Liberdade para os macacos

Ter um chimpanzé como pet, além de cruel, pode ser perigoso também. Anos atrás, a herdeira milionária Paris Hilton foi mordida por seu chimpanzé de estimação e, supostamente, teria se submetido a uma plástica para eliminar a cicatriz.

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Ter um chimpanzé como pet, além de cruel, pode ser perigoso também. Anos atrás, a herdeira milionária Paris Hilton foi mordida por seu chimpanzé de estimação e, supostamente, teria se submetido a uma plástica para eliminar a cicatriz.

Por Vange Leonel

Em dia 28 de fevereiro de 2012, um pequeno incêndio atingiu um par de apartamentos de um edifício de luxo, em um bairro nobre de São Paulo. Os bombeiros chegaram a tempo de debelar o fogo, e todos os moradores conseguiram evacuar o edifício sem ferimentos. Uma única vítima, no entanto, ainda permanecia dentro de um dos apartamentos em chamas: um macaco de estimação. No dia seguinte, soube que o macaco foi salvo do incêndio, mas nem seu nome, espécie ou a identidade de seu dono foram divulgados. Restou a dúvida: seria legal aquele macaquinho de estimação? A reportagem nada disse a respeito.

Segundo o Ibama, animais silvestres não podem ser “adotados” como pets, a não ser em casos específicos. Se você encontrar um animal silvestre perdido por aí, por exemplo, pode levá-lo para casa e cuidar dele até que os órgãos competentes (que você deverá acionar) venham recolhê-lo.

Há pouco tempo, o atacante Emerson, do Fluminense, postou no Twitter uma foto de seu macaco de estimação. Após enfrentar apupos de defensores de animais, ambientalistas e protetores, o jogador explicou que o animal viera de um criadouro legalizado e que ele possuía toda a documentação exigida pelo Ibama, portanto, era o responsável legal pelo macaquinho. De fato, o Ibama permite o acolhimento de animais silvestres se forem procedentes destes criadouros certificados. Mesmo assim, acho bem estranho alguém criar primatas não humanos como se fossem pets. Ainda bem, os ativistas do GAP concordam comigo.

O GAP (Great Apes Project ou Projeto Grandes Primatas http://www.greatapeproject.org/pt-BR) nasceu há quase 20 anos com base nas ideias dos filósofos Peter Singer e Paola Cavalieri. Seu trabalho é resgatar macacos de zoológicos, laboratórios, circos e cativeiros; levá-los para santuários arborizados para que se adaptem novamente à vida em sociedade entre seus semelhantes e, se possível, devolvê-los ao seu habitat de origem.

Segundo Pedro A. Ynterian, fundador do GAP, “um chimpanzé não é um pet e também não pode ser usado como mero objeto de diversão ou cobaia. Ele pensa, sente, se afeiçoa, odeia, sofre, aprende e, inclusive, transmite seu aprendizado. Enfim, é como nós. A única diferença é que não fala; porém, se comunica por gestos, sons e expressões faciais. Precisamos garantir seus direitos à vida e à liberdade”.

A situação jurídica dos nossos irmãos peludos aqui no Brasil tampouco é fácil. Os animais não se encaixam na categoria “seres humanos” nem na categoria “coisas”. Como integrantes de uma categoria indefinida juridicamente, processos sobre a posse legal de primatas são complicados. Pessoalmente, acredito que possuir chimpanzés (ou mesmo macacos de espécies mais distantes na árvore evolutiva) seja uma espécie de escravidão. Apenas lembrando, nós e os chimps compartilhamos 95% dos nossos genes. Com o perdão da ousadia, os macacos são quase humanos e deveriam ter direitos especiais. Não falo de direitos humanos, mas de direitos específicos, que protejam estes animais dotados de inteligência singular, que sabem falar por sinais e até pintam quadros.

Ter um chimpanzé como pet, além de cruel, pode ser perigoso também. Anos atrás, a herdeira milionária Paris Hilton foi mordida por seu chimpanzé de estimação e, supostamente, teria se submetido a uma plástica para eliminar a cicatriz. Provavelmente, a moça achou que o macaco era um dos seus serviçais e levou uma dentada à guisa de rebeldia. Dinheiro pode comprar subserviência humana, mas não compra afeição de macaco. Fica a dica, senhorita Paris. F



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