Uma casa na praia

Estávamos num grupo de 15 pessoas, a maioria estudantes, numa casa de praia,em São Francisco, povoado de caiçaras perto de São Sebastião, litoral norte de São Paulo. Éramos sete casais e o Zé (nome fictício) sozinho, topando todas. Bissexual, cantava os homens e as...

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Por Mouzar Benedito

Estávamos num grupo de 15 pessoas, a maioria estudantes, numa casa de praia,em São Francisco, povoado de caiçaras perto de São Sebastião, litoral norte de São Paulo. Éramos sete casais e o Zé (nome fictício) sozinho, topando todas. Bissexual, cantava os homens e as mulheres.

Quando chegamos à casa, que nos foi cedida por um jornalista para passar os feriados da Semana Santa de 1970, ela estava toda arrebentada. Móveis quebrados, marcas de sangue… Ficamos implicados. E mais ainda porque os vizinhos nos olhavam com estranheza. No povoado, as pessoas nos olhavam com desconfiança, poucos conversavam com a gente.

Um dia, tomando cachaça com pescadores num boteco, conversando abobrinhas, depois de algumas doses perguntei a um deles o que tinha acontecido naquela casa. Ele negaceou um pouco, perguntou se eu não sabia mesmo e por fim me contou: havia pouco mais de um mês, prenderam um grupo de “subversivos” que estavam escondidos nela. Era um “aparelho” de um grupo de esquerda. Minha curiosidade aumentou, mas ninguém sabia ou não queria contar mais nada.

A tal casa voltou à minha lembrança alguns anos depois, em 1976, quando já era um dos jornalistas do Versus. É que um dos acusados de participação no sequestro do embaixador dos Estados Unidos, chamado Paulo, tinha passado alguns anos preso, saiu da cadeia e foi participar da equipe do Versus. Ele contou que foi preso em uma casa no litoral, mas não falou mais nada sobre o assunto, pois alguns dos seus colegas também acusados pelo mesmo sequestro ainda continuavam presos, e era um tempo em que se evitava contar certas coisas. Era uma questão de segurança. Então não me aprofundei no assunto, mas pensei que tinha sido naquela casa de São Francisco. Mais algum tempo depois, quando passou a ser permitido aos presos políticos receber a visita de amigos, encontrei mais dois envolvidos com a história da casa, encarcerados no Presídio do Barro Branco,em São Paulo. Também eram acusados de participação no sequestro daquele embaixador.

Enfim, fiquei sabendo a história toda. Caçados pela polícia, foram mandados pela Ação Libertadora Nacional (ALN) para a casa na praia. E descobertos lá, onde foram presos, e quando os conheci, em 1978, continuavam na cadeia.

Há algum tempo, conversando sobre aquele 1968 e os anos seguintes, incluindo a rebordosa que veio em seguida, me lembrei daquela casa e daquela viagem. E ouvindo notícias da Parada Gay na Avenida Paulista, que será no mês que vem, lembrei-me também do Zé. Ninguém tinha preconceito contra ele, ninguém rejeitou suas investidas com raiva ou xingamentos. Mas, infelizmente para ele, os homens dessa turma eram todos heterossexuais. Era uma época em que, num certo grupo, não se cobrava muita fidelidade sexual nos namoros, principalmente nos namoros inconsequentes, mas as mulheres também não toparam uma aventura com ele.

O gozado é que ninguém voltou com a mesma namorada: os sete casais voltaram com uma composição totalmente diferente. Todos trocamos de namorada e, obviamente, todas as meninas trocaram de namorado nesses dias. Mas ninguém, repito, aceitou as cantadas do Zé, coitado, que voltou invicto. E inconformado. Logo ele que atacava dos dois lados… Tinha 14 possibilidades. No meio da viagem de volta, ainda arriscou uma última vez pro meu lado:

– Você foi com uma namorada, transaram bastante, trocou por outra e transaram bastante, e está voltando com uma outra ainda. Todo mundo fez isso. Só eu que não transei nenhuma vez.

Não me comovi. F



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