Muçulmanos não creem em discurso democrático dos Estados Unidos

Apesar do discurso dos EUA, a maioria dos habitantes de seis países predominantemente islâmicos vê Washington como um obstáculo em sua liberação dos regimes autocráticos

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Apesar do discurso dos EUA, a maioria dos habitantes de seis países predominantemente islâmicos vê Washington como um obstáculo em sua liberação dos regimes autocráticos

Por Jim Lobe, da IPS, publicado em Envolverde

Apesar do discurso dos Estados Unidos de que promovem a democracia no mundo árabe e muçulmano, a maioria dos habitantes de seis países predominantemente islâmicos vê Washington como um obstáculo em sua liberação dos regimes autocráticos. Na verdade, nessas nações, a Arábia Saudita é vista, em geral, como um melhor defensor da democracia do que os norte-americanos, segundo uma pesquisa do Pew Global Attitudes Project.

A pesquisa, feita no Egito, Líbano, Paquistão, Tunísia, Jordânia e Turquia, também descobriu que nesses países não existe apenas um desejo de contar com governos eleitos democraticamente, mas também de contar com eleições livres, liberdade de culto, de expressão e direitos iguais para as mulheres.

Para egípcios, caminho para a democracia não passa pelos Estados Unidos (Foto de http://www.flickr.com/photos/akrockefeller/)

Por outro lado, a maioria dos entrevistados no Paquistão (82%), Jordânia (72%) e Egito (60%) disseram acreditar que as leis de seus países “deveriam seguir rigidamente os ensinamentos do Alcorão”, o livro sagrado muçulmano. Na Tunísia e na Turquia, por outro lado, a maioria dos consultados disse que as leis deveriam, ao menos, “seguir os valores e princípios do Islã”, enquanto no Líbano, o país com maior porcentagem de cristãos entre os seis estudados, 42% dos entrevistados afirmaram que as normas “não deveriam ser influenciadas pelo Alcorão”.

A pesquisa, realizada entre meados de março e meados de abril, faz parte da série anual que o Pew realiza há 12 anos. Divulgada no dia 10, foi feita antes de importantes acontecimentos no mundo árabe, como as eleições no Egito e na Líbia, o agravamento da crise na Síria e suas tensões com a Turquia e o Líbano, bem como os novos enfrentamentos sectários no Bahrein e o último acordo entre Paquistão e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para reabrir as rotas de fornecimento ao Afeganistão. Tudo isto poderia ter uma importante influência na opinião pública atual dos países estudados.

Quanto às aspirações democráticas, a pesquisa detectou poucas mudanças nas respostas em relação à realizada no ano passado. Há um maior otimismo no Líbano, Turquia e Egito. Ainda que a governança democrática continue sendo uma importante aspiração, a maioria dos entrevistados na Jordânia, Tunísia e Paquistão disseram que preferiam ter uma “forte economia” do que uma “boa democracia”. Os egípcios se mostraram divididos sobre o tema, enquanto os turcos e os libaneses preferiam a democracia ao crescimento econômico.

À pergunta sobre preferir um sistema democrático ou um “líder forte” no governo, a maioria no Líbano (80%), Turquia (68%), Egito e Tunísia (61%) optaram pela primeira opção, como fizeram 49% dos entrevistados na Jordânia. Por outro lado, 61% dos paquistaneses disseram preferir ter um “líder forte” governando seu país.

Em comparação com a pesquisa realizada em 2001, desta vez mais pessoas no Egito – onde a Irmandade Muçulmana ganhou as eleições parlamentares e presidenciais de maio e junho –, Paquistão e Líbano disseram que o Islã tem um “importante papel” na vida pública. Dois terços dos egípcios disseram que a religião muçulmana tem importante papel, contra 47% no passado. No Paquistão, os que responderam desta forma passaram de 16% para 62% este ano. Na Tunísia, onde o islâmico Partido Ennahda arrasou nas últimas eleições, 84% dos consultados coincidiram quanto ao vital papel do Islã. Pela primeira vez, o Pew incluiu este país em seu estudo.

Sólidas maiorias nos quatro países árabes estudados, especialmente no Egito (76%) e na Tunísia (69%), expressaram confiança quanto aos levantes populares do ano passado trazerem mais democracia à região. Porém, nas nações não árabes houve outros resultados: apenas 34% dos turcos e 21% dos paquistaneses são otimistas a respeito. Consultados sobre os elementos mais importantes em uma democracia, os libaneses e os turcos mostraram maior apreço por eleições livres, liberdade de culto, de expressão, de imprensa, e por direitos iguais pelas mulheres. Os paquistaneses e os jordanianos evidenciaram menor interesse na maioria destas categorias.

E, embora maiorias entre 58%, no Egito, e 93%, no Líbano, tenham coincidido que as mulheres devem ter direitos iguais aos dos homens, a pesquisa descobriu substanciais brechas de gênero em todos os países, menos na Turquia. A brecha foi mais acentuada na Jordânia, onde 82% das mulheres disseram acreditar na igualdade de gênero, enquanto apenas 44% dos homens afirmaram isso. A brecha se torna mais visível nas perguntas mais específicas. Maiorias nos seis países (de até 86%, na Tunísia) exceto Líbano (50%) disseram que os homens deveriam ter prioridade sobre os postos de trabalho quando o desemprego é elevado.

Talvez, a descoberta mais significativa da pesquisa seja a ideia predominante de que a Arábia Saudita, país acusado por dissidentes de todo Oriente Médio de liderar uma resposta contra a Primavera Árabe, promove mais a democracia na região do que os Estados Unidos. Dois terços dos egípcios consultados disseram que Riad favorece a democracia, e 64% dos jordanianos afirmaram o mesmo, bem como 52% dos paquistaneses. Os libaneses se mostraram divididos a respeito, enquanto a maioria dos entrevistados na Turquia e na Tunísia não veem a Arábia Saudita como um verdadeiro defensor da democracia. Envolverde/IPS

* O blog de Jim Lobe sobre política externa pode ser lido em www.lobelog.com.



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