Alexandre Pires e Emicida: dois lados de uma mesma moeda

Graças às várias denúncias feitas pelo movimento negro, os meios de comunicação hegemônicos admitem a existência do racismo no País

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Graças às várias denúncias feitas pelo movimento negro, os meios de comunicação hegemônicos admitem a existência do racismo no País

Por Dennis de Oliveira

O caso do clipe “Kong”, do cantor Alexandre Pires, repercutiu muito na mídia e nas redes sociais. O fato de um músico negro popular ser denunciado por prática de racismo foi insólito. A Globo veiculou o episódio no Fantástico, dando destaque para a defesa de Pires, sempre no tom de que não passava de uma “brincadeira”. A repercussão foi ainda maior por ter acontecido no contexto da votação do Supremo Tribunal Federal a favor das cotas raciais nas universidades, por unanimidade. A mídia hegemônica foi contra essa medida.

Graças às várias denúncias feitas pelo movimento negro, os meios de comunicação hegemônicos admitem a existência do racismo no País. Porém, ainda debitam o racismo a comportamentos pontuais e episódicos de algumas pessoas, e não a um traço distintivo da sociedade brasileira. Daí que a admissão da existência do racismo nesses termos não é acompanhada da posição favorável a políticas públicas, como são as ações afirmativas e as cotas.

Outra questão que toca fundo na ideologia da mídia hegemônica é a postura vigilante da sociedade quanto às mensagens disseminadas pela indústria cultural. Vem aquela velha história da “liberdade de expressão” sendo ameaçada pelo “politicamente correto”, como se o direito à liberdade de expressão fosse absoluto e pairasse sobre qualquer outro direito público.

Uma aberração, mesmo dentro da ótica do liberalismo, pois todos os direitos são relativos à medida que não ameacem o direito de outro. O direito à vida, por exemplo, é relativizado quando há a ocorrência da “legítima defesa” – uma pessoa pode tirar a vida de outra se for a única alternativa possível, naquele momento específico, de defender a sua. Além disso, a tal “liberdade de expressão” na forma que a indústria cultural e a mídia estão configuradas hoje significa um privilégio de umas poucas corporações. Aí fica a aberração desta ideia: um privilégio de uma minoria se coloca em um patamar absoluto, situação na qual nem mesmo o direito à vida está.

Negociações na indústria cultural

Em um artigo publicado na edição on-line da revista Fórum, comentei que a presença afrodescendente na indústria cultural ocorre dentro de uma lógica implícita de negociação: os poucos negros e negras que têm esse espaço só o têm desde que a sua narrativa se limite à dimensão lúdica e não faça referências a um discurso antirracista.

Na partida Bolívar e Santos, realizada na cidade de La Paz, em 25 de abril, a torcida boliviana jogou uma banana na direção do jogador Neymar. Os jornais brasileiros, todos eles, ressaltaram a “agressividade e mau comportamento” dos bolivianos, a falta de espírito esportivo, alguns até mesmo propondo a proibição de jogos em La Paz, pois a altitude é prejudicial para a prática desse esporte, todos os comentários eivados de um preconceito por se tratar de povos da América Latina (interessante que nenhum comentarista esportivo brasileiro defenda a ideia da proibição de partidas debaixo da neve, como aconteceu no jogo Bayern de Munique e Cruzeiro, pela final do Mundial interclubes de 1976, na Alemanha).

Porém, nenhum jornal – e nem mesmo Neymar – sequer desconfiou do porquê de jogarem justamente uma banana na direção de um jogador negro. E justamenteele, que hoje é indiscutivelmente o melhor jogador brasileiro, fez um clipe associando negros a macacos junto com Alexandre Pires e Mr. Catra…

A tolerância da presença negra no espaço lúdico tem proporcionado a alguns afrodescendentes indiscutível ascensão social, além de visibilidade. Cria-se, assim, um panorama aparentemente paradoxal, de uma sociedade racista com vários ídolos negros e negras. Mais paradoxal ainda quando se leva em consideração o peso da autoridade contido na fala das celebridades na sociedade regida pela imagem.

Esses ídolos afrodescendentes têm uma força na formação de opinião pública, principalmente entre os mais jovens. Por isso, a negociação imposta pela indústria cultural passa pela não presença do discurso de afirmação racial e de combate ao racismo por parte desses ídolos.

Construção de novos protagonismos midiáticos

Em 12 de maio, o rapper Emicida foi preso em Belo Horizonte por “incitar o desacato à autoridade”, em função de uma música dele cantada, em um show no qual faz duros ataques à PM. Esse fato foi interessante pelos seguintes motivos:

Primeiro, nenhum órgão de comunicação ou os artistas incomodados com a “censura do politicamente correto” mobilizou-se em defesa do direito da “liberdade de expressão” de Emicida, demonstrando a visão seletiva deste direito.

Segundo, Emicida construiu sua visibilidade por fora dos circuitos hegemônicos da indústria cultural e da mídia e, com isso, pode exercer um discurso de afirmação étnica e antirracista.

Esses dois fatores mostram a importância do engajamento do movimento negro e antirracista na construção de novos protagonismos midiáticos – a blogosfera progressista está aí crescendo – e na defesa da democratização dos meios de comunicação. A probabilidade de um discurso de combate ao racismo ganhar espaço na mídia hegemônica é minúscula, mesmo com a presença de ídolos negros. F



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