Agricultora familiar e internauta

Antes, Dona Neide trabalhava no canavial; agora, planta hortaliças orgânicas e conta tudo em seu perfil no Facebook

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Antes, Dona Neide trabalhava no canavial; agora, planta hortaliças orgânicas e conta tudo em seu perfil no Facebook

Por Adriana Delorenzo

Numa região onde os canaviais predominam, o investimento em uma alternativa agroecológica tem mudado a vida de 48 famílias no município de Cabo do Santo Agostinho (PE), na Zona da Mata. A agricultora familiar Neide Cristina Rodrigues é uma das beneficiadas pelo programa, e viu sua qualidade de vida mudar de patamar com o aumento da renda e a variedade de alimentos consumidos pela sua família. “Melhorou muito. Antes, passava quatro meses descascando cana e pescando no brejo. Agora, toda semana vou vender meus produtos na feira”, diz ela.

Tudo começou quando Neide foi a uma reunião do Conselho de Agricultura da cidade. “Eles estavam explicando e eu me prontifiquei, disse que queria pra mim”, conta. Neide recebeu um kit da Fundação Banco do Brasil (FBB), que, em parceria com o BNDES, vem disseminando a tecnologia social Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) no Pernambuco. Na região metropolitana do estado, já são 540 unidades em nove municípios. Conforme explica o gerente de Comunicação da FBB, Emerson Weiber, os investimentos começaram, na região, em 2010, sendo que cada unidade custa entre 8 e 10 mil reais. O objetivo, segundo ele, é justamente o aumento da produção orgânica voltada para o consumo, sendo que o excedente gera renda.

Os kits contêm uma caixa d’água, sementes, bombas e mangueiras, entre outros materiais para o sistema de irrigação. Além disso, os agricultores recebem dez galinhas, um galo e madeiras para a construção do galinheiro. A técnica do Pais, antigamente, era chamada de “mandala”, pois as plantações são feitas em forma de anéis circulares, e o galinheiro fica no centro. O esterco é utilizado como adubo.

O apoio para as famílias começarem a produzir vai além do kit. A FBB ainda disponibiliza um técnico para acompanhar e orientar o produtor, desde a plantação até a comercialização dos alimentos. Os materiais são entregues sob a forma de comodato. Se em cinco anos não estiver funcionando, o kit deve ser devolvido.

No Nordeste, a reaplicação do Pais conta ainda com o apoio da Associação de Orientação às Cooperativas do Nordeste (Assocene). Débora Costa, da entidade, explica que a maioria das famílias que receberam o kit em Cabo do Santo Agostinho trabalhava na lavoura de cana e foi assentada. “A ideia é que depois elas possam caminhar com as próprias pernas, saindo do trabalho escravo da cana”, afirma. A prioridade, para receber o kit, é a família se identificar com a agricultura familiar. “Eles dão a vara e a isca pra gente pescar”, diz Neide.

“O projeto veio intervir na nossa região que sofre com a monocultura da cana e também com o êxodo rural”, diz Deywison Borba, técnico que auxilia os agricultores familiares da região que receberam os kits do Pais, inclusive dona Neide. “Meu trabalho é segurar a família aqui no campo e levar eles a negociarem seus próprios produtos.”

Dona Neide é a prova viva de que a tecnologia social é um poderoso instrumento de transformação. Todas as sextas-feiras, ela sai da comunidade de Engenho Ipiranga, onde vive há 14 anos, para, às cinco e meia da manhã, já estar na feira de Cabo de Santo Agostinho. É lá que suas hortaliças são vendidas e fazem sucesso, principalmente porque, como Neide explica, seus produtos “não têm veneno”. Sem o uso de agrotóxicos na produção, ela planta flor de cravo, pimenta e coentro entre os pés das hortaliças, para espantar as pragas. “Quando falam que está caro, eu respondo: ‘Meu filho, aqui não tem agrotóxico, é saudável.’ Daí, levam o dobro.”

“Tem uma freguesia que é uma maravilha. O que a gente leva, sai”, afirma. “Quem sabe a gente não começa a exportar?”, empolga-se. Às 10 horas, Neide conta que já não tem mais nada. Semanalmente, ganha entre 200 e 250 reais. Quatro pessoas trabalham no pequeno sítio de dona Neide, além dela, seu marido, um filho e um primo.

“Antes era só macaxeira e feijão com farinha. Era difícil um prato de salada”, diz ela, sobre a melhoria no cardápio da família. Uma filha até chora quando matam uma das galinhas.

Segundo o gerente de Economia Solidária do BNDES, Dalmo Fugita, o Pais é uma tecnologia social que tem se mostrado muito positiva, pois, além de melhorar a segurança alimentar, tem um potencial de inclusão produtiva. “Nós fazemos um acompanhamento a cada ano, para ver se houve aumento de renda e se a família está se alimentando melhor.”

Hoje, já são 9,2 mil unidades do Pais espalhadas pelas regiões rurais do Brasil, em 25 estados. Todas com o investimento da FBB. De acordo com o presidente da Fundação, Jorge Streit, a tecnologia social é reaplicada com a interação da comunidade, e, em cada região, ela pode sofrer adaptações. Na Amazônia, por exemplo, as plantações contam com sombreiras para a proteção da chuva.

Assim como Fugita, o presidente da FBB afirma que a experiência do Pais e outras tecnologias sociais disseminadas pela FBB têm se mostrado muito positivas para a superação da pobreza. “É importante para o Brasil que esse tema seja mais bem tratado e trabalhado”, disse ele aos jornalistas que participaram do IV Encontro de Jornalistas do Nordeste, realizado em Ipojuca (PE), promovido pela Fundação.

Para Humberto Oliveira, coordenador da Assocene e ex-secretário de Desenvolvimento Territorial do Ministério de Desenvolvimento Agrário, é muito importante o apoio à agricultura familiar e ao desenvolvimento de políticas públicas para as populações rurais do Brasil. No caso do Pais, a comunidade é a protagonista, e, além da superação da pobreza, a tecnologia social promove o real desenvolvimento sustentável.

O início da mudança

Além da alimentação mais saudável, o aumento da renda propiciou outras melhorias na vida de Neide e de sua família. Sua casa já conta com uma TV de plasma LCD e computador com acesso à internet. Dona Neide, hoje, tem e-mail e está integrada ao Facebook. Na rede social, ela divulga as fotos de sua plantação agroecológica e os benefícios da agricultura orgânica. “Como é bom ser agricultora, se alimentar com legumes e verduras sadias sem agrotóxico pra toda a família. Vamos, gente, se alimentar com muita saúde”, diz ela em uma de suas postagens.

Neide trabalha o dia inteiro e dorme só entre três e quatro horas por noite, porque fica na internet. “Quem reclama é meu marido, eu fico aqui e ele na cama. Daí ele diz: ‘Eita, casou com o computador?’” O acesso é via rádio, mas Neide não está muito satisfeita com o serviço. “É devagar demais, eu fico aperreada.”

Outro desdobramento após a instalação do Pais é que agora o sítio de dona Neide terá outra tecnologia social: uma fossa séptica biodigestora. Além de melhorar as condições de saneamento, a tecnologia social produzirá um fertilizante natural. Com tantas mudanças na vida e no sítio da família de dona Neide, a vizinhança também quer um kit do Pais. F

A jornalista viajou a Pernambuco a convite da Fundação Banco do Brasil (FBB).



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2 comments

  1. neide cristina rodrigues Responder

    Aê que bom esta reportagen,fiquei muito feliz em ver e lê,não esqueça de mim estou sempre aqui plantando e colhendo o q é bom,beijos pra vc ADRIANA DELORENZO.

  2. Luiz Henriquer Timoteo Dasilva Responder

    eu sei disso muito bem pois eu tam bem trabalhei com ela neste momento espero verla bem e crecida de vida de seu ex luiz


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