“O livro é uma grande confissão”

Um dos autores de Memórias de uma Guerra Suja, Rogério Medeiros defende que o depoimento do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra seja levado a sério: “ Existem muitos ‘Cláudios’ por aí”

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Um dos autores de Memórias de uma Guerra Suja, Rogério Medeiros defende que o depoimento do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra seja levado a sério: “ Existem muitos ‘Cláudios’ por aí”

Por Pedro Venceslau

Na virada de abril para maio, quando finalmente começaram a ventilar os nomes que poderiam compor a Comissão da Verdade, pipocaram na imprensa trechos de um livro baseado no depoimento de um ex-delegado do Dops chamado Cláudio Guerra. Em Memórias de uma guerra suja, da editora Topbooks, ele revela que teria matado e incinerado corpos de presos políticos, além de afirmar que o temido delegado Sérgio Fleury teria sido assassinado pelos próprios militares.

As histórias, compiladas e transformadas em livro pelos jornalistas Marcelo Neto e Rogério Medeiros, causaram reações diferentes na mídia e entre ex-militantes da luta armada. A primeira pergunta foi: Por que só agora, depois de tantos anos, o ex- delegado resolveu falar? Na imprensa comercial, o personagem foi logo desautorizado como fonte devido a sua ficha corrida: cumpriu dez anos de prisão pela morte de um bicheiro e, hoje, está em regime semiaberto. Ele não consta das listas de torturadores do regime militar, só se tornou um nome conhecido graças à divulgação do livro. Em entrevista à Fórum, Rogério Medeiros rebate as críticas ao personagem.

Fórum – Por que só agora o ex-delegado Cláudio Guerra resolveu contar suas histórias?

Rogério Medeiros – Cláudio estava preso e, hoje, está em liberdade condicional. Além disso, houve toda uma condição que foi criada para ele falar. Ele virou religioso, “cresceu” na bíblia e tomou direção.

Fórum – Trata-se de um personagem controverso…

Medeiros – O livro nunca o tratou como santo, mas como alguém que passou 40 anos matando. Tivemos muita cautela e contextualizamos tudo o que foi dito. Começamos a conversar com ele em 2009, e só terminamos recentemente.

Fórum – Foi coincidência o livro ser lançado no momento em que o governo está em vias de instalar a Comissão da Verdade?

Medeiros – Nós pensamos que isso seria estratégico e atrairia outras pessoas como ele a também falarem.

Fórum – Como vocês descobriram o personagem e se aproximaram dele?

Medeiros – Eu trabalhava como correspondente do Jornal do Brasil no Espírito Santo, quando ele era um homem poderoso no estado. O governador Max de Freitas Mauro (que governou o estado entre 1987 e 1991) acatou uma solicitação da Secretaria de Segurança e federalizou a investigação sobre os crimes do Cláudio. A Polícia Federal abriu um inquérito e atribuiu a ele o comando do crime organizado. Eu fiz a denúncia no jornal, e ele perdeu o cargo que tinha na delegacia especial. Passou de herói a bandido. Em 2009, ele me procurou. Estava doente e muito magro. Tinha gota, diabetes e problema no coração. No começo, estranhei. Foi uma conversa longa e feita em várias fases.

Fórum – Pelos relatos do livro, Cláudio era um assassino implacável…

Medeiros – No começo da carreira, quando trabalhava no Judiciário de Minas Gerais, matou 40 lideranças do movimento camponês no interior do estado.

Fórum – Ele não teve medo de sofrer retaliações?

Medeiros – Tinha medo de ser assassinado pelos militares. Cláudio acha que a comunidade de informação deles acabou, mas ainda existem resquícios dela. Ele acredita que os militares ainda se reúnem e conversam. Nós o convencemos que, se o livro fosse publicado, os militares não teriam mais motivo para executá-lo.

Fórum – Por que o nome dele não está na lista dos torturadores e é desconhecido entre militantes de esquerda da época?

Medeiros – Cláudio Guerra nunca foi conhecido por seu nome verdadeiro. Ele usava dois codinomes: doutor Reinaldo e Stanislaw Meireles. Era com esse segundo nome que recebia pelos serviços em uma conta do Banco Mercantil no Rio de Janeiro. Ele não era e não é o único. Existem muitos “Cláudios” por aí. Os militares usavam um esquema de rodízio para matar. Ninguém matava em seu estado de origem. Em todos os quartéis das capitais, havia um comitê oficial que comandava as ações locais e era formado pelo chefe de polícia, procurador e etc. Os matadores ficavam fora disso.

Fórum – Cláudio é acusado até de roubar dízimos da igreja…

Medeiros – Tenho convicção de que ele é um assassino e não estou aqui para defendê-lo, mas isso é mentira. Existe um inquérito sobre esse caso, que sequer faz referência ao nome dele. No jornal O Globo disseram que ele mexe com droga. Querem inviabilizar o personagem em vez de discutir os fatos. No caso Fleury (delegado torturador que, segundo Cláudio, teria sido assassinado pelos militares), o Percival de Souza disse que não foi feito o exame cadavérico porque a família não quis. Pode a família não querer? O Cláudio era um matador, mas o Fleury era o quê? Não entendo por que a imprensa resolveu ir para cima dele. Talvez seja por causa do atentado na casa do Roberto Marinho.

Fórum – Que atentado?

Medeiros – O Roberto Marinho estava sendo pressionado pela esquerda, e os militares temiam que ele retrocedesse em suas posições. Então, o Cláudio fez um atentado simulado. A Globo não perdoa isso.

Fórum – Por que os militares matariam o Fleury?

Medeiros – Porque, segundo o Guerra, ele estaria achacando e não aceitava mais comandos. Fazia o que queria.

Fórum – Trata-se de uma fonte absolutamente confiável?

Medeiros – No caso do Fleury, chequei o processo do Ministério Público em Ilhabela. No caso da incineração dos corpos, ele tem testemunhas e está esperando a Comissão da Verdade para falar tudo e contar em minúcias. Além disso, o livro é uma grande confissão. Em vários momentos durante os depoimentos, ele disse “meu advogado me disse que, se eu falar isso, posso entrar em cana”.

Fórum – E o que vocês diziam?

Medeiros – Que era tudo ou nada. F



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