Forças produtivas versus Pachamama?

Monopólios privados dos meios de comunicação influenciam opinião pública com suas denúncias sobre o governo em países da América do Sul

347 0

Monopólios privados dos meios de comunicação influenciam opinião pública com suas denúncias sobre o governo em países da América do Sul

Por Emir Sader

A direita partidária está derrotada nos países de governos progressistas na América Latina. Os nomes dos partidos e os personagens mudam, mas se repetem de forma similar na Argentina, no Brasil, no Uruguai, na Bolívia, no Equador, na Venezuela. A oposição concentra sua força nos monopólios privados dos meios de comunicação, com base nos quais trata de influenciar a opinião pública com suas denúncias sobre o governo.

Com isso, consegue limitar a capacidade dos governos de difundir suas versões e de consolidar as maiorias políticas que têm conquistado, no plano da consciência social, dos valores. As oposições não conseguem constituir lideranças capazes de disputar com os candidatos governistas, até porque não têm propostas alternativas, oscilando – como fez Serra em 2010 – entre reconhecer os avanços dos governos e ficar deslocados para competir com o candidato do governo, ou desconhecer os avanços e ficar sem apoio popular.

Dada essa situação, a construção de alternativas ao neoliberalismo – que chamamos de pós-neoliberalismo – passou a se chocar com oposições de outra ordem, com contradições dentro do próprio campo popular, que elegeu e apoiou esses governos. Os nomes dos conflitos são distintos – Tipnis, na Bolívia; Catamarca, no Peru; Belo Monte, no Brasil; Geleiras, na Argentina, Yasuni, no Equador – mas, essencialmente, trata-se de conflitos entre projetos de desenvolvimento econômico e de defesa do meio ambiente.

O homem teve de se submeter às leis da natureza praticamente ao longo de toda a história. Levantava-se e saía quando havia luz, se recolhia quando ela acabava. As transformações da natureza pelo trabalho humano se identificavam com o progresso e com o bem-estar dos seres humanos.

A temática ecológica explora os limites da natureza para as transformações humanas, fundada na dilapidação que foi sendo feita, na busca desenfreada de lucro, por parte das grandes corporações privadas – que são as grandes contaminadoras e devastadoras das reservas naturais.

A nova agenda coincide com a passagem ao ciclo longo recessivo do capitalismo, que deslocou o tema do desenvolvimento econômico em favor da questão da estabilidade monetária – e seus anexos, como o ajuste fiscal, a luta contra a inflação etc. Ao mesmo tempo, foram se multiplicando movimentos ecológicos, movimentos indígenas defendendo suas terras, movimentos camponeses, com reivindicações ligadas ao meio ambiente.

Na América Latina – continente que detém grande quantidade de recursos naturais e energéticos –, esse tema se colocou de maneira mais aguda, até porque o continente havia sofrido retrocessos graves, com a crise da dívida, as ditaduras militares e os governos neoliberais, que provocaram, entre outros aspectos negativos, processos de desindustrialização. Assim, a exportação de produtos primários – coincidindo com o grande aumento da demanda de produtos agrícolas e de recursos energéticos – passou a ter um papel estratégico, para que as economias do continente pudessem retomar ciclos de expansão econômica.

As economias que mais cresceram – Argentina e Peru – tiveram como essência de sua pauta exportadora os produtos agrícolas (especialmente soja) e minerais. Os conflitos em torno dos temas ambientais passaram a ocupar o centro dos conflitos entre as políticas econômicas e as reivindicações ecológicas. Estas se tornaram mais agudas nos governos – como no Peru – em que houve concessões a grandes corporações internacionais, sem quaisquer preocupações ambientas, assim como nos países em que os movimentos de resistência assumiram posturas preservacionistas intransigentes.

Não foi encontrada até aqui nenhuma fórmula geral que permita compatibilizar desenvolvimento econômico e equilíbrio ambiental. Excluídas as propostas de desenvolvimento econômico sem nenhum tipo de regulamentação – caso dos governos de Fujimori, Toledo e Alan Garcia no Peru – e dos movimentos preservacionistas intransigentes – que existem praticamente em todos os países –, a discussão mais importante a ser levada a cabo, em cada caso concreto, é a busca da sustentabilidade econômica, social e ecológica, simultaneamente. Uma discussão que não encontrou ainda um marco teórico que permita sua solução positiva e que provavelmente se prolongará ao longo de toda a segunda década deste século.



No artigo

x