Dossiê mostra dados alarmantes sobre agrotóxicos na saúde dos brasileiros

Abrasco lança preocupante alerta sobre o uso de agrotóxicos no Brasil

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Abrasco lança preocupante alerta sobre o uso de agrotóxicos no Brasil

Por Moriti Neto

Em 29 abril, durante a primeira edição do World Nutrition Congress, congresso mundial de alimentação e nutrição em saúde coletiva, realizado no Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) fez importante alerta à sociedade e ao Estado brasileiros. Na ocasião, a entidade lançou a primeira parte de um dossiê – Um alerta sobre os impactos dos Agrotóxicos na Saúde – que registra a preocupação de pesquisadores, professores e profissionais com a escalada no uso de agrotóxicos no país, bem como a consequente contaminação do ambiente e das pessoas, com graves impactos à saúde pública.

A pesquisa objetiva alertar, por meio de evidências científicas, as autoridades nacionais, internacionais e a sociedade em geral para a construção de políticas públicas que possam proteger a saúde humana e os ecossistemas impactados pelos agrotóxicos. O estudo formula dez princípios para evitar ou reduzir o consumo nos cultivos e alimentação do brasileiro.

O dossiê surgiu da iniciativa da associação e foi amadurecido em pesquisas, congressos, seminários e grupos de trabalho, principalmente de saúde, ambiente, nutrição, saúde do trabalhador e promoção da saúde. “O nosso objetivo central é contribuir para o efetivo exercício do direito à saúde e para as políticas públicas responsáveis por essa garantia”, diz o presidente da Abrasco, Luiz Augusto Facchini.

O Brasil, nos últimos três anos, ocupa o lugar de maior consumidor de agrotóxicos no planeta. Dessa forma, os impactos à saúde pública são amplos, já que atingem grandes territórios e envolvem diferentes camadas populacionais. A Abrasco defende que tais impactos são associados ao atual modelo de desenvolvimento, voltado prioritariamente para a produção de bens primários para exportação. “Nos eventos da entidade, por exemplo, no I Simpósio Brasileiro de Saúde Ambiental e no V Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, foram aprovadas moções sugerindo maior envolvimento nosso com essas questões, principalmente as relacionadas aos agrotóxicos”, comenta Facchini.

O grupo de trabalho da associação sobre saúde e ambiente tem produzido várias reflexões a respeito do tema. Foi em oficina realizada no VIII Congresso Brasileiro de Epidemiologia que a Abrasco decidiu construir, junto com comissões e associados, o dossiê sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde no Brasil.

Crescimento negativo

Numa das conclusões, o dossiê destaca que, enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o brasileiro aumentou 190%. Em 2008, o consumo nacional ultrapassou os Estados Unidos e assumiu o posto de liderança, representando uma fatia de quase 20% do uso mundial de agrotóxicos, movimentando, só em 2010, cerca de US$ 7,3 bilhões.

De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), utilizados na pesquisa, na safra produzida entre o segundo semestre de 2010 e o primeiro semestre de 2011, o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos, sendo 246 mil toneladas importadas. Portanto, em 2011, houve um aumento de 16% no consumo, o que alcançou uma receita de US$ 8,5 bilhões. A soma das lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representa 80% do total das vendas do setor.

O estudo aponta que, na safra de 2011, foram plantados 71 milhões de hectares de soja, milho, cana e algodão, consideradas lavouras temporárias, e de cultivos permanentes, casos do café, de cítricos, frutas e eucaliptos. Isso corresponde a cerca de 853 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados, principalmente herbicidas, fungicidas e inseticidas. Segundo índices do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo médio por hectare nas lavouras é de 12 litros, e a exposição média ambiental, de 4,5 litros de agrotóxicos por habitante.

Outro ponto abordado pelo dossiê da Abrasco mostra que a soja foi o item que mais utilizou agrotóxicos, com 40% do volume total de herbicidas, inseticidas, fungicidas e acaricidas. Em segundo lugar está o milho, com 15%, seguida da cana e do algodão, com 10%, dos cítricos, com 7%, e de café, trigo e arroz, com 3% cada um. Na a produção de hortaliças, a pesquisa, fundamentada nos números da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), indica que o consumo de fungicidas atingiu uma concentração bem maior, cerca de 800 mil hectares, contra 21 milhões apenas na soja. Essa comparação estima que a concentração de ingrediente ativo de fungicida em soja no Brasil, no ano de 2008, foi de 0,5 litro por hectare, muito inferior à estimativa de quatro a oito litros por hectare nas hortaliças. Isso demonstra que cerca de 20% da comercialização no país é destinada a essa cultura.

Já quanto às evidências científicas dos riscos à saúde humana por ingestão de alimentos, o dossiê descreve que o consumo prolongado de alimentos contaminados por agrotóxicos ao longo de 20 anos pode provocar doenças como câncer, malformação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais. Um dado de extrema preocupação é a constatação de contaminação no leite materno. Para os cientistas, não se sabe ao certo as consequências para um recém-nascido ou um bebê que está em fase inicial de formação, considerando que uma criança é altamente vulnerável a compostos químicos. “São muitos os perigos. Temos que implantar a consciência de que não basta crescimento econômico para a evolução de um país, de uma sociedade. Temos que produzir conhecimento para a população”, argumenta Luiz Augusto Facchini.



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