A aliança necessária

Construir pontes entre os tradicionais e sólidos movimentos sociais e as emergentes formas interconectadas de ação social é fundamental para o fortalecimento das lutas por uma sociedade mais livre e justa

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Construir pontes entre os tradicionais e sólidos movimentos sociais e as emergentes formas interconectadas de ação social é fundamental para o fortalecimento das lutas por uma sociedade mais livre e justa

Por Rodrigo Savazoni 

A relação entre os movimentos sociais e as novas tecnologias de informação e comunicação pode ser analisada por múltiplos ângulos. Pode-se abordar a resistência de parte dos movimentos tradicionais em se relacionar com essas ferramentas. Pode-se também enfocar os movimentos emergentes que, baseados no potencial técnico, organizam novas formas de ação. Pode-se, por outro lado, como é o objetivo deste texto, abordar a necessária aproximação entre esses mundos, na perspectiva de vislumbrar a conformação de uma ampla aliança em favor da transformação social.

No Festival #CulturaDigitalBr, encontro dos ativistas interconectados realizado em dezembro de 2011, essa junção de forças foi tônica. O mesmo pode ser dito do Fórum Social Mundial – que este ano ocorreu em Porto Alegre em sua versão temática e descentralizada –, onde em vários debates discutiu-se qual papel a internet e as tecnologias podem desempenhar na organização da luta social contemporânea, discussão que ocorreu em especial no evento Conexões Globais.

Sem dúvida, os acontecimentos de 2011, da Primavera Árabe ao Occupy Wall Street, passando pelos levantes que na Europa não cessam – a Grécia é a bola da vez –, ampliaram o interesse de todas as partes em avaliar a força e os limites dessa nova onda global de protestos potencializados pela cibernética.

Para João Paulo Rodrigues, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organização que, revela seu integrante, sistematicamente tem feito análises dessa conjuntura em transição, 2011 não representa um novo ciclo de ascensão da luta de classes, mas sim uma confluência de mobilizações. Para o movimento, essas manifestações precisam ser analisadas em suas diferenças, pois, apesar de combinadas, são desiguais.

“As mobilizações do mundo árabe não têm nada a ver com as mobilizações da juventude do Chile. São coisas diferentes, que usam os mesmos instrumentos. No Chile, por exemplo, há um espaço concreto que levou milhões de jovens para a rua, que é a falta de um projeto político de educação gratuito e público. A juventude árabe foi às ruas contra a ditadura e a repressão de Estados dominados por 30 a 40 anos”, analisa Rodrigues. “As mobilizações dos países desenvolvidos são diferentes. São ações contra o sistema capitalista. Há os jovens pobres da classe trabalhadora, que estão desempregados, e há uma pequena burguesia jovem que é muito bem resolvida, mas é contra esse modelo.”

Para Rodrigues, o sentido principal das ocupações (Occupy) de praças é a formação política de quem participa. “Fora isso, não altera nada a vida real”, diz. “Podemos ter ocupações em todas as praças do mundo; se não mexer no aspecto central do capital, que é a propriedade privada, não vai confrontar as estruturas de poder. O MST, quando está acampado na beira da pista, não altera estruturas. Agora, seria bom que a juventude ocupasse todas as praças, principalmente para a propaganda das ideias e a formação política de quem participa. Ainda assim, a ocupação da propriedade privada e a greve ainda são os principais instrumentos de luta da classe trabalhadora”, avalia.

O que a visão de Rodrigues comprova é que as análises sobre as características das mobilizações do ano passado podem ser distintas, mas ao menos em dois aspectos sua leitura ecoa a de outros analistas: os levantes foram ações de extremo impacto no sistema mundial – a revista semanal Time elegeu os manifestantes os “homens do ano” – e trouxeram a relação entre política e tecnologia para o centro do picadeiro – com especial atenção para o desempenho dos sites de redes sociais.

Para avançarmos na compreensão dessa questão, façamos uma pausa teórica.

–  I  –

Artigo Novas Dimensões da Política: protocolos e códigos na esfera pública interconectada, de Sérgio Amadeu da Silveira, é fundamental para compreendermos o contexto político em que estamos inseridos e as diferentes formas possíveis de relação entre a internet e os movimentos sociais. Nesse trabalho, o sociólogo, pesquisador da Universidade Federal do ABC, distingue as lutas “na rede” (1) das lutas “da rede” (2). A primeira forma (1) de disputa política utiliza a rede como arena: espaço de batalha. São as lutas que já ocorriam (como pela reforma agrária ou o feminismo) transpostas para esse novo (des)território. As lutas da rede (2), por sua vez, são aquelas que estabelecem batalhas em defesa do arranjo inovador da internet, cujos protocolos de comando e controle, criados pelos hackers, têm na navegação anônima e na liberdade sua essência. Um bom exemplo desse campo seriam os Anonymous ou mesmo movimentos como o brasileiro MegaNão.

A essas duas formas de luta poderíamos, talvez, somar uma terceira (3), que são os movimentos à “imagem e semelhança da rede”. Esses seriam, conforme descreve Naomi Klein em seu já clássico livro Sem logo – A tirania das marcas em um planeta vendido, organizações que atuam nas ruas moldadas “à imagem e semelhança da internet”. Ou seja, não só fazem da rede instrumento de suas causas, mas são transformadas estruturalmente pela possibilidade de diálogo constante e formas distribuídas de deliberação. Diferentemente dos movimentos “da rede”, são grupos que não têm como finalidade única sua luta pela internet livre, embora essa seja uma temática cada vez mais transversal e unitária.

As organizações espanholas em torno do Democracia Real Ya seriam um bom  exemplo dessa terceira categoria, pois são um coletivo de coletivos e indivíduos, articulados em rede e de forma descentralizada, cujo objeto de ação é a denúncia radical da democracia liberal que vigora na Espanha. O Democracia Real Ya também tem se destacado pelo desenvolvimento de inúmeras ferramentas desenvolvidas em software livre para a mobilização social e a disputa de ideias na esfera pública. Uma dessas é a Lorea (http://www.lorea.org), que se constitui uma rede federada e descentralizada para a organização das entidades que participam das lutas iniciadas com o 15M (os protestos que tomaram as praças espanholas a partir de 15 de maio de 2011). As características e funcionalidades da Lorea vêm sendo debatidas em assembleias virtuais em um canal do IRC (Internet Relay Chat) – uma sala de bate-papo aberta e livre, que não registra os “rastros” dos usuários especialmente criada para essa finalidade. Ou seja, a tecnologia é criada e aperfeiçoada de forma democrática.

–  II  –

O MST, talvez o principal símbolo do que Silveira chama de movimentos “na rede”, não se ilude com o potencial tecnológico nem tampouco o descarta. Em conversa telefônica, Rodrigues revela que jamais falou em público sobre o assunto, o que se contrapõe ao fato de que internamente o movimento tem feito análises constantes sobre esses deslocamentos em curso. Para ele, as novas tecnologias e a internet servem fundamentalmente a dois propósitos: (1) comunicação com a sociedade e (2) mobilização social, principalmente da juventude.

Sobre o primeiro aspecto, Rodrigues avalia que nenhum movimento social avança sem apoio amplo da sociedade. Normalmente, organizações que enfrentam o capitalismo recebem tratamento pejorativo por parte dos meios de comunicação de massa. No caso do MST, um estudo realizado pelo Coletivo Intervozes, intitulado Vozes Silenciadas, dedica-se justamente a demonstrar esse desequilíbrio editorial no tratamento à organização camponesa pelos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, pelas revistas Veja, Época e IstoÉ e pelas emissoras Rede Globo e Record. Para ele, a forma de romper com esse cinturão informacional é investir nas redes sociais e na comunicação direta com os cidadãos, sem descartar também outras formas de comunicação alternativa como as rádios comunitárias, jornais e revistas da mídia livre, entre outros agentes contra-hegemônicos.

Em relação ao trabalho de mobilização, Rodrigues avalia que as redes sociais e as aplicações de internet cumprem um papel muito importante. São “ferramentas” que contribuem, mas, por si só, não garantem a organização. “Você não consegue ter um núcleo de base no Facebook ou um acampamento no Twitter”, afirma. “Nós não acreditamos na tese que o processo de organização social e luta política se dá por autoproclamação. Atrás do instrumento tem de ter um organismo político. Tem que ter núcleo, organização, direção. Tem de ter um coletivo que convoque o movimento. As redes sociais não vão resolver o problema das classes trabalhadoras. Mas são aliadas importantes na consolidação de nossas lutas.”

Silveira relembra, citando Alberto J. Azevedo, líder do Projeto Security Experts Team, que hashtags não derrubam governos. Mobilizações pela rede têm efeito na opinião pública, e muitas delas visam a chamar a atenção das pessoas para uma reivindicação ou problema. É uma posição semelhante à de Rodrigues, para quem não se pode criar o senso comum de que a internet, por si só, organiza as classes trabalhadoras. “Ela é um instrumento das diferentes classes. Ela pode ser usada pela direita, pela esquerda, pela CIA, pelos Estados Unidos. As mudanças virão de organismos vivos, de operários, camponeses, da juventude pobre, das mulheres marginalizadas. No entanto, se a esquerda não usar, a direita vai tomar conta desse instrumento”, alerta o membro da direção nacional do MST.

–  III  –

Levemos em consideração a análise do MST. Ela nos basta por ora.

Seguindo a divisão de que a internet é fundamental para a (1) comunicação com a sociedade e (2) a mobilização e articulação da juventude, há uma série de tecnologias que vêm crescendo e ganhando projeção.

Para se comunicar com a sociedade, as organizações da sociedade precisam utilizar ferramentas corporativas como Facebook, Twitter, YouTube ou Orkut, pois elas são as grandes concentradoras de atenção. No entanto, criados para produzir valor econômico com base nos dados gerados pelos usuários, esses sites produzem um paradoxo: por um lado, consistem em um elemento fundamental para a explosão do uso da web – proporcionando inclusive impactos políticos inestimáveis, como na massificação das ideias dos protestos na Tunísia e no Egito; por outro, aprofundam o movimento de cercamento às reais liberdades que marcaram a internet desde a sua criação, justamente por se basearem em um modelo de negócios que viola a privacidade e funciona como uma draga dos dados pessoais dos usuários.

Não à toa, iniciativas como a supracitada Lorea, o Diáspora (http://joindiaspora.com), um sistema de redes sociais baseado na ideia de que os dados devem pertencer aos usuários ou a recém-anunciada proposta do Global Square, o site de rede social do movimento Occupy Wall Street, buscam oferecer alternativas para os usuários compartilharem seus textos, áudios e vídeos. A questão é: como tornar essas propostas abertas e livres atraentes para o grande público, que já está habituado e inserido nas grandes redes sociais disponíveis na internet?

No caso das mobilizações, há um fenômeno que conseguiu atingir grandes públicos, com uma proposta simples e ousada, e que preserva a abertura. Trata-se da Avaaz, cujo objetivo, como descrito em seu site (http://www.avaaz.org) é levar a voz da sociedade civil para a política formal. Criada em 2007, a Avaaz é uma plataforma voltada à construção de campanhas públicas em prol de causas sociais. Por trás dessa inciativa está outro projeto bastante relevante no mundo da política em rede: a Move.On, uma organização estadunidense que trabalha pelo fortalecimento e pela radicalização da democracia por meio da difusão de tecnologias de informação e comunicação.

Atualmente, a Avaaz possui cerca de 13 milhões de usuários, de mais de 190 países registrados em sua base de dados. Sua equipe, que possui um representante no Brasil, é formada por mais de 50 integrantes que atuam em rede, de vários países do planeta. As campanhas de mobilização da Avaaz são construídas por esses coordenadores, em interface com militantes e ativistas “na rede” e “da rede”. No Brasil, a Avaaz teve papel central no fortalecimento e na ampliação da campanha contra a construção da Usina de Belo Monte e na luta pela aprovação da Lei da Ficha Limpa, para citar apenas dois casos bastante conhecidos.

Em destaque, recentemente, podemos falar do envolvimento da organização nas ações pela democratização da comunicação, em especial em defesa da banda larga de qualidade, quando foi feita uma campanha contra a companhia telefônica Oi, que, nos bastidores, tentava anular uma resolução da agência reguladora de telecomunicações, a Anatel, sobre a qualidade das conexões à rede mundial de computadores. Recupero o exemplo da Avaaz com uma única finalidade: demonstrar que ferramentas criadas pelos ativistas para a mobilização de causas públicas podem atingir um amplo público e ser um efetivo instrumento de transformação social.

–  IV  –

Mas como construir a aliança necessária entre as forças políticas contemporâneas? O que está em debate? Centralização contra descentralização? Formas de ação espontâneas ou organizadas? Ações emergentes, construídas de baixo para cima, ou ações de impacto, construídas clandestinamente e compartilhadas de cima para baixo? Essas são questões táticas que tradicionalmente opõem as esquerdas. Com a emergência dos movimentos interconectados, ganharam novo impulso. Não são, porém, questões novas. Rodrigues relembra que debates como esse acompanharam a fundação do MST e opuseram, ao menos taticamente, o movimento em relação aos partidos tradicionais de esquerda, de origem comunista.

“O MST tem feito um exercício permanente de, em vez de fortalecer o centralismo, fortalecer o democrático”, diz Rodrigues, estabelecendo uma crítica organizacional ao chamado centralismo democrático, forma de ação política de origem leninista que exige dos militantes a defesa das posições do coletivo, mesmo quando não concordam com elas. “A internet ajuda justamente para fortalecer esse processo de abertura”, avalia. “Não queremos uma estrutura centralizada, em que uns mandam e os outros obedecem”.

Ouvindo Rodrigues, fica claro que não serão as tecnologias a aproximar novos e velhos movimentos, mas sentimentos comuns, como a vontade de mudar as estruturas sociais, presente como força motriz da ação de camponeses, negros, mulheres, gays, lésbicas, jovens, crianças, hackers etc. Aos artefatos, caberá a função de permitir que essa diversidade se visualize no mesmo campo de batalha, atuando como forças grávidas de um outro mundo possível. Se isso ocorrer, talvez tenhamos a chance de vencer a infâmia. E se essas tecnologias ainda não existem, é nosso papel criá-las. Todos juntos: velhos e novos, dotados ou não de expertise técnica. Pois assim se organiza a inteligência coletiva.



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