Nossa Estante

Noel Rosa e a rima na escola

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O universo de Noel Rosa no Brasil dos anos 1930

A linguagem do compositor e poeta carioca de Vila Isabel é tema do livro Noel Rosa – O humor na canção, de Mayra Pinto, lançado em maio pela Ateliê Editorial, resultado das pesquisas da autora para sua tese de doutorado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Mayra Pinto analisa esse personagem cativante e genial “da famosa Época de Ouro da canção brasileira – período que vai de 1930 a 1945”, como explica a autora na introdução, focando as categorias do humor e da ironia que perpassam a obra desse artista que precocemente, em 4 de maio de 1937, com apenas 26 anos, morreu deixando um legado de quase 300 canções compostas com parceiros ou não. Noel, como se sabe, era tuberculoso.

O compositor da reveladora “Com que roupa?” (de 1930) é, no livro, uma figura contextualizada sociologicamente, embora não seja a sociologia o foco da tese: a voz de Noel “fala sobre o universo social da pobreza, pouco retratado até então na canção popular urbana, muito menos sob um viés crítico”, continua Mayra.

A ideia de abordar a música e a poesia de Noel, enquadrada sob a perspectiva da ironia e do humor, conta a autora, foi inspirada no teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Segundo ela, esse insight se deu com a leitura de um clássico desse pensador: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Em resumo, Noel Rosa – O humor na canção procura as “intersecções” entre a cultura popular e a erudita, numa obra cuja sofisticação, pode-se dizer, fundou a Música Popular Brasileira como conceito tal como o conhecemos hoje: para além de um mero gênero musical.

Falei acima sobre a contextualização da obra do compositor sociologicamente. O interessante é notar como a arte, segundo a visão do livro, está irrevogavelmente ligada à vida. “Como o mundo da canção em 1930 está essencialmente voltado para a alegria carnavalesca”, escreve a autora. “Noel cultivou uma voz que pudesse transitar com desenvoltura entre a leveza prazerosa própria do samba e a reflexão mais grave e contundente sobre a precária condição do sambista no mundo – um sujeito pobre, cuja competência artística ainda não conquistou o devido reconhecimento.”

E é justamente no interior dessa dialética que são gerados o humor e a ironia em Noel Rosa. Um artista cuja obra, décadas afora, vem ecoando na MPB quase como a manifestação de um arquétipo, o que é muito nítido em Chico Buarque, embora neste a sofisticação tenha chegado a um outro nível de complexidade, justamente por ter incorporado o próprio desenrolar do tempo e seus múltiplos desdobramentos estéticos e históricos. (Eduardo Maretti – http://fatosetc.blogspot.com)

Noel Rosa – O Humor na Canção

Mayra Pinto

Ateliê Editorial, 216 páginas

 

A rima na escola, o verso na história

Maíra Soares vem nos presentear com um livro precioso. Trata-se de uma educadora e psicanalista, que foi ao encontro de vozes desconsideradas prova que uma escuta atenta tem poder transformador e inclusivo.

A autora fez um trabalho na favela Real Parque, próxima ao estádio do Morumbi. Comunidade formada por migrantes, que vieram a São Paulo para a construção do estádio vizinho. Na única escola de ensino Fundamental que atende essa população, Maíra encontrou jovens segregados pelo Estado e recusando a própria origem. São descendentes de índios e escravos provenientes de Pernambuco.

No encontro fértil das idéias psicanalíticas com os princípios da educadora, surgem as intervenções de Maíra na escola. Ousa perguntar por que as origens daquela comunidade são negadas. Por que as memórias e identificações daqueles jovens não comportam seus ancestrais nem na escola, nem fora dela. Aposta, com base em sua prática psicanalítica, que um sujeito, e portanto um cidadão, se forma por meio da apropriação de sua origem e de seu pertencimento.

Não satisfeita com a aproximação com a comunidade do Real Parque, a autora sai a campo. A educação e a psicanálise fora de seus redutos protegidos, em uma viagem ao sertão de Pernambuco. Maíra conhece as origens afro-indígenas de onde vieram os migrantes que formaram o Real Parque, e lá é encantada pelas manifestações poéticas daquele povo, principalmente o cordel e o repente.

Ora, aqueles jovens não eram herdeiros somente da violência e da segregação, processos intimamente ligados às diásporas de seus antepassados, mas também de uma criação poética e musical viva e rica.

Maíra retorna a São Paulo e instala um ambiente de rememoração desses jovens, julgando fundamental “a possibilidade de a história da comunidade encontrar expressão no ambiente escolar” . Os jovens, habituados ao rap, aceitaram a proposta do repente. E assim, por meio da apropriação do passado, fizeram algo novo: uso dos recursos de suas identidades afro-indígenas para falar de suas angústias e sonhos.

O resultado desse trabalho, agora em forma de livro, nos mostra que, para existirem cidadãos, há que se formar, antes de tudo, sujeitos – com vozes consideradas, com um pertencimento a uma comunidade e com uma história individual e coletiva, cheias de dor, mas também de música e poesia. (Camila Flaborea, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP)

A rima na escola, o verso na história 

Maíra Soares Ferreira

Boitempo, 240 páginas



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