Anatomia Sáfica

Djuna Barnes cutucou várias onças com sua vara curta. Quando escreveu seu pequeno pastiche Ladies Almanack em 1928, tirando com a cara de várias de suas amigas lésbicas

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Djuna Barnes cutucou várias onças com sua vara curta. Quando escreveu seu pequeno pastiche Ladies Almanack em 1928, tirando com a cara de várias de suas amigas lésbicas

Por Vange Leonel

Djuna Barnes cutucou várias onças com sua vara curta. Quando escreveu seu pequeno pastiche Ladies Almanack em 1928, tirando com a cara de várias de suas amigas lésbicas, magoou boa parte delas. Décadas depois, seu Almanack é considerado sexista por alguns críticos, e radicalmente feminista por outros. O livro descreve o amor lesbiano com todos seus podres e delícias, e nunca foi traduzido ou publicado no Brasil. Admiradora de Barnes, estou prestes a finalizar a tradução do livro. Aqui, um capítulo do hermético almanaque.

ABRIL

Nota-se uma Melancolia aguda nas que já trilharam Milhas nessa Matéria, embora uma Paixonite leve, alegrinha e dançante, pareça alimentá-las nos primeiríssimos Estágios; Pensamento curto; Atenção zero; uma Tendência para saltitar, trepar e saltar e desviar o Olho em direção a toda e qualquer manifestação de Garota em Destempero semelhante.

Segue-se um Arrepio e uma Inquietude à Noite, recontando Listas infindáveis de Objetos desimportantes como Paralelepípedos, (Barretinas, estivesse em Londres!), Campanários, Amoras em Cestas, Etiquetas em Vestidos, Cascos em Cavalos e Estrelas no Céu.

Em seis a oito Semanas, isso dá lugar a uma Sobriedade que inclui pensamentos de Transmigração, Levitação, Miopia e Definhamento. O Olho pinga, o Fôlego falha, o Baço dilata e a Epiglote ergue e desaba com o Coração deglutindo continuamente. Então, as Veias saltam, os Nervos repuxam, as Palmas das Mãos umedecem, os Pés paralisam, os Intestinos travam e, assim como antigamente, quando encontrávamos germes na Urina de Pessoas com Hidrofobia terminal, nas Águas destas observa-se a Figura de Vênus em marcha, completamente Paramentada, não maior que uma Semente de Cominho, um Tridente em Punho e uma Varejeira na Mão esquerda.

Dizem que fulana, nos Estertores da Morte, atravessou uma Escola de Piranhas sentada num Carro de Concha, emitindo Fogo e consumindo-se em ódio até que o Corpo do Fluido em seu Penico se transformasse numa Flama, lembrando um Brandy ardente, e finalmente correu para a Botica e tornou-se, em menos de um segundo, uma Brasa carbonizada e incandescente. Seja como for, há aquelas que suportam a Enfermidade, e estas emitem Sinais tão dissimilares a Ponto em que a Classificação torna-se quase impossível; uma Anatomia completa precisaria ser redigida para contemplar mesmo a menor Nervura dos Males, Mágoas e Agonias.

Outras possuem Temperamento quase imaculado salvo a Vaidade. Estas são vistas trançando Heras em seus Cabelos ou atirando um Ramo de Louros em direção aos Templos, enquanto entoam “Eu sou Eu!”, não se dignando a ver qualquer Problema a menos que alguém reclame “E daí?”, o que provoca nelas tal fúria que mesmo as Roupas das suas Companheiras correm perigo e suas Fisionomias, tão alteradas pelo Orgulho inútil, fazem com que elas se pareçam, em não menor grau, com a Loba despossuída de sua Ninhada.

Outras são ainda de uma Tintura diferente, sempre doces e meigas, e sentem muito Prazer fazendo Oferendas e Dádivas e cobrindo de Rosas a chegada de suas Adoradas. Nestas percebe-se o Olho límpido, a Boca sorridente, os Cabelos sedosos de Criança, a bonne mine, o Temperamento elevado, o Coração forte e a Coragem que leva a Loucuras. Pode-se contar com estas em todas as Horas e, quando mortas, são enterradas com a aparência de um Relógio bom que nunca adiantou ou atrasou, mas que badalou a hora exata para a duração da Mortalidade e é apenas silenciado e removido porque o Senhor sacou suas Tesouras e lhe cortou o Pêndulo.

(Djuna Barnes, Ladies Almanack, 1928)



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