Viver tem que ser chato!

Ler os jornais, hoje em dia, me faz lembrar do Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País – retratado nas crônicas de Stanislaw Ponte Preta, numa época em que o autoritarismo e a imbecilidade reinantes eram basicamente atribuídos à ditadura militar

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Ler os jornais, hoje em dia, me faz lembrar do Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País – retratado nas crônicas de Stanislaw Ponte Preta, numa época em que o autoritarismo e a imbecilidade reinantes eram basicamente atribuídos à ditadura militar

Por Mouzar Benedito

Agora temos aí os Poderes Legislativo e Judiciário funcionando plenamente – embora pessimamente –, mas o Febeapá de hoje não perde em nada para o dos tempos da ditadura.
Uma das coisas é o intervencionismo do Estado em coisas que ele não tem nada que se meter na vida da gente. Temos um Estado que nos trata como incapazes de saber o que podemos e o que não podemos fazer. E nos impõe comportamentos imbecis que certas minorias gostam.
O Estado laico tornou-se uma mentira. E pior: os princípios que querem impor a todo mundo não são da igreja majoritária. Religiões minoritárias impõem suas regras a todo mundo. Um exemplo que já cansei de citar: em Sorocaba, dois vereadores evangélicos “obrigaram” o prefeito a não referendar o projeto de lei, aprovado na Câmara, que oficializava 31 de outubro como Dia do Saci, ameaçando pular para a oposição. Para eles, mitologia é coisa do diabo. Dois vereadores impuseram sua vontade a uma grande maioria.
Outro exemplo: no litoral norte de São Paulo, não me lembro onde, certa vez um prefeito mandou tirar a estátua de Iemanjá de uma praia, para conseguir o apoio de um vereador que via nela a representação de um culto satânico. Sorte que o povo viu e impediu. Fez o que todos deviam fazer: obrigar os cretinos a respeitar as religiões alheias.
Enfim, o que vemos no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais é isso: a minoria mandando na maioria.
E presidentes, governadores e prefeitos aceitam essa dominação, com medo de perder dez por cento dos votos dos congressistas, que é mais ou menos a proporção desses religiosos. Os outros 90 por cento que se danem! Ora, acho que nesse caso vale um ultimato da maioria, aos presidentes, governadores e prefeitos: se acatarem essa minoria, nós todos ficamos contra você.
Pior é que os religiosos (nisso se incluem muitos católicos também) encaram certas coisas como se eles fossem vítimas. No caso da lei do aborto, tratam do assunto como se todas as mulheres que engravidassem fossem obrigadas a abortar. Ora… Sua religião é contra? Então não pratique isso. Ninguém é obrigado.
Ah! no Febeapá tem os “não pode”: “não pode isso”, “não pode aquilo”. Pior é que os “não pode” se espalham. Um estado copia o outro, proibindo coisas que são questões individuais, ou práticas sociais, nunca questões de Estado. Agora cheguei ao “não pode” que me levou a escrever esta crônica. O deputado estadual Campos Machado, do PTB de São Paulo, fez um projeto de lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em ambientes públicos. Isso inclui calçadas, praias, festa e feiras. Pior: essa aberração já foi aprovada nas comissões que decidem sobre a constitucionalidade e outras coisas. Falta ir a plenário e, se aprovado, vai ao governador para ser referendado.
Certamente, a bancada evangélica vai aplaudir e aprovar esse projeto, pois ela é a favor de tudo que é proibição de coisas prazerosas. Beber cerveja em mesas na calçada? Jesus deve estar olhando lá de cima e amaldiçoando. Nas praias, nas feiras, nas festas…
Como será que são as festas do ilustre deputado? Devem ser piores que velórios, pois neles sempre rola uma bebida. Imagino que ele goste é que fique todo mundo gritando “Aleluia, Senhor!”, e orando.
Mas, chegando ao governador, ele vai vetar essa babaquice? Ah, o apoio dessa turma… Acho que vai gritar junto: “Aleluia, Senhor!”. E a vida em São Paulo vai ficando cada vez mais besta. Padrão talibã.
Previno: não adianta mudar daqui. Outros estados copiarão ou o próprio governo federal ”federaliza” o “não pode”, talvez até radicalizando um pouco, para o mal de todos e infelicidade geral da Nação.

 



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