Romance resgata história do movimento sindical do ABC

Tecendo o Amanhã, de Moacyr Pinto, é inspirado em acontecimentos reais, vividos pelo autor

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Tecendo o Amanhã, de Moacyr Pinto, é inspirado em acontecimentos reais, vividos pelo autor  

Por Felipe Rousselet

Lançado em São Bernardo do Campo, nesta sexta-feira, 13, o livro Tecendo o Amanhã, de autoria do ex-metalúrgico, sociólogo, educador, militante político e ex-secretário da Educação de São José dos Campos, Moacyr Pinto, conta a história de um grupo de famílias de trabalhadores do ABC, militantes da Teologia da Libertação e fundadores do PT e da CUT.

A obra é um romance de ficção, inspirado em acontecimentos reais, vivenciados de perto pelo autor. O livro não se propõe a contar histórias de indivíduos ou grupos específicos, e sim de tipos ideais que atuaram no movimento sindical do ABC.

Moacyr Pinto afirma que o seu grande objetivo com a obra é mostrar o Brasil de verdade para os brasileiros e consolidar a cultura operária, além de suprir a carência de heróis do país. “O herói brasileiro dos tempos modernos é um herói coletivo. São essas pessoas que construíram este processo, tanto na adaptação quanto na capacidade de participar de um processo de superação de uma ditadura, de passar por um período de grande desemprego, de criar essa consciência coletiva. Essa é a contribuição que eu quero dar, e esses são os heróis que eu quero projetar”, conta. Fórum conversou com Moacyr Pinto sobre a sua primeira obra de ficção.

Fórum – Como foi o processo de transpor uma realidade que você vivenciou para um romance de ficção?

Moacyr Pinto – Sou escriba antigo, mas escriba profissional, como sociólogo, professor etc… Depois que me aposentei, comecei a fazer literatura, vamos dizer assim. Então, estava fazendo algumas resenhas históricas e fiz um livro chamado Conto de Vista: histórias no Brasil que elegeu Lula, contando esta história recente a partir da minha experiência e histórias reais. Nesta época me ocorreu que a literatura é o grande recurso para você consolidar uma cultura e neste sentido acho muito importante para o povo brasileiro consolidar esta cultura operária, essa cultura rural-urbana que veio para vá (São Paulo) e se superou não só na questão da sobrevivência e adaptação, mas também no sentido de ter se tornado agente politico e de transformação.

Nos meus progressos na literatura, chegou uma hora em que percebi que o momento não era mais de contar a história de uma pessoa, mas de fazer uma ficção para mostrar idealmente o conjunto de personagens que fez a nossa história. Tem aquele peão simples da fábrica que virou sindicalista, aquela mulher simples que lutava na periferia andando a pé com as crianças, e de repente virou uma militante comunitária, cresceu, e depois virou agente política de prestígio. Como tenho muito conhecimento de causa dessa história, e inclusive a vivenciei aqui no ABC e em outras regiões, como Sorocaba e São José dos Campos, como agente de formação da CUT,  usei esta experiência.

Fórum – E porque ambientar no ABC?

Moacyr Pinto – O sindicalismo forte e marcante foi no ABC. Aqui teve a presença da  igreja progressista, da Teologia da Libertação, e aqui também vivenciei o momento em que o Lula era o cabeça do sindicato, eu era presidente da Associação dos Sociólogos do ABC.  Era sociólogo, professor e militante no Jardim Estela. Então, já tinha todos os ingredientes para o livro, mas não conto a história de fulano, eu idealizo, criei tipos ideais. Nesse meio, tinha aquele peão de fábrica, que era aquele cara batalhador, muito companheiro, e este é um tipo ideal está representado no livro. Foi um grande desafio para mim por ser a primeira ficção.

Fórum – Você acha que uma história de ficção pode atrair novos leitores para o tema? Aqueles que não necessariamente já possuam uma identificação com o movimento sindical ou com a esquerda?

Moacyr Pinto – Esse é um sonho meu e um trabalho que tento buscar apoio. Agora, você sabe a dificuldade no Brasil… Você faz a história, tem que divulgar a história, e tem dificuldades para repercutir. Mas alguém tem que fazer este trabalho. Sempre abracei causas e sempre tive compromisso com a história do meu país e da minha classe. Depois que me aposentei, eu me atribuí esta tarefa, de mostrar o Brasil para os brasileiros. Se a literatura é o melhor caminho, vamos lá e vamos fazer. Até porque você não pode perder o bonde da história e do tempo. Daqui alguns anos eu não consigo mais, o Alzheimer me pegou e já era. Então, pouca gente tem a capacidade de fazer o que eu estou fazendo. Tanto capacidade intelectual, como de histórico de vida. Fiz uma opção com 60 anos. Parei de trabalhar e falei que agora não vou fazer mais politica e nem educação, que era o que eu fazia. Vou fazer literatura e escrever o que penso, e não o que escrevi em nome dos movimentos.

Fórum – Você acredita que o brasileiro carece de ídolos históricos?

Moacyr Pinto – Este é o outro sentido para o livro. O Brasil é um país carente de heróis. Olha o 9 de julho, o ridículo do 9 de julho. A aristocracia paulista golpista contra outro governo golpista. Se a Revolução de 1932 desse certo seria um retrocesso. Na verdade, nós não temos heróis. Os únicos que possuem heróis consolidados, com marca, são os gaúchos. E, nesse sentido, a literatura ajudou muito, especialmente o Érico Veríssimo. Você pega o Capitão Rodrigo, é o herói típico gaúcho, machão pra caramba, forte, voluntarioso. Agora o nosso herói, o herói brasileiro dos tempos modernos, é um herói coletivo. São essas pessoas que construíram este processo, tanto na adaptação quando na capacidade de participar de um processo de superação de uma ditadura, de passar por um período de grande desemprego, de criar essa consciência coletiva. Essa é a contribuição que quero dar e esses são os heróis que quero projetar.

Fórum – Qual o legado deixado pelo movimento sindical da sua época?

Moacyr Pinto – O legado é exatamente esse DNA que ficou em nós, vamos dizer assim. Que é o DNA de não mudar de lado. Conheço, lá em São José dos Campos onde vivo hoje, uns vinte peões de fábrica que se você der um papel e uma caneta não são capazes de escrever nada, mas são capazes de sustentar um debate com qualquer quadro da direita sem desafinar em nenhum tema, mesmo em questões de valores mais tradicionalistas, como, por exemplo, essa coisa de pílula, contracepção. O legado é essa cultura que criou-se em um segmento que não é grande, mas que também não é pequeno. São os 300 mil que sustentaram o Lula em 2005, vamos dizer assim. Para mim, esse é o grande legado, essa cultura de que é preciso ter um lado. Saber qual é o meu. Por mais insatisfação que eu tenha com o andamento do meu governo, do meu sindicato, da minha central ou do meu partido, posso sair, mas sei que mudar de lado é um grande pecado. Esse é o legado.



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