A transa entre nós e Caetano

O AI-5, o exílio europeu e as saudades de casa foram alguns dos ingredientes que culminaram na concepção do álbum Transa, um dos mais densos de Caetano Veloso e que completa 40 anos em 2012

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O AI-5, o exílio europeu e as saudades de casa foram alguns dos ingredientes que culminaram na concepção do álbum Transa, um dos mais densos de Caetano Veloso e que completa 40 anos em 2012

Por Pedro Alexandre Sanches

“Meu coração está cheio de um ódio opaco”, disse Caetano Veloso em novembro de 1969. A afirmação par­tiu da Inglaterra, furou o Oceano Atlântico e veio implodir aqui no Brasil por intermédio do jornal contracultural O Pasquim, que à época publicava textos enviados do exílio londrino pelo compositor baiano.

Por mais que seja possível supor os motivos do ódio opaco de Caetano, o texto não os explicitava. Nem por isso seu final era menos eloquente: “O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito. Se você quiser saber quem eu sou eu posso lhe dizer: entre no meu carro, na estrada de Santos você vai me conhecer. Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer ‘aquele abraço’ a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós.”

Elipses, omissões e segredos fizeram a história do Brasil sob a ditadura cívico-militar como fizeram (e fazem) a história musical, artística, cultural intelectual de Caetano Veloso, uma de suas mais complexas traduções. Com o correr dos anos, fomos aprendendo pedaços, a maioria deles fornecida pelas vontades do próprio artista. Só em 1992, por exemplo, soubemos que a balada “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (1971) foi composta por Roberto e Erasmo Carlos em dedicatória oculta a Caetano, por consequência da visita mencionada de raspão no texto d’O Pasquim.

“Um dia a areia branca seus pés irão tocar/ e vai molhar seus cabelos a água azul do mar/ janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar/ e ao se sentir em casa sorrindo vai chorar.” Roberto cantava com maciez, e ninguém supunha que havia um protesto contra o regime escondido por trás dos versos supostamente amorosos daquele cantor tido como despolitizado, no mínimo, e francamente reacionário, no máximo.

O AI-5, o exílio europeu, as saudades de casa, a visita de Roberto e duas voltas episódicas ao Brasil antes do término definitivo do desterro (no início de 1972) foram alguns dos ingredientes que culminaram na concepção e no lançamento do álbum Transa. O aniversário de 40 anos de um dos mais densos álbuns de Caetano é festejado neste 2012 com truques habituais (edição remasterizada no estúdio inglês de Abbey Road) e outros menos habituais (reedição simultânea em vinil, no formato original, concretista, de “discobjeto” que se desdobra, redobra e transforma em uma espécie de pirâmide).

A perenidade de Transa demonstra que Caetano errava redondamente o alvo quando, naquele velho Pasquim, evocava o diagnóstico opaco sobre o triunfo de inimigos não revelados em aniquilá-lo.

Em 1969, seguindo a praxe de encaixar Gil dentro de seu pacote argumentativo, ele enviava àqueles aos quais não declinava o nome um gilbertiano “aquele abraço”, “não muito merecido, porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar”. Não é possível mensurar quanto havia, no sentimento do artista expulso do país natal, de mágoa, rancor, drama, exagero, quem sabe uma dose de autovitimização. Mas eles (eles quem? Caetano e Gil? Ou outros) não estavam mortos. Viriam outros, que não propriamente os renderiam (afinal, eles estão aí até hoje, hegemônicos, mi nisteriais), mas viriam. “Ele” (quem? Roberto Carlos?) também está vivo, mais ou menos tanto quanto Gil, Caetano, Tom Zé e demais tropicalistas.

Ainda que se sentisse aniquilado em 1969, o exilado acumulava forças para um retorno triunfal – que se materializaria em Transa e, mais tarde, na evocação constante (e ainda autovitimizada) dos três anos de exílio entre 1969 e 1972.

Nesse intervalo, Caetano se comunicou com o Brasil aos soluços. Após a diáspora tropicalista, mandou da Inglaterra um LP bilíngue, Caetano Veloso (1971), que de futura obra-prima (mais ou menos) popular continha apenas a depressiva “London, London”. Sua irmã mais nova, Maria Bethânia, conseguiu para ele uma permissão para visitar a Bahia em janeiro de 1971, sob o pretexto de participar da festa de 40 anos de casamento dos pais.

Segundo ele mesmo narra no livro memorial Verdade Tropical (1997), Caetano foi preso assim que desembarcou no Rio de Janeiro. Após horas de interrogatório, o regime teria proibido que ele cortasse barba ou cabelo e o obrigado a participar do programa Som Livre Exportação, de Rede Globo – tudo, supostamente, para afetar a normalidade e distrair a população da ausência do pop star e de seus porquês.

O músico gosta de mencionar que, no interrogatório, os agentes da ditadura declinaram para ele uma lista de nomes de colegas que seriam colaboradores da ditadura – informantes, “dedos-duros”, sabe-se lá que designações. Embora eventualmente mencione esse caso, ele jamais deu nomes aos bois em público, para além do manjado Wilson Simonal. É outra de suas elipses, daquelas que nos autorizariam quaisquer indagações, mesmo as mais estapafúrdias. Quem? Simonal? Elis Regina? Chico Buarque? Gilberto Gil? O próprio Caetano Veloso? Quem? Quens?

Caetano sabe, e nós não – e poderíamos dizer que teríamos o direito de saber, nestes tempos de recém-instalada Comissão da Verdade. Mas, sem saber, consumimos seus segredos sem cessar, até 2012, 2222 e além. “Araçá azul é sonho-segredo/ não é segredo/ araçá azul fica sendo o nome mais belo do medo/ com fé em Deus eu não vou morrer tão cedo/ araçá azul é brinquedo”, Caetano diria ao final do álbum subsequente a Transa, Araçá Azul (1973), subtitulado “um disco para entendidos” (com duplo sentido homosse­xual) e o mais hermético de sua discografia.

Juntos e somados ao “discobjeto” esférico Expresso 2222 (1972), de Gil, o Caetano Veloso de 1971, Transa e Araçá Azul formam um bloco compacto, que veio para fincar o papel definitivo da banda tropicalista da geração heroica dos anos 1960 na música e na cultura do Brasil.

O sonho-segredo afeta a confusão mental, o grilhão político (mas também mental) e o desejo-tabu de falar, falar, falar e falar do mais falastrão de nossos compositores populares. Em tensão, em contraste e em negativo, fotografa ao mesmo tempo o silêncio sepulcral do mais mimado e protegido de nossos artistas, Chico Buarque, o fidalgo antitropicalista por excelência, esquerdista e progressista, mas irmão da atual ministra conservadora da Cultura, cargo que Gilberto Gil ocupou em temporada anterior.

No cotovelo da tropicália, o cisma foi evidente: Gil e Caetano de um lado, mais progressistas em termos comportamentais; Chico de outro, mais conservador, politicamente indefinido. Na volta das respectivas temporadas europeias, em 1972, Caetano e Chico correram a fazer um show (e um disco ao vivo) juntos, como que a negar quaisquer divergências e dissipar quaisquer traumas. A triangulação Caetano-Gil-Chico prosseguiu tempo afora, de modo mais ou menos imperceptível, elíptico – e se Caetano fosse um eterno indeciso entre Chico e Gil, entre branco e preto, casa-grande e senzala, e não o vértice de triângulo que sempre transpareceu ser?

Eis aí por que Transa é o clímax estético de Caetano. Porque flagra-o no ápice da ambivalência, seja por dialética ou por indecisão. As mais loquazes de suas canções são aquelas que fundem versos em inglês e em português, num mosaico vertiginoso de citações cruzadas, díspares, disparatadas – e harmônicas.

Nos seis minutos de “It’s a Long Way”, entrelaçam-se a “old Beatles’ song” “The Long and Winding Road” (1969) e uma série de referências a momentos descontínuos da cultura popular brasileira. Nos versos de “Sodade, meu bem, Sodade”, do paraibano Zé do Norte, fotografam-se o Nordeste seco, o cangaço, Lampião, o cinema da Vera Cruz. Nos de “A Lenda do Abaeté”, do baiano Dorival Caymmi, ressurgem a praia baiana, o mistério moreno, a preguiça litorânea. “Água com areia”, de Jair Amorim e Jacobina, constava de um LP de 1966, de um companheiro de Caetano à época na gravadora Philips, Silvio Aleixo, mulato magro de tipo físico parecido com o dele, mas vozeirão em samba-jazz à moda de Simonal. “Consolação”, por fim, é um afro-samba de Baden Powell e Vinicius de Moraes, lançado em 1963 por Elizeth Cardoso e, no ano seguinte, pela musa bossa-novista Nara Leão.

Fórmula análoga é adotada em “You Don’t Know Me”, cantada em inglês e completada pela voz de Gal Costa em português, numa revisão de versos de “Saudosismo” (1969), homenagem agridoce de Caetano (e Gal) a João Gilberto. Repetido em inglês, o propósito de esfinge “você não me conhece/ aposto que nunca vai conseguir” se intercala com mais revisão da história da MPB dos anos 1960, em especial a bossa transtornada em canção de protesto de “Reza” (de Edu Lobo, 1964) e “Maria Moita” (de Carlos Lyra e Vinicius, gravada por Nara em 1964).

“Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/ o meu pai dormia em cama, minha mãe no pisador”, rezam os versos de “Maria Moita” retrabalhados por Caetano. A dualidade inglês/português, Europa/América, Primeiro Mundo/Terceiro Mundo, e assim por diante, encontra paralelo, aqui, na tensão até hoje não resolvida casa grande/senzala. A veia feminista vocalizada por Nara em 1964 fica perdida na omissão de Caetano, que não elege os versos “Deus fez primeiro o homem, a mulher nasceu depois/ por isso que a mulher trabalha sempre pelos dois”, valentes e surpreendentes mesmo para ouvidos de 2012.

Um último e muito significativo trecho acoplado a “You Don’t Know Me” vem de “Hora do Adeus”, baião triste de Onildo Almeida e Luiz Gonzaga, lançado em 1967 pelo segundo: “Eu agradeço ao povo brasileiro/ norte, centro, sul, inteiro/ onde reinou o baião”. De novo, Caetano omite o trecho mais impactante: “Hora do Adeus” é uma canção de despedida, de um sanfoneiro forrozeiro que, em 1967, se acreditava vencido, ultrapassado, aniquilado.

Rezava Gonzagão na triste despedida: “Se eu mereci minha coroa de rei, esta sempre eu honrei/ foi a minha obrigação/ minha sanfona, minha voz, o meu baião/ este meu chapéu de couro e também o meu gibão/ vou juntar tudo, dar de presente ao museu/ é a hora do adeus/ de Luiz, rei do baião”. O rei do baião deve ter cantado tal lamento sentindo-se sobrepujado e desprezado pelos reis do iê-iê-iê, da canção de protesto, da tropicália. Ia ali um bocadinho de exagero, de drama, da alma brasileira perversa que se autovitima à caça de perdão e adesão instantâneos. Gonzagão resistiria, firme e fértil, até 1989.

Descontadas as elipses, é razoável supor que também Caetano ouvisse “Hora do Adeus” em 1969 e se visse ele próprio, e não Gonzagão, como o aniquilado. A citação em Transa é cifrada, mas flagra-o inseguro, incerto ainda da própria sobrevivência artística após o desterro.

Estava mais equivocado que Luiz Gonzaga, e deu o sangue, o suor e os ossos para não permitir que os inimigos, ocultos ou imaginários, o aniquilassem. Fazer-se de vítima – vítima do samba, da canção obtusa de protesto, de Chico Buarque, da ditadura, do exílio, do rock, dos Beatles, dos inimigos ocultos aniquiladores – levantou-se como estratégia macunaímica, de 500 anos e mais e além. Vitoriosa estratégia. “Pra que rimar amor e dor?”, chorava Caetano na arrebatadora faixa “Mora na filosofia”, de Monsueto Menezes, emprestada da irmã Bethânia (que o gravara em 1965). Ao converter o sambão de morro carioca em balada britânica introspectiva, Caetano, o ambíguo, fazia aquilo mesmo que os versos e o intérprete sugeriam não querer fazer: rimava amor e dor.

Como comprova a faixa “Nine Out of Ten” (um reggae produzido antes que nós, brasileiros, tivéssemos tido a oportunidade de ouvir falar sobre Bob Marley), Transa não foi, não é não será o trabalho de um artista aniquilado. O status de obra-prima lhe cabe bem melhor. Por sutileza e ironia, Transa é e diz, também, o que não diz e não é. Obra-prima, sim, mas nunca foi um disco popular, consumido pelas massas que Glauber Rocha dizia almejar, mas nunca alcançou. Transa é, foi, será uma transa cá entre Caetano e nós que costumamos lhe dar ouvidos – mesmo assim impopular, eis-nos aqui discorrendo sobre ele, ontem, hoje, sempre. O encontro-colisão se reproduz toda vez que a confusão mental do artista volta a transar com a nossa. F



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1 comment

  1. Gabriel Dread Responder

    Muito boa crítica!

    Escrevi ha alguns anos uma humilde crônica falando especialmente, da faixa Nine out of Ten, o primeiro reggae brasileiro: http://www.irradiandoluz.com.br/2008/08/caetano-veloso-na-vanguarda-da-musica.html


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