O jogo incerto das eleições francesas

Em lenta recuperação, Sarkozy já ameaça o favoritismo socialista. Frente de esquerda e extrema-direita correm por fora, em um pleito que costuma reservar surpresas

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Em lenta recuperação, Sarkozy já ameaça o favoritismo socialista. Frente de esquerda e extrema-direita correm por fora, em um pleito que costuma reservar surpresas

Por Douglas Estevam, de Paris

As próximas eleições presidenciais francesas serão realizadas num dos cenários mais complexos da Europa nos últimos 30 anos. A crise econômica internacional coloca o projeto de União Europeia numa situação de impasse, obrigando os países-membros a se confrontarem com as exigências do complexo modelo de integração continental.

A partir da crise de 2007, a questão financeira agravou as contradições desse processo. Para assegurar as metas de equilíbrio fiscal exigidas pelas intituições da União Europeia, os países do Velho Continente estão colocando em risco grande parte das políticas públicas que configuravam o Estado de Bem-Estar social europeu.

As consequências da crise sobre a França e as formas de superá-la são temas centrais na disputa. Os programas e propostas apresentados estão condicionados por essa questão. Adotado em março desse ano, o Pacto Orçamentário Europeu obriga os paí­ses a adotarem o compromisso de reduzir seus déficits públicos a um patamar inferior a 3% do PIB, sob pena de sanções. O Partido Socialista fala de renegociação do tratado europeu, sem, no entanto, deixar de assumir as exigências de redução do déficit e a adoção de uma política de rigor fiscal. Em 2007, ano em que o atual presidente Nicolas Sarkozy foi eleito, o déficit público estava em 2,7% do PIB. Dois anos depois, chegava a 7,5%, para fechar o ano de 2011, depois de uma série de reajustes, em 5,4%. No final de janeiro, Sarkozy anunciava novas medidas para reduzir o déficit: redução dos impostos sobre trabalho e aumento do imposto sobre o consumo.

Candidato à reeleição, Sarkozy tem adotado um discurso protecionista, de defesa dos produtos europeus em detrimento das importações, como forma de incentivar a indústria europeia e ajudar a França a enfrentar a crise. Mas a disputa não se resume somente aos projetos que consigam responder às contradições do processo de integração europeia e aos limites de desenvolvimento da própria França. Um rearranjo dos campos políticos em disputa também está se processando. A construção de alianças e a questão da imigração são fatores que podem ser decisivos quanto aos resultados.

Uma complexa correlação de forças

O primeiro turno das eleições estava pre­visto para 22 de abril. Em razão do atentado contra uma escola judia em Toulouse, que resultou na morte de três crianças e um adulto (até o fechamento desta edição), cogitava-se uma suspensão das eleições.

Dez candidaturas se confrontarão oficialmente neste ano. A disputa se concentra principalmente entre o atual presidente, Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), e o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande. São as mesmas forças políticas que se confrontaram na eleição de 2007, quando Sarkozy levou vantagem sobre a candidata socialista Ségolène Royal. Pesquisas de intenção de voto apontavam, já em 2010, uma vitória do Partido Socialista nas eleições de 2012, tamanho o desgaste que o presidente francês atravessava na ocasião. A oposição sempre soube que a disputa seria difícil. Em meados de março, pela primeira vez, pesquisas realizadas pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) apontavam uma vantagem de Sarkozy no primeiro turno, com 27,5% das intenções de voto, embora o canditado socialista continuasse como favorito no segundo turno, previsto para 6 de maio, com 54% das intenções de voto.

Os dois candidatos sabem da complexidade da disputa e dos limites de suas forças políticas, nenhuma delas se configurando como uma maioria ou como um campo de referência hegemônico no país. Um dos elementos de complicação do cenário se impôs em 2002, quando pela primeira vez na história da França um partido de extrema-direita, a Frente Nacional (FN), chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, eliminando o PS da disputa. Embora enfraquecida, a FN recuperou terreno, e sua candidata atual, Marine Le Pen, chegou a figurar como a terceira força política do país, com 17,5% das intenções de voto, segundo a mesma pesquisa Ifop.  No entanto, é crescente a parcela do eleitorado que vem se interessando pela candidatura de Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, que tem feito uma das melhores campanhas até o momento. Algumas sondagens feitas antes do fechamento desta matéria davam o candidato em terceiro lugar, com 15%. Influenciam ainda na definição da disputa os 13% do eleitorado que votaria no Movimento Democratico (Modem), partido do centrista François Bayrou.

Com exceção da candidata ecologista Eva Joly, com 2,5% das intenções, as outras candidaturas tiveram pouca expressão até o momento, gravitando em torno de 0,5% das intenções de voto, como as dos candidatos de extrema-esquerda Philipe Poutou, do Novo Partido Anticapitalista (NPA), e Nathalie Arthaud, da Luta Operária, ou ainda  Nicolas Dupont-Aignan, da formação De pé, República,  e Jacques Chéminade, de Solidariedade e Progresso.

Desgate e reascensão do sarkozysmo

O mandato de Nicolas Sarkozy à frente da República francesa foi caracterizado por um crescente desgaste. Uma certa forma de ostentação da riqueza, adotada pelo presidente, foi duramente criticada. Comemorando sua vitória num dos restaurantes mais caros de Paris com empresários, milionários e influentes representantes da grande imprensa, ou exibindo de maneira excessiva bens pessoais, o estilo assumido desagradou inclusive parte de seu próprio eleitorado. Reações violentas em ocasiões públicas, como quando disse a um jornalista: “Cale a boca, pobre idiota”,  resultaram em uma antipatia ainda maior.

As medidas adotadas no seu governo tiveram uma rejeição popular sem precedentes na história recente francesa. Em 2008, apresentou um programa propondo uma reforma do Estado, com o objetivo de reduzir custos das políticas públicas. Entre 2007 e 2009, as leis Pécresse e Darkos promoveram cortes orçamentários, precarização e demissões no sistema educacional, com o anúncio de 11 mil licenciamentos no secundário. Houve dezenas de manifestações de estudantes e professores universitários, algumas com confrontações com a polícia. Mais de 40 universidades entraram em greve, e mais de uma dezena foi ocupada. As manifestações reuniram mais de 50 mil pessoas. Com o anúncio das medidas de ajuda ao setor financeiro em função da crise, houve ainda, nesse período, dezenas de greves, ocupações de fábricas, sequestros de patrões e, pela primeira vez depois de 1948, uma manifestação unitária das oito centrais sindicais francesas, que reuniu milhões de pessoas.

Em 2010, a busca do equilíbrio fiscal foi feita com a reforma de aposentadoria, aumento do tempo de trabalho e de contribuição. Diversos setores entraram em greve: a rede ferroviária, escolas, universidades, transportes públicos, refinarias de petróleo e lixeiros. Mais uma vez, diversas manifestações nacionais, algumas delas reunindo mais de 3 milhões de pessoas. Foi nesse período que veio à tona o caso Bettencout. A milionária, que financiou a campanha de Sarkozy, recebeu dos cofres públicos mais de 30 milhões de euros em 2009, em função das medidas do chamado bouclier fiscal, que limitava a cobrança de impostos dos mais ricos. No mesmo ano, aproximadamente 1.170 pessoas teriam recebido uma média de 360 mil euros dos cofres públicos, segundo infomou o jornal Le Monde. Em meio a isso, na política internacional, Sarkozy promoveu a aproximação com os EUA, levando a França a aderir à Otan e a enviar tropas ao Afeganistão, pondo fim a uma posição de autonomia há muito defendida por governos anteriores.

Foi se apoiando na crise econômica internacional que o presidente francês começou a reconstruir sua imagem, apresentando-se como o mais indicado para conduzir o país nesse período de turbulência. No segundo semestre de 2008, Sarkozy presidiu o Conselho da União Europeia, intensificando as medidas para conter as imigrações. No final de 2010, assumindo a presidencia do G20, falou em “moralizar o capitalismo”, defendendo medidas como “banir os paraísos fiscais” e ”taxar as transações financeiras”.

Crise e reorganização socialista

O favoritismo do campo socialista às eleições presidenciais de 2012 se firmou no turbulentos anos de Sarkozy, mas o PS chega ao momento decisivo se recuperando de um desgastante processo interno de reorganização. Desde que foi eliminado, ainda no primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, o Partido Socialista luta para se recompor internamente e para definir uma orientação política. Após a saída da cena política de uma de suas principais referências, Lionel Jospin, o partido entrou no que a imprensa francesa – em certos momentos superexplorando o tema – chamou de “guerra de egos”.

A reorganização tomou novo rumo em 2008, a partir do polêmico Congresso de Reims. François Hollande, até então secretário-geral do partido, foi sucedido por Martine Aubry, após uma acirrada disputa interna. A vitória da ex-ministra – que havia instituído a jornada de 35 horas semanais por 42 votos de diferença – foi duramente contestada por Ségolène Royal, que chegou a cogitar mover um processo contra Aubry. Teses de matizes diferentes, mas com forte tendência socioliberal, tiveram importante peso na disputa. Vitoriosa, Aubry foi a responsável pelo restabelecimento de um certo equilíbrio interno do partido.

Passado o congresso, o PS começou a trabalhar sobre sua candidatura presidencial. Marcado por ambiguidades, iniciou-se uma articulação interna para a apresentação de Dominique Strauss-Kahn (DSK) como candidato do PS, relegando o processo das primárias a uma mera formalidade. A proposta ganhava ainda mais força com o crescente desempenho do então presidente do FMI nas pesquisas, apontado como o  candidato mais forte numa disputa contra Sarkozy. À frente de uma das mais importantes intituições internacionas, DSK era visto como o candidato mais preparado para conduzir a política econômica no período de crise. Para setores mais críticos ao modelo neoliberal, a escolha representava uma reduzida perspectativa de reorientação da política econômica francesa. O envolvimento de  DSK em um suposto caso de estupro, envolvendo uma camareira nos EUA, o tirou de cena.

A realização das primárias cidadãs foram um sucesso de participação, com mais de 2,8 milhões de pessoas votando. François Hollande e Martine Aubry, que disputaram o segundo turno, são reconhecidos por certa proximidade numa determinada tradição partidária, marcada pela importância atribuida às reformas fiscais e à defesa da integração europeia. A função do Estado, do serviço público e a questão social são mais presentes em Aubry, considerada como mais à esquerda. Embora criticado por sua pouca experiência na administração pública, o reconhecido domínio de Hollande nos campos das finanças e economia e suas posições sobre a regulação financeira lhe garantiram a vitória.

Extrema direita francesa e a questão da imigração 

A FN vem crescendo politicamente principalmente em torno do problema da imigração. Com o país vivendo uma fase de desindustrialização, o Partido Comunista, que representava uma das principais forças políticas do país até os anos 1980, entra em uma irreversível crise e perde grande parte de sua base social. Adotando uma posição cética em relação à União Europeia, a FN faz uma crítica ao liberalismo econômico, defendendo a saída da Zona Euro, a instalação de barreiras financeiras e a nacionalização de setores estratégicos. Mas é na abordagem da questão dos imigrantes que eles atuam com mais força, defendendo o fim de toda imigração, acusada de eliminar postos dos trabalhadores franceses e engendrando custos sociais. O partido de extrema direita se tornou referência em largos setores atingidos pelo desemprego, que se mantém em torno de 10% no país. Com a deterioração das condições sociais provocada pela crise, a extrema direta na Europa como um todo, e, particularmente, na França com a FN, voltaram a crescer.

Sarkozy começou a projetar-se na vida nacional francesa como ministro do Interior em 2005, no auge das rebeliões nas periferias francesas, quando mais de 10 mil carros foram incendiados. Suas declarações exigindo a expulsão e a punição dos jovens pelos crimes cometidos contaram com 60% de aprovação da população. Em 2010, ele ensaiou novamente a mesma estratégia. Após conflitos decorrentes do assassinato de um jovem pela polícia, ele aproveitou o cenário de violência para apresentar uma série de medidas de repressão policial,  perseguição e expulsão de imigrantes. Nessa ocasião, ele adotou também uma série de medidas que visavam à eliminação de mais de 600 acampamentos de ciganos e de romenos na França, que foram reenviados aos seus países de origem.

A Frente de Esquerda 

O projeto que vem despertando maior interesse pela sua capacidade de mobilização social durante esta campanha é o representado pela Frente de Esquerda, que agrupa o Partido de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon, o Partido Comunista, o Partido Esquerda Unitária, grupos dissidentes do NPA e outras convergências e movimentos sociais. Uma das referências para a constituição da Frente foi o processo similar implementado pelo Die Linke, na Alemanha.

A Frente de Esquerda começou sua articulação em 2008. Inicialmente, era uma parceria que procurava agrupar as forças sociais como o PC, setores dissidentes do PS e movimentos sociais que se opuseram ao Tratado Constitucional Europeu, rejeitado pelos franceses no referendo de 2004. O objetivo era articular essas forças na luta contra o Tratado de Lisboa, que substituía o antigo projeto, mas que tinha um cunho tão liberal quanto o primeiro, segundo a avaliação da Frente. A junção foi se consolidando em torno das outras eleições regionais e também com as lutas sociais do período. Uma das questões mais difíceis para a formalização da Frente era a definição do candidato presidencial, pois o PC tinha interesse em apresentar seu candidato. Outra questão era que parte de sua base não acreditava na Frente como uma estratégia política, e alguns apostavam em outras alianças com outras forças. Durante o congresso realizado em 2010, às vésperas do qual mais de 200 membros deixaram o partido em bloco – entre os quais deputados, prefeitos, vereadores e militantes –, o PC consolidou a aliança com o Partido de Esquerda.

Jean-Luc Mélenchon tem se apresentado como a voz mais legítima na crítica ao atual sistema econômico, aos bancos, ao sistema financeiro, e questionando o modelo europeu liberal, defendendo políticas socias e o aumento do salário mínimo. Sua campanha tem conseguido o feito de disputar as bases que a FN vinha recuperando e parte de um eleitorado que a extrema esquerda perdeu ou que as proposições socialistas não convenceram. Num dos maiores comícios organizado pela Frente, em 18 de março, data simbólica do início da Comuna de Paris, Mélenchon defendeu, na histórica Praça da Bastilha, diante de aproximadamente 100 mil pessoas, seu programa político intitulado “Primeiro, o Humano”.

Indefinições

No campo da esquerda, François Hollande tem criticado as medidas de austeridade, proposto taxações de grandes fortunas, a proibição dos produtos financeiros derivados e o “enquadramento” dos bancos, no que ele tem chamado de um “ajuste realista”. Nicolas Sarkozy também intensificou seu discurso na disputa, tentando buscar votos principalmente no eleitorado popular, com seu discurso de protecionismo, defesa do produto europeu, revisão da competição e um forte ataque aos imigrantes, tudo contribuindo para criar “A França Forte”, segundo o slogan de sua campanha. Após a série de ataques ocorrida em Toulose, a candidata Marine Le Pen elevou o tom de suas críticas, chegando a propor um referendo sobre a pena de morte.

Nada está definido. As campanhas publicitárias e os debates na TV ainda não começaram. As últimas eleições na França sempre mostraram surpresas em relação ao que mostravam as pesquisas. Até o momento, a maior parte delas aponta o candidato socialista como vencedor. Uma das últimas sondagens realizadas pelo Ipsos-Logica Business Consulting para o Le Monde indicava a liderança de Hollande no primeiro e no segundo turno, mas 40% dos eleitores ainda não tinham se decidido. No segundo turno, 84% do eleitorado de Mélenchon e 41% de François Bayrou votariam em Hollande, enquanto apenas 43% de Marine Le Pen votariam em Sarkozy. As urnas dirão qual caminho a França seguirá.



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