Não podemos deixar 1964 se repetir

Brigadeiro da Aeronáutica cassado pela ditadura defende a Comissão da Verdade e quer que governo seja duro com militares que se manifestem contra

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Brigadeiro da Aeronáutica cassado pela ditadura defende a Comissão da Verdade e quer que governo seja duro com militares que se manifestem contra

Por Leonardo Fuhrmann

Aos 92 anos e sofrendo de uma leucemia crônica, Rui Barbosa Moreira Lima aguarda a confirmação na Justiça de sua promoção a brigadeiro de quatro estrelas (patente máxima da Aeronáutica). Mas a idade avançada e os problemas de saúde não impedem que o militar continue acompanhando o desenrolar dos acontecimentos na política e na vida militar do Brasil. E nem mesmo os adversários podem negar a coerência de sua longa trajetória.

Foi piloto de caças com 94 missões durante a II Guerra Mundial, lutando contra as ditaduras nazifascistas, participou da implantação da aviação a jato no País, defendeu a posse do presidente Juscelino Kubitschek, que havia sido democraticamente eleito, e depois defendeu seu governo de duas tentativas de golpe militar. Em 1961, esteve ao lado da legalidade quando militares ligados à União Democrática Nacional (UDN) tentaram evitar a posse do vice João Goulart após a renúncia do presidente Jânio Quadros e, três anos depois, quando esse grupo conseguiu instituir uma ditadura militar.

Cassado e preso três vezes durante o regime de exceção, participou, no começo dos anos 1980, da formação da Associação dos Militares Cassados (Amic). Estiveram no grupo que criou essa entidade personalidades como o general e historiador Nelson Werneck Sodré e o capitão paraquedista Sérgio Miranda de Carvalho, conhecido na Aeronáutica como Sérgio Macaco. Sodré relata em seu livro História Militar do Brasil os casos de tortura cometidos, nos anos 1950, por militares que depois fariam parte do golpe contra praças e sargentos que participaram da campanha “O petróleo é nosso”. Em 1969, Macaco denunciou um plano terrorista a ser realizado no centro do Rio, que teria sido proposto a ele pelos brigadeiros Hipólito da Costa e João Paulo Burnier. A ideia era responsabilizar “os comunistas” pela série de ataques e justificar o aumento da violência na repressão. Por causa de suas denúncias, o militar, que ficara conhecido por suas missões humanitárias, em especial em defesa dos índios da Amazônia, foi preso e torturado.

Hoje, a Amic passou a se chamar Associação Democrática e Nacionalista de Militares (Adnam) e Moreira Lima defende a Comissão

da Verdade, critica os militares que atuam contra ela e pede a atenção das autoridades contra qualquer tentativa de desestabilização da democracia.

 

Fórum – Qual é a sua opinião sobre a formação da Comissão da Verdade?

Moreira Lima – Sou um defensor da Comissão da Verdade. Acho que ela vai acabar com todas essas fofocas que saem do Clube Militar, conversas que pensei que ficassem restritas àquele pessoal antigo, que prendeu a gente, torturou, fez e aconteceu durante aqueles anos. Fizeram as maldades que quiseram na época da chamada “revolução”. Estou vendo agora que aquele pessoal que era novo – tenentes na época, que chegaram a general – repete o mesmo discurso deles. Teve o general Luiz Eduardo Rocha Paiva que falou um absurdo em uma entrevista para a jornalista Miriam Leitão em um programa de televisão. Falou que não concordava com a comissão porque havia sido feita uma anistia. Mas mesmo feita a anistia…

A anistia tem uma coisa gozada. Considerando esse negócio como válido, é preciso deixar claro que havia um prazo. As bombas do Riocentro e nas sedes da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) são posteriores ao prazo previsto (a lei impõe os limites de 2/9/61 a 15/8/79). Por que tem de dar anistia pra esses caras também? E, na minha opinião, o torturador não pode ser anistiado, pois é um bárbaro, um covarde. O sujeito que mata alguém que está preso também. Teve casos em que eles cortaram os corpos das vítimas. Era para a Marinha, o Exército e a Aeronáutica receberem bem essa comissão. Como que alguém pode esquecer do deputado Rubens Paiva [desaparecido em 1971 após ser preso]? Se ele entrou preso e sumiu? Como esquecer o Vladimir Herzog [assassinado dentro do DOI-Codi em 1975]? Aí, aparece um general e diz que não sabe se ele se enforcou ou se a presidenta Dilma Rousseff foi de fato torturada? Acho que é até uma falta de respeito pela autoridade. Não estou pedindo que ele tenha respeito pela dona Dilma, mas ela está no cargo de presidente da República. É uma lástima que ainda se faça isso.

Fórum – A quem isso interessa?

Moreira Lima – Eu me lembro quando estavam fazendo o lançamento do filme Senta a Pua [baseado no livro de Moreira Lima], que conta a história do Grupo de Caça do Brasil, que participou da II Guerra Mundial. A atriz Bete Mendes falou na minha frente, lá no Cine Odeon [no centro do Rio], da sua passagem como deputada por Montevidéu durante o governo José Sarney. Ela encontrou o coronel Brilhante Ustra como adido militar do Brasil no país e o reconheceu como o Doutor Tibiriçá que havia torturado ela. Esse rapaz não foi promovido a general. Em quatro anos do Doi-Codi [Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna], só praticou isso. Todo mundo sabe. Isso tem que ser apurado, sim. Esse rapaz foi afastado. O então presidente o tirou de lá, para acalmar o pessoal.

Fórum – E como o senhor vê a reação dos clubes militares?

Moreira Lima – Há alguns meses, os presidentes dos clubes militares fizeram um jantar ou um almoço de desagravo, porque ele não chegou a general por ser acusado de ser torturador. Homenagearam esse rapaz. Eles pegaram o discurso de posse da presidenta Dilma, no momento em que ela se refere aos partidos de oposição e que “não estiveram conosco nesta caminhada” e promete que não haverá privilégios nem discriminação. Isso não tem nada a ver com a discussão sobre a Comissão da Verdade. Os presidentes dos três clubes militares publicaram um manifesto censurando a presidenta Dilma Rousseff e atacando as ministras Maria do Rosário, de Direitos Humanos, e Eleonora Menicucci, de Políticas para as Mulheres. Eles destacam que a carta foi assinada por militares da reserva, mas manifesta também a insatisfação daqueles que estão na ativa e são proibidos de se manifestar.

Tenho muito medo desse tipo de manifestação, porque eu já vi esse filme. O coronel Jurandir Bizarria Mamede fez um discurso em 1955, no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, contra a posse do presidente Juscelino Kubitschek, e o general Henrique Teixeira Lott ordenou sua prisão dali mesmo. O Lott não era violento, era disciplinado e tinha uma autoridade moral muito grande. Tanto que garantiu o governo do Juscelino.

Fórum – Qual é a reação dos militares cassados a essas manifestações de agora?

Moreira Lima – Nós, da Adnam, lançamos um manifesto que começa destacando que o verdadeiro regime democrático é o que estamos vivendo hoje, e não aquele dos governos militares, que não permitiam diferenças de opinião, de crença e de orientação política. A presidenta Dilma não governa para uma parcela, mas sim para todo o povo brasileiro, vitoriosa que foi nas urnas. É uma falta de bom senso desses meus companheiros. Eu estimo muito, gosto do presidente do clube da Aeronáutica e o respeito pelo que ele foi e fez dentro da instituição. Mas ele está mal informado por assinar esse documento. Raramente escrevo na revista do Clube. Só em ocasiões como as homenagens aos meus colegas da época da guerra. Se você for para a Itália, vai ver placas em homenagem aos militares brasileiros, que lá estiveram para ajudar a expulsar os nazistas.

Fórum – O senhor tem contato com os militares de hoje?

Moreira Lima – Os militares, hoje, me tratam com muita consideração. Eles me deixam dar duas aulas por ano, de quatro tempos cada uma, para os capitães que vão passar a major. E minha aula sempre é escolhida como a melhor. Vou sempre junto com um colega que cumpriu missões na guerra. Geralmente eu ia com o Ivo Gastaldoni (morto em 2008), que fez mais de cem missões de patrulha, um tipo de ação que tinha um valor muito grande, pois evitava a ação dos submarinos alemães. Estava cassado quando escrevi o livro Senta a Pua, sobre a atuação do Grupo de Caças. É um dos meus grandes orgulhos, pois foi traduzido para o inglês e lançado em outros países.

Fórum – É nele que o senhor cita a famosa carta de seu pai, o juiz Bento Moreira Lima?

Moreira Lima – Começo o livro com a carta de meu pai, que recebi em 31 de março de 1939. Eles me cassaram em 31 de março de 1964. Meu pai dizia assim: “Rui, és cadete e amanhã, mais tarde, general. Agora deve dobrar os teus esforços e estudar muito. Deves obediência a teus superiores e lealdade a teus companheiros. Seja um patriota verdadeiro e lembre que a força só deve ser empregada a serviço do Direito. O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. É este povo que deve inspirá-la nos momentos graves e decisivos. Nos momentos de loucura coletiva, deve ser prudente, não atentando contra a vida de teus concidadãos. O soldado não conspira contra as instituições às quais jurou fidelidade. Se o fizer, trai os seus companheiros e pode desgraçar a Nação. O soldado não pode ser covarde nem fanfarrão. A honra é para ele um imperativo e deve ser bem compreendida. O soldado não pode ser um delator, a não ser que isso implique salvação da pátria. Espionar os companheiros visando ao interesse próprio é infâmia. O soldado deve ser digno.”

Fórum – Por que o senhor foi cassado?

Moreira Lima – Quando fui ao inquérito, o brigadeiro me falou que eu quis levantar a base em 31 de março de 1964, na hora de passar o comando. Eu tinha a carta de meu pai desenhada em nanquim, e mostrei os trechos que citei aos pilotos do grupo de caça que eu comandava na Base Aérea de Santa Cruz. Falei que não estava incitando ninguém a desobedecer às ordens. Mas a gente cumpre quando as ordens são bem dadas, analisadas com cuidado porque era o povo brasileiro que estava metido naquilo. A primeira vez que participei de um levante foi comandado pelo Lott, para garantir a posse do Juscelino e do João Goulart, que era seu vice. Para garantir o respeito à Constituição. E se não fosse o Lott, o governo teria caído nas tentativas de golpe de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959).

Fórum – Como era a relação com esses militares golpistas na época?

Moreira Lima – O major Haroldo Veloso, que era meu colega de turma, esteve à frente das ações de Jacareacanga. Quando ele foi preso, fazia 22 dias que eu estava na Serra do Cachimbo [na divisa do Pará com o Mato Grosso], em condições horríveis, para defender o Brasil daquele ataque. E depois fui visitá-lo na prisão, antes mesmo de vir encontrar a minha mulher. Fui lá e disse: “O que houve contigo, Veloso. Está maluco? Se a gente se encontrasse em combate, ia ser um troço chato, pois alguém teria de ceder para o outro”. E ele me respondeu: “Metade da Aeronáutica não veio me visitar por vergonha de não ter cumprido o que me prometeu, e a outra metade porque não queria ter nada a ver com isso.” São histórias assim que os presidentes dos clubes nem sabem.

Fórum – E como vê as declarações do brigadeiro Carlos Almeida Baptista?

Moreira Lima – É uma pessoa que eu estimo, e agora estou constrangido por ele estar assinando essas coisas todas. E, para assinar, ele está acreditando nisso. Ele foi cria disso, nasceu com essa chamada “revolução”. Uma revolução que me prendeu. Nunca tinha sido preso por política em lugar nenhum, pois não sou político. Seis anos depois, fui preso por sargentos. Fiquei encapuzado dentro de uma masmorra em Campinho, em uma humilhação só. Não sei se iam me matar, pois fizeram isso com o Herzog, o Manuel Fiel Filho [operário assassinado em 1976] e tantos outros. Eu instruí minha família a procurar o general Sizeno Sarmento, com quem estive na guerra, e foi ele quem mandou me soltar. Eu estava em um quarto em que não podia nem me deitar. Isso é uma tortura. Ia ao banheiro acompanhado de um soldado de arma na mão. Passei isso no Exército. Fui maltratado na Marinha, na primeira prisão, quando me colocaram em um lugar infestado de ratazanas e baratas. Fiz uma greve de fome de três dias, e o presidente Castello Branco soube e mandou me tirarem de lá e me colocarem com os outros colegas presos. Mas não foi por bondade, não, tinha sido um pedido do brigadeiro Nero Moura, que havia sido meu comandante na guerra.

Fórum – E que tipo de reação do governo o senhor espera?

Moreira Lima – Esse filme eu já vi. É assim que começa. Daqui a pouco pegam aí o pessoal do “não sei quê da liberdade” e um grupo de “senhoras de não sei quê” e começam tudo de novo. Não sei, tomara que não saia mais, porque agora que as senhoras mandam também, é capaz de elas não fazerem mais um papel desses. A presidenta Dilma tem de ser firme nesta posição dela. Não é estar pondo gente na cadeia, mas é não deixar fazer. Enquanto o Lott foi Lott, não fizeram. Ela é uma mulher que tem autoridade, que tem o voto do povo que a elegeu.

Fórum – O senhor acredita que esses movimentos atentam contra a democracia?

Moreira Lima – O perigo são esses caras que não têm preparo para conviver com o povo. Eu estou preocupado. Acho que a presidenta Dilma e os comandantes das Forças Armadas devem chamar os presidentes dos clubes e dizer para eles que não ajam assim em nome dos clubes nem que ponham as fardas deles para fazer tais manifestações. Porque nós já tivemos a experiência de 1964 assim, e aquilo foi uma lástima. A Comissão da Verdade não quer prender ninguém, mas não dá para deixar passar em branco tudo o que aconteceu naquela época.

Fórum – Qual é a sua situação militar atualmente?

Moreira Lima – Em 5 de outubro de 1993, eu pedi minha promoção de acordo com a Lei da Anistia feita pelo Congresso. O recurso especial foi sobrestado por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Félix Fischer, em 14 de novembro de 2011, até a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a repercussão geral dos recursos em outros pedidos de promoção de militares que foram cassados pelo regime que se instaurou em 1964. Desde 1993, é recurso seguido de recurso, e não sai essa promoção. Recebi faz pouco uma informação que ainda não consegui confirmar, que o Supremo confirmou a minha nomeação como tenente-brigadeiro. Serei o primeiro quatro estrelas do Grupo de Caça da II Guerra Mundial.

Fórum – Por que, em plena democracia, o governo ainda recorre das sentenças que aprovaram suas promoções?

Moreira Lima – Acho que é uma perseguição. É preciso que isso seja dito na Comissão da Verdade. Um sujeito que tem um direito assegurado de uma promoção desde 1993 e só agora, que todo mundo já morreu, a decisão sai. Porque não seria só eu. Meia dúzia de colegas meus foram cassados e também chegariam a esse posto. Tinha até gente mais antiga do que eu. É uma falta de respeito, sou um sujeito que tem uma leucemia crônica. É uma doença  grave, e eu vou fazer 93 anos no próximo dia 12 de junho. E o sujeito não tem esse respeito pela velhice dos outros. É uma incoerência que a AGU (Advocacia Geral da União) tenha passado esse tempo todo procurando chifre em cabeça de cavalo.



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1 comment

  1. benedito.eugenio Responder

    mas os pequenos não tinha nada haver com o carroço ,mas morria na porta dos quarteis sem defesa nem uma ai ninguém diz nada eu vi policia com um dia de formado tirando centinela na escola de bombeiro no barro branco ser morto Doeu


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