A vida quer é coragem e Occupy – movimentos de protesto que tomaram as ruas

A biografia da presidente Dilma Roussef e os movimentos que ocuparam espaços públicos em 2011

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A biografia da presidente Dilma Roussef e os movimentos que ocuparam espaços públicos em 2011

Por Redação

A vida não é fácil. Nunca foi
O correr da vida embrulha tudo, a vida 
é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem 
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
A vida quer é coragem – A trajetória de Dilma Rousseff, do repórter Ricardo Batista Amaral, é um daqueles livros que se pode ler de duas formas. A primeira, sem compromisso. Apenas para conhecer a história da primeira presidenta da República do Brasil até a sua posse. E quem decidir fazê-lo com essa pretensão, vai ter momentos de boa leitura. Primeiro, porque o autor é bom de pena. Conduz o leitor por labirintos da história recente do Brasil, tendo como linha condutora a história da personagem central. E, nesse sentido, as partes fortes são as do regime militar e, claro, a fase mais recente de Dilma, de 2003 à sua eleição em 2010. Prefiro muito mais a primeira, na qual a distância entre o autor e os fatos parece deixá-lo mais à vontade para revelar certos bastidores.
Mas há um outro jeito de ler a obra. Algo que o resenhista tentou em algumas partes, na segunda leitura que está fazendo do livro, e que promete concluir dentro em breve. A de ir assinalando nomes e fatos marcantes que são relatados com uma caneta pincel. Esse trabalho permite enxergar o envolvimento de certos personagens e a força que têm na história da atual presidenta, como o de seu ex-marido, o advogado Carlos Araújo, que está presente em quase todos os momentos decisivos da vida de Dilma. Mesmo nos momentos recentes.
Como a trajetória de Lula era quase do conhecimento público quando assumiu a presidência, seus movimentos eram de compreensão mais inteligível. No caso de Dilma, ainda se vive um processo de “decifrar a esfinge”. E o livro de Amaral é, até o momento, o trabalho mais completo nesse sentido.
Nele, aparecem detalhes de como Dilma lidou com a relação que o então marido teve com Bete Mendes enquanto ela estava presa. Ao também ser preso, Araújo decide revelar em uma mensagem para a mulher em uma carta de “letra miúda, papel fino, dobrado e redobrado até caber num chiclete mascado, escondido no fundo do maxilar do portador”, a relação que teria tido com a então famosa atriz. Carlos viria a reencontrar a companheira logo depois. “Foi uma emoção enorme aquele reencontro”, lembra. E completa na narrativa do livro: “Ela nunca me perguntou sobre o caso com Bete que eu contei naquela carta.”
A foto que acabou se tornando a contracapa do livro de Amaral, e que Fórum publica nesta edição, talvez seja o retrato mais completo da atual presidenta. O olhar de quem sabe o que está acontecendo e do que está por vir. Um olhar profundo de quem não se autopenitencia pela situação vivida. Muito pelo contrário. De uma jovem que tinha a exata dimensão do tamanho do combate do qual era uma das muitas personagens cuja vida estava em jogo.
Mas há outros trechos reveladores no livro. Não se pode deixar de tratar do momento em que foi informada sobre o câncer pelo médico Roberto Kalil Filho, quando ao final do telefonema, olhou para o seu secretário Anderson Dorneles e disse: “A vida não é fácil. Nunca foi.”
Esse parece ser um mantra de Dilma. Algo que ela parece repetir a todo momento para si. “A vida não é fácil. Nunca foi”. Nos momentos mais duros do governo, essa frase parece ser a válvula de escape para lidar com certas situações. Se “a vida não é fácil e nunca foi”, Dilma acaba arriscando, mesmo sem parecer que assim o faz. E faz isso muito mais do que Lula, mesmo sem parecer.
A vida quer é coragem é fundamental para começar a compreender a alma de Dilma. Veja bem: “começar a compreender”. Para entendê-la de fato, outros trabalhos contando sobre os bastidores do seu governo serão fundamentais.
(Renato Rovai)
A vida quer é coragem
Ricardo Batista Amaral
Editora Sextante, 336 páginas
Vozes das ruas
Só o tempo vai dizer, mas 2011 pode ter marcado o início da reconquista do espaço público. Praças e ruas ficaram cheias – da Primavera Árabe aos protestos contra medidas de austeridade econômica na Europa, do Occupy aos indignados da Espanha.
Somem-se a isso outras tantas ações aqui no Brasil – das manifestações pela descriminalização da maconha àquelas organizadas pela liberdade de se vestir livremente.
Muitos políticos não entendem como esses atos não foram necessariamente organizados por partidos e sindicatos, mas sim em um processo descentralizado, que brotou da insatisfação popular tanto com a persistência de problemas existentes quanto com as soluções que vêm sendo dadas pelos próprios representantes políticos a esses problemas.
Não são raros os que têm dificuldade em assimilar como funcionam Twitter e Facebook, utilizados na organização de protestos. Eles não são ferramentas de descrição, mas sim de construção e reconstrução da realidade. Plataformas nas quais vozes dissonantes se conectam e ganham escala, pois não são mediadas pelos veículos tradicionais. Quando a pessoa atua através de uma dessas redes, não reporta simplesmente. Inventa, articula, muda. Vive.
Os textos presentes nesse livro ajudam a entender por que e como tanta gente está indo para a rua. Alguns deles, inclusive, soam como um necessário empurrão para fora de casa.
Ver que os jovens estão gritando a plenos pulmões sob o Sol e a chuva traz uma lufada de esperança. Talvez esta nova geração, auxiliada pelas trocas e conexões possibilitadas pela tecnologia, faça a diferença de uma forma que os que vieram antes não conseguiram. (Leonardo Sakamoto)
Occupy – movimentos de protesto 
que tomaram as ruas
David Harvey, Edson Teles, Emir Sader, Giovanni Alves, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Žižek, Tariq Ali, Vladimir Safatle.
Boitempo Editorial, 88 páginas


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