Siba e Lirinha

Lira e Avante são discos solos dos ex-voclistas do Cordel do Fogo Encantado e Mestre Ambrósio

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Lira e Avante são discos solos dos ex-voclistas do Cordel do Fogo Encantado e Mestre Ambrósio

Por Julinho Bittencourt

Siba, cantor, compositor, multi-instrumentista e ex-líder dos grupos Mestre Ambrósio e Fuloresta, dá uma guinada na carreira e lança Avante, um disco em que o instrumento base é a guitarra elétrica. Até então, Siba, exímio rabequeiro, enfeitava seus cocos, emboladas, toadas e afins com violas nordestinas e que tais.

No final das contas, a sonoridade encontrada pelo autor, com a ajuda do produtor Catatau, da banda Cidadão Instigado, não se distancia tanto do que ele sempre fez, ou seja, a boa canção popular com grande influência da música nordestina. O seu jeito de compor e, principalmente, tocar guitarra caminham na mesma direção de sempre, e as boas alterações ficam restritas à escolha dos timbres.

As composições continuam baseadas nas estruturas em que o autor se dá tão bem. Seus martelos, cantigas e maracatus continuam intactos por trás da base típica do rock – guitarra, baixo e bateria. A medida talvez faça com que Siba aproxime a sua música da garotada, o que por si já é um grande mérito.

 

Mas, como sempre, tem mais, muito mais neste Avante. Siba é, acima de tudo, um excelente compositor. Um bom humor refinado, aliado às melodias rápidas, aparentemente simples, mas extremamente engenhosas, joga a sua música de forma rápida e rasante do ancestral ao moderno.

A melhor tradução do que pretendia – e de onde chegou – com Avante vem dele mesmo, através de um mapa imaginário que teria “pistas confusas embaralhando Hendrix, Lemmy, Ivanildo Vila Nova e Manoel Chudu, Zé Galdino, Barachinha, o Sundiata do Mali, Franco, o Congo, Poemas Suspensos, canções de repentistas na voz de Antônio Alves, ‘Voltando a Minha Terra’ de Severino Feitosa, Super Rail Band, Thelonious Monk, Robab Afegão, ‘Star Number One’ de Dakar, Biu Roque, Bembeya Jazz National, Jimmy Page, Os Solitários de Nazaré da Mata, Michele Melo cantando ‘essa noite eu vou ser toda sua…’, O Incandescente de Serres, a viagem de Ulisses, Cancão, rock Touareg, Jack White, Kasai All Stars, Ryad Al Sumbati, Cream, Menelik Wesnatcheu, meu pai assobiando de manhã cedo”, indica o autor.

Não bastasse a profusão de ideias e conceitos, o artista segue seu confessionário se curvando aos cenários onde buscou as influências definitivas: “Avante tem um pouco de Rio de Janeiro, Dakar, Recife, Nazaré, São Paulo, Curitiba, Praia dos Carneiros, Teresópolis, Campina Grande, além de sombras de lugares que nunca fui: Kinshasa, as montanhas do Hindu Kush…”, define.

Depois de tudo, e ainda com muitas coisas a buscar, o avanço do artista só deixa mais claro o que os que o acompanham já sabiam desde sempre. Siba é um dos jovens talentos mais importantes deste Brasil, que não para de ter prazer em se descobrir. Uma consequência e causa direta desses nossos bons novos ventos, em que os movimentos se dão de forma descentralizada e profusa.

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Por sua vez, quem espera algo minimamente próximo da banda Cordel do Fogo Encantado no disco de estreia de Lirinha vai quebrar a cara. O cantor e ex-líder do lendário grupo pernambucano, de Arcoverde e Recife, partiu pra outra mesmo. Ele acaba de lançar Lira, seu primeiro disco solo, que, assim como todos os do Cordel, é também totalmente independente e também completamente descompromissado com o mercado fonográfico, mas bem diferente de tudo o que já fez.

Curiosamente, assim como Siba, Lirinha também lança mão de ritmos e instrumentos mais afeitos à música pop. E, mais curiosamente ainda, apesar da guitarra elétrica e da parceria com músicos roqueiros, assim como o companheiro também pernambucano, a música não ficou nem um pouco mais fácil, muito pelo contrário. Lira explode em poesia, inovações sonoras, efeitos de estúdio, ótimas composições e nenhum truque ou facilidade estética.

Outro paradoxo (que também é comum a Siba) está na leveza sonora do disco. Apesar das guitarras, baterias e instrumentos eletrônicos, Lira é muito mais delicado e suave que tudo o que o artista fez até agora. O que não quer dizer que não seja repleto de energia.

Enfim, Lirinha surpreende de fio a pavio com este seu primeiro solo. Com produção de Pupillo, baterista da Nação Zumbi, Lira é um segundo momento do artista que traz flertes com o Mangue Beat, a Jovem Guarda e até a música popular brasileira. Além do próprio produtor na bateria, o grupo básico do disco conta ainda com Neilton José de Carvalho, guitarrista da banda punk hardcore Devotos e Bactéria, baixista, guitarrista e tecladista da primeira formação do grupo Mundo Livre S/A.

Além da banda básica, o disco conta ainda com as participações de Lula Côrtes, lendário cantor e compositor, parceiro de Zé Ramalho no disco Paêbiru. Lula faleceu pouco depois de deixar o seu registro neste disco. Além dele, estão no disco a cantora, compositora e pianista Angela Ro Ro, o cantor, compositor e percussionista Otto, também da primeira formação do Mundo Livre S/A, Fernando Catatau, guitarrista e produtor, líder da banda Cidadão Instigado e Francisco Amâncio da Silva, o Maestro Forró, fundador e regente da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH).

Dentre todas as coragens de Lirinha, nesse seu primeiro lançamento solo, uma delas é fundamental. O cantor, compositor e poeta se arvora por outras formas e por outros meios, dentro de um conjunto inesperado. Suas novas canções são distintas, fotográficas, encantadas. Muitas vezes parecem pequenas cenas de um romance híbrido, com laivos de Ariano Suassuna e Lewis Carroll. São cheias de luz e cor, sentimentos entrecortados, ancestralidade e modernidade.

Enfim, parece que a maturidade artística chega a Lirinha dentro de um universo próprio, mas repleto de outros.



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