“Não perdoamos, não esquecemos e não reconciliamos”

Fórum localizou e entrevistou um dos integrantes da Frente do Esculacho Popular. Confira a entrevista a seguir.

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Fórum localizou e entrevistou um dos integrantes da Frente do Esculacho Popular. Confira a entrevista a seguir.

Por Pedro Venceslau

O movimento que reuniu dezenas de pessoas em frente à casa do médico legista Harry Shibata no último 7 de abril – data em que se celebram os Dias do jornalista e do médico legista – não tem líderes, abomina as redes sociais e opera de maneira praticamente clandestina, como as cédulas da esquerda nos anos 1960 e 1970. Mas a “Frente do Esculacho Popular” tem uma razão muito concreta para tanta cautela. Durante um ato realizado no Rio de Janeiro, em 31 de março deste ano, dia de aniversário do golpe militar, um militante cuspiu no rosto de um militar de pijamas. No dia seguinte, a foto dele apareceu no blogue “Verdade Sufocada”, do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ulstra.

Ato contínuo, o jovem passou a receber ameaças de morte. Fórum localizou e entrevistou um dos integrantes do movimento. S.L prefere não se identificar ou mesmo dar pistas. Reluta até mesmo na hora de revelar a idade, mas acaba cedendo: 39 anos. “Há um ex-torturador conhecido como ‘Capitão Lisboa’ que, hoje, é dono de uma empresa de segurança e monitoramento de internet. Pessoas do grupo já foram ameaçadas de morte”, conta S.L. Ele revela que é filho de exilados políticos, nasceu fora do País e só conseguiu ser naturalizado brasileiro depois de muita luta.

Fórum – Como a “Frente do Esculacho Popular” se organiza?

S.L. – O movimento reúne parentes e familiares de vítimas da ditadura, exilados e pessoas sem relação direta. São pessoas de todas as idades, o que é muito interessante. Muitos espaços de militância são delimitados por idade e gerações. Nos organizamos de maneira horizontal.

Fórum – Como foi articulado esse ato do esculacho em frente à casa do médico legista Harry Shibata?

S.L. – Foram três meses de preparação, mas prefiro não revelar mais detalhes. Escolhemos o Harry Shibata porque ele representa a peça fundamental da engenharia do esquecimento e da amnésia social. Ele ensinou a policiais a prática de esconder as marcas da tortura. Essa prática é usada até hoje. A ditadura acabou no sentido eleitoral, mas o terrorismo de Estado é praticado todo dia. Na periferia, costumam dizer que fulano “tomou um esculacho da polícia”. Isso não é banal. Isso é tortura. No começo do ano, o massacre de Pinheirinho foi brutal. Não podemos esquecer.

Fórum – Vocês fazem a mobilização por meio das redes sociais?

S.L. – Não trabalhamos com redes sociais.

Fórum – Por quê?

S.L. – Por que as redes sociais representam um grande golpe para monitorar todos. Com elas, não temos privacidade nenhuma. Prefiro mesmo não revelar a forma como nos organizamos.

Fórum – Então vocês operam de forma clandestina?

S.L. – Não exatamente, mas todas as nossas ações são cuidadosas. A luta política é muitas vezes criminalizada. Há falta de democracia completa no capitalismo, que usa milícias particulares para atacar os sem-terra.

Fórum – É filiado a algum partido político?

S.L. – Não

Fórum – O que acha da Comissão da Verdade?

S.L. – Ela deve ser instalada imediatamente, mas temos nossa concepção de como ela deve ser. Ela devia ser uma comissão da memória, verdade e justiça, e não falar em conciliação nacional. Nós não perdoa­mos, não esquecemos e não nos reconciliamos. Não há reconciliação possível com o terrorismo de Estado. Nosso grupo é heterogêneo, mas todos nós identificamos um limite concreto na proposta da presidenta Dilma Rousseff. Esse governo optou por políticas de aliança que impedem o avanço. Também defendemos uma nova geografia da memória. Uma rua ou ponte jamais poderia se chamar Sergio Fleury ou Costa e Silva. A Comissão da Verdade deveria fazer como na Argentina e criar centros de memória nos lugares onde houve tortura. As placas são uma simbologia da memória popular.

Fórum – Qual a inspiração de vocês?

S.L. – A inspiração veio do movimento H.I.J.O.S, que reúne os filhos de mortos na ditadura da Argentina, os Resistentes Franceses, as Mães da Praça de Maio e a Coordinadora Anti-Fascista, da Espanha. F



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1 comment

  1. Observador Responder

    Os cães ladram e a caravana passa.


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