz. Mas teve atitude diferente com Gilberto Gil, a quem reivindicou a coautoria da letra do clássico pré-tropicalista “Procissão” (1967). “Levei 40 anos sem ser reconhecido, mas há cinco anos fizemos um contrato. Agora meu nome está lá, nas edições mais recentes”, comemora.

Quatro músicas feitas especialmente para ele ficaram fora do disco de 1974. “Moleque maravilhoso”, de Raul, saiu porque o próprio autor a gravou antes. As outras três, de Gonzaguinha (“Da largura do arame”), Luiz Melodia (“Segredo”) e Zé Rodrix (“Roupa prateada”), ficaram retidas na Censura ditatorial. Mais tarde, Wanderléa gravou “Segredo” e “Da largura do arame” (rebatizada “Eu nem ligo” e subtraída do chocante palavrão “bunda”, que os censores não haviam tolerado).

Foi ainda na Bahia, na década de 1960, que Edy iniciou o convívio com vários artistas-símbolos da época em que o circo saiu do picadeiro, virou eletrônico e passou a se chamar “televisão”. Os reis do iê-iê-iê, ele e Raul se conheceram em circunstâncias profissionais: “Fazíamos a abertura de quase todos os artistas que iam para a Bahia. O conjunto de Raul acompanhava Roberto, Erasmo, Wanderléa, Rosemary, e eu era o artista de abertura. Quando era Jerry Adriani, eu cantava músicas de Wanderley Cardoso. Quando era Wanderley, cantava Jerry.”

O circo televisivo da Bahia também progredia. Edy participava do Poder Jovem, programa de auditório dos sábados à tarde na TV Itapuã. “Ali, cantaram pela primeira vez Maria Creuza [que é sua prima], Antonio Carlos & Jocafi, Novos Baianos ainda sem Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Gerônimo, Rosa Passos. Um dia, fui expulso da TV porque cobrei meu soldo atrasado no ar. ‘Alô, dr. Paulo Nacif, tenho um problema chamado estômago, há quatro meses não recebo, como é que é, menino?’. Ele invadiu o programa, me pegou pelo braço no palco, ‘Você não pode trabalhar nesta emissora’, me jogou pra fora. E eu, com as mãos nas cadeiras, no estacionamento: ‘Mas vai me pagar, não vai?’”, ri.

Edivaldo não atribui a transitoriedade da persona Edy Star ao fato de seu inventor ser, provavelmente, o único artista brasileiro que frequentou o mainstream mesmo sendo assumidamente gay à época (como gosta de lembrar, na gravação pirata do célebre show de Gilberto Gil na USP, em 1973, o músico fala de “um amigo, uma bicha maravilhosa”, antes de cantar uma versão autoral de “Edyth Cooper”). “Desde os tempos da rádio na Bahia, eu fiz minhas bichices no palco. O público adora veadagem. Eu não fiz pra agredir, saiu naturalmente.”

Um ano depois de …Sweet Edy…, sustentou o alter ego andrógino participando como protagonista, ao lado de Lucélia Santos, Zé Rodrix e Wolf Maya, da versão brasileira do musical gay-glam Rock Horror Show. O musical também foi transformado em disco pela Som Livre, mas sem sua participação. “Eu sou um simples travesti/ transexual/ da Transilvânia”, cantava os versos que seriam proibidos em disco e na TV.

Teria sido o “sweet Edy” um golpe mercadológico global inspirado no glam rock inglês, mas bem menos bem-sucedido? “Nunca. Eu sou muito mais produto do Lennie Dale e dos Dzi Croquetes do que de qualquer outra coisa.” Algo arredio para falar de homofobia (um termo que, de resto, não era utilizado naqueles tempos), prefere de início apelar para uma terceira pessoa. “Maria Alcina é que sofreu muito, porque muita gente pensava que ela era travesti. Eu nunca fui travesti. Mas havia esse boato de que eu tinha virado travesti e era dono de uma casa gay em Barcelona. Nunca gostei de trabalhar em casa gay, ser drag queen é a coisa mais fácil do mundo. Meu negócio sempre foi puteiro, desde a Praça Mauá.”

Verdade em meio a boatos é que Edy morou na Espanha, durante 19 anos. “Fui porque não tinha trabalho aqui”, justifica assim a partida, em 1992. “Não tinha conjunto nas boates, eu tinha que fazer dublagem. Trabalhei 18 anos na Chelsea II, em Madri. Era uma casa moderna, de mulher, 36 garotas internacionais, polacas, russas, dominicanas, cubanas, italianas.” De três anos para cá, os trabalhos no país natal foram ressurgindo: um espetáculo com Maria Alcina, um show de músicas de Raul, a Virada Cultural de 2012 com o repertório da Grã-Ordem. Veio vindo, veio vindo, veio vindo, até que ficou.

Uma última pergunta para Edy Star: Como a MPB lida com a homossexualidade, de …Sweet Edy… até os dias de hoje? “Como lida? Acho que parou muito. Enquanto eu, Ney e Alcina dávamos a cara a tapa, tinha gente que fazia o mesmo, muito mais veladamente. O disco mais gay do Brasil, até hoje, é Galeria do amor (1975), de Agnaldo Timóteo, que ainda diz ‘não sou gay, sou Agnaldo Timóteo’. A polícia prendia a gente, fui preso assim, ao lado de um cartaz enorme com meu nome, e o policial dizendo: ‘Não se preocupe, não. Eu já levei Agnaldo Timóteo, por que não vou levar você? Entra aí’. Hoje, graças a nós, a bicharada está aí fazendo o diabo, e o armário está aí com um monte de bicha dentro. Ninguém dá a cara a tapa, todo mundo tem medo de perder o público! Que público? Ou o público gosta de você ou não gosta, o público vai gostar de você sendo veado ou não sendo veado, porra!” F



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