As Olimpíadas militarizadas de Londres

A história de duas cartas de dois britânicos mostra um pouco dos apelos e dos valores por trás da organização do maior evento esportivo de 2012

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A história de duas cartas de dois britânicos mostra um pouco dos apelos e dos valores por trás da organização do maior evento esportivo de 2012 

Por John Pilger, publicado por Resistir

Esta é a história de duas cartas e de dois britânicos. A primeira carta foi escrita por Sebastian Coe, o antigo atleta que preside o Comitê Organizador das Olimpíadas de Londres. Ele agora é chamado de Lord Coe. No New Statesman de 21 de junho informei de um apelo urgente a Coe, feito pela União das Mulheres do Vietnã, para que ele e os seus colegas do COI reconsiderassem sua decisão de aceitar o patrocínio da Dow Chemical, uma das companhias que fabricou dioxina, um veneno utilizado contra a população do Vietnã. Com o nome em código de Agente Laranja, esta arma de destruição maciça foi despejada sobre o Vietnã, de acordo um relatório de 1970 do Senado dos EUA, na chamada Operação Inferno (Operation Hades). A carta a Coe estima que hoje 4,8 milhões de vítimas do Agente Laranja são crianças, todas elas com deformações chocantes.

Na sua resposta, Coe descreve o Agente Laranja como “uma questão altamente emocional” cujo desenvolvimento e utilização “foi praticado pelo governo dos EUA [o qual] corretamente conduziu o processo de tratar as muitas questões que resultaram”. Ele refere-se a um “diálogo construtivo” entre os governos estado-unidense e vietnamita “para resolver questões”. Eles estão “melhor colocados para gerir a reconciliação destes dois países”. Ao ler isto, recordei-me das cartas evasivas que são uma especialidade do Foreign Office em Londres para negar a evidência dos crimes de Estado e do poder corporativo, tais como a exportação lucrativa de armas terríveis. O antigo funcionário da Seção Iraque (Iraq Desk Officer), Mark Higson, chamou a estes sofismas “uma cultura da mentira”.

Enviei a carta de Coe a algumas autoridades sobre o Agente Laranja. As reações foram inequívocas. “Não houve de todo qualquer iniciativa do governo dos EUA para tratar os efeitos sobre a saúde e a economia nas pessoas do Vietnã afetadas pela dioxina”, escreveu o respeitado procurador dos EUA Constantine Kokkoris, que dirigiu um processo contra a Dow Chemical. Ele observou que “indústrias como a Dow estavam conscientes da presença e nocividade da dioxina no seu produto mas deixaram de informar o governo num esforço para evitar a regulamentação”. Segundo a Liga dos legados da guerra, nenhum dos problemas na saúde, no ambiente e na economia provocados pela mais prolongada guerra química do mundo foi tratado pelos EUA. Agências não governamentais ajudaram “apenas um pequeno número daqueles que necessitavam”. Uma “limpeza” num “ponto quente de dioxina” na cidade de Da Nang, ao qual Coe se refere, é uma impostura – nada do dinheiro concedido pelo Congresso dos EUA foi diretamente para os vietnamitas ou chegou àqueles mais gravemente incapacitados pelo câncer associado ao Agente Laranja.

Por esta razão, a menção de Coe à “reconciliação” é blasfema, como se houvesse uma equivalência entre uma super-potência invasora e suas vítimas. A sua carta exemplifica o arame farpado das Olimpíadas de Londres, suas relações públicas, seu estado totalitário movido pelo dinheiro dentro de um local no qual se entra, apropriadamente, através do mega centro comercial de Westfield. Como ousam vocês queixarem-se dos mísseis sobre as coberturas dos vossos apartamentos, ralhou um magistrado a 86 residentes no East End de Londres. Como ousa qualquer de vocês protestar contra as “pistas para carros Zil”, reminiscentes da Moscou da era soviética, para apparatchiks olímpicos e os rapazes da Dow e da Coke? Com os media encarregados de estimular as Olimpíadas, tal como fizeram para o “Pavor e choque” no Iraque em 2003, agora entra o homem que desempenhou um papel de estrela para possibilitar ambos os espetáculos.

Em 11 de julho, numa chamada noite olímpica, “uma reunião da tribo trabalhista”, declarou o líder do Labour Party, Ed Miliband, celebrou sua “estrela convidada” Tony Blair e a sua “prenda” de 2005 dos Jogos Olímpicos e “proporcionou a oportunidade perfeita para o retorno de Blair à linha de frente política”, informou o Guardian. O organizador desta maquinação foi Alistair Campbell, chefe do banho de sangue com que Blair premiou o povo iraquiano. E tal como as vítimas da Dow Chemical não têm interesse para a elite olímpica, também a criminalidade monstruosa da estrela convidada do Labour não era assunto mencionável.

A origem da segurança caótica das Olimpíadas tão pouco é mencionável. Como estudos consagrados na Grã-Bretanha admitem há muito, foram as invasões do Afeganistão e do Iraque e a restante “guerra ao terror” que serviram para recrutar novos jihadistas e promover outras formas de resistência que levaram diretamente às bombas em Londres de 7 de julho. Elas foram bombas de Blair. Na sua atual reabilitação, graças ao seu “legado” olímpico, há o extra adicional de que a enorme riqueza pós Downing Street de Blair está concentrada em instituições de beneficência.

A segunda carta que recebi foi-me enviada por Josh Richards, que vive em Bristol. Em março de 2003, Josh e quatro outros começaram a desativar um bombardeiro americano B-52 na base da RAF de Fairford, Gloucesterchire, para que não pudesse bombardear o Iraque. Assim o fizeram. Foi uma ação não violenta fiel aos princípios de Nuremberg de que uma guerra de agressão era o “crime de guerra supremo”. Josh foi preso e acusado de planeamento para a colocação de explosivos. “Isto foi baseado na ideia ridícula de que alguma manteiga de amendoim que eu tinha comigo era realmente um componente de bomba. A acusação foi abandonada mais tarde depois de o Ministério da Defesa efetuar testes amplos ao meu crocante Tesco de manteiga de amendoim”.

Após dois julgamentos e dois júris que não puderam chegar a decisão unânime, Josh foi finalmente absolvido. Foi um caso memorável no qual ele falou em tribunal aberto acerca do embargo genocida imposto ao Iraque pelos governos britânico e estadunidense antes da sua invasão e das falsas justificações da “guerra ao terror”. A sua absolvição significou que ele havia atuado em nome da lei e que a sua intenção foram salvar vidas.

A carta escrita por Josh incluía uma cópia do meu livro, Os novos dominadores do mundo (The New Rulers of the World), o qual, ele destaca, proporcionou os fatos de que necessitava para a sua defesa. Com páginas marcadas e sublinhadas meticulosamente, o livro havia acompanhado Josh numa jornada de três anos através de salas de tribunais e celas de prisão. De todas as cartas que recebi, a de Josh exemplifica uma decência, modéstia e determinação de propósito moral que representa uma outra Grã-Bretanha e antídoto a venenosos patrocinadores olímpicos e a instigadores de guerra reabilitados. Durante estes tempos extraordinários, tal exemplo deve dar outro ânimo e inspiração para recuperar esta democracia em retrocesso.

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=31985 



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