Os saltimbancos modernos do Brasil

A trajetória da Cia. Carroça de Mamulengos, uma família brasileira feita para o mundo que reinventa, preserva e devolve ao nosso País o que lhe é mais real e autêntico

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A trajetória da Cia. Carroça de Mamulengos, uma família brasileira feita para o mundo que reinventa, preserva e devolve ao nosso País o que lhe é mais real e autêntico

Por Julinho Bittencourt

Toda família tem seu álbum de fotografias, suas memórias, seus Natais, aniversários, suas alegrias e perdas, domingos de sol, segundas de chuva. Com a família Gomide, que forma a Cia. Carroça de Mamulengos, não é diferente. Suas recordações, no entanto, se confundem com seus espetáculos, que viajam e alegram o Brasil há 35 anos. As fotos que guardam vêm de um mundo de sonho. Trazem os meninos e os pais cercados de pequenas multidões pelas ruas do Brasil, com expressões indescritivelmente livres, invariavelmente paramentados de seus ricos personagens – as boneconas Miota e Mariama, a burrinha Fumacinha, os jaraguás Rosa e Florinda, o tamanduá Maleta, o carneirinho Belém, as pernas de pau, o palhaço Alegria e os bonecos manipuláveis –, os mamulengos. Memórias encantadas que, de tão íntimas, têm sido divididas com plateias de todas as partes. Uma família brasileira feita para o mundo que reinventa, preserva e devolve ao nosso país o que lhe é mais real e autêntico e que tem sido devastado ao longo dos anos: a sua cultura ancestral, as suas manifestações mais populares, seus mitos e cantigas, suas danças e folguedos, brinquedos e trovas. Sem meias palavras, a sua própria identidade.

Todo o arquivo disponível da Cia. Carroça de Mamulengos desde a sua formação, em 1978, em Brasília, até agora, nos dá a dimensão do visionário projeto inicial do casal Shirley França e Carlos Gomide. Hoje, Shirley segue na estrada com todos os filhos, exceto Antônio, que vive com o pai no Cariri, de onde dão suporte à trupe enquanto se apresentam com outra companhia, que todos consideram a mesma, como uma artéria que se desprende para oxigenar o mesmo coração. Artistas mambembes, talentosos e apaixonados pelas tradições populares brasileiras, partiram para a estrada, na medida em que foram tendo os filhos Maria, Antônio, Francisco, João, Pedro, Matheus, Luzia e Isabel. Segundo contam, os meninos foram educados pelo caminho, alfabetizados pelos pais, aprendizes de cada lugar e povo que encontravam pela frente. Carlos sempre diz que “os meus filhos não têm diploma, mas têm um ofício”. Hoje, 27 anos depois do nascimento da primogênita Maria, todos os meninos ainda estão juntos na Cia., e nunca pensaram, em momento algum, tomar outro rumo. Segundo conta a própria Maria, ela passou seus primeiros anos de vida sem pensar no assunto e, quando parou para refletir, a única conclusão a que conseguiu chegar foi: “A vida não me deu escolha, mas que bom que a vida não me deu escolha! Eu costumo brincar com meus irmãos que quem nasce nesta família já nasce empregado”, completa sorrindo.

Hoje, Maria é uma espécie de mestre de cerimônias dos espetáculos do grupo. Nos primeiros anos, ainda muito menina, já andava de perna de pau, dançava, cantava. “Desde muito cedo, nós aprendemos a assumir o protagonismo do espetáculo, dentro das nossas possibilidades. A dramaturgia dada a cada um de nós, artistas da família, sempre fez parte do nosso universo. E isso, é claro, vem mudando”, ressalta Maria. Os meninos Francisco e João, com o passar do tempo, aprenderam instrumentos, falas, danças e tantas outras brincadeiras que foram se incorporando aos espetáculos. O mesmo processo ocorre, incessantemente, com os mais novos Pedro, Mateus, Isabel e Luzia. Uma terceira geração começa a aparecer também. Francisco, com apenas 22 anos, acaba de se tornar pai de Iara, que já fez a sua primeira aparição num espetáculo da trupe.

A música

A aptidão musical do grupo também evoluiu muito. A música, que servia aos espetáculos, ocupa lugar de cada vez mais destaque. A discografia da Cia. conta com o álbum Alumiação, lançado em 1996, hoje uma raridade, que chegou a ter 16 mil cópias em várias tiragens, uma façanha para um disco independente. Além dele, participaram também, em 2005, do projeto “União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus” e gravaram, em 2010, Afilhados do Padrinho, todo dedicado a ritmos nordestinos. O projeto que neste momento está no forno é a gravação de dois CDs de uma vez, por meio do sistema de financiamento coletivo. Os amigos, admiradores e entusiastas em geral podem entrar no site do grupo (www.carrocademamulengos.com.br) e doar valores que vão de R$ 40 a R$ 5 mil e receberão em troca, assim que concluído o trabalho, CDs, posters, participações em espetáculos e oficinas, arte em aquarela da pintora Rebeca Queiroz e até mesmo um show particular. As aquarelas são um caso à parte: corroboram com a beleza do trabalho do grupo e também podem ser vistas no site.

Dos dois CDs, um é totalmente dedicado às novas vozes do grupo, os irmãos caçulas, e vai se chamar Passarinhos. Trata-se da última oportunidade de registrar as vozes ainda em desenvolvimento. O outro, feito pelos adultos, será o Canto Fortuito. Os dois discos contam com 22 canções que fazem parte do trabalho da Cia., muitas delas do pai Carlos Gomide, e outras, dos compositores Beto Lemos, Paulo Tovar e Luiz Fidelis. São cantigas inventivas, repletas de ironia, brincadeiras e felicidade. Músicas que reforçam o imaginário com que trabalham desde sempre e que nos dão uma ampla dimensão tanto do grupo quanto das ricas variações sonoras do Brasil. Construídas de forma lúdica, as letras têm sempre a intenção arte-educadora, traço que, na verdade, se confunde com todo o trabalho do grupo. Variações das folias de reis e encontros de bandeiras de Minas; adaptações da canção do palhaço ladrão de mulher, abertura secular de todos os cirquinhos do interior do País; canções para os personagens, enfim, uma riqueza cultural imensa e comovente, lindamente interpretada pela família. Um dos pontos altos entre os números musicais é a hilária canção “McDonald”: “McDonald não tem pamonha/ McDonald não tem curau/ McDonald não tem cuscuz/ Credo em cruz, Credo em cruz…/ E tem tem tem/ E se plantando tudo dá/ McDonald indo embora/ Leva junto a coca cola/ E vivam as nossas cajuínas.”

Felinda

A Cia. Carroça de Mamulengos estreou, em 2010, o espetáculo Felinda, que acaba de cumprir temporada vitoriosa no Espaço Cultural Eletrobras Furnas, no Rio de Janeiro. É o primeiro escrito e dirigido pelos filhos com o apoio dos pais, uma espécie de passagem de bastão. Felinda traz “a história de uma mulher nem feia, nem linda, que foge para seguir com o circo. No entanto, não é artista e não consegue entrar para a trupe. Sozinha, desorienta-se: esquece seu nome e de onde vem. Mas o circo habita sua memória e, neste circo de sonhos, ela encontra morada e um caminho que lhe dá sentido”. E é da memória de Felinda que saltam os elementos que formatam o espetáculo: uma charanga de palhaços, uma bailarina tímida, uma banda desastrada, bonecos reais e seres imaginários.

O próximo passo do grupo é levar Felinda ao sertão do Cariri, em 22 cidades da região da Chapada do Araripe. A viagem é uma contrapartida ao patrocínio de Manutenção de Companhias da Petrobrás. Além de Felinda, o grupo vai fazer oficinas de perna de pau e também apresentações do filme O Palhaço, de Selton Mello, em parceria com o Cine Arte Sarau.  Outra das várias surpresas é que, dessa vez, uma equipe de filmagem vai acompanhar a trupe, fazendo registros diários das atividades, que depois serão postadas tanto no site da Cia. quanto nas redes sociais (http://www.facebook.com/CarrocaDeMamulengos e @CiaCarroca). “Em 2010, estivemos lá no Cariri e fizemos espetáculos em praças para 600 pessoas em cidades de 2 mil habitantes. Nosso objetivo é pescar as pessoas para o teatro nas ruas, sair do espetáculo e abraçar o público, saber da vida das pessoas. A arte é a vida, como a gente vive”, exulta Maria.

Um sonho brasileiro

A despeito de parecer anacrônico para alguns, o trabalho da Cia. Carroça de Mamulengos está mesmo assumidamente deslocado da nossa sociedade contemporânea. Conforme diz a própria Maria, eles vêm de outro tempo. São saltimbancos modernos, apaixonados pelo estradar, desembarcados diretamente da Idade Média a evocar um mundo que seguimos destruindo. Ao propor respostas simples e honestas, nos encantam com uma premissa que, de tão óbvia e urgente, alguém se esqueceu de repetir. E eles nos lembram: “Um povo sem cultura é como um dia sem Sol, uma noite sem Lua, um corpo sem alma. E é por isso que a Cia. Carroça de Mamulengos segue cantando, dia e noite, noite e dia.”

Maria não sabe como vai ser daqui para a frente, como serão as próximas noites e dias, na medida em que ela e os meninos constroem as próprias vidas, as próprias famílias. “Vai ser outra coisa, mas com certeza decorrente desta grande coisa que é a Carroça de Mamulengos. Uma árvore frondosa que hoje, por todo o Brasil, vai dando seus galhos e frutos através de inúmeros amigos”, encerra emocionada.



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