O filho mais famoso de Exu

A figura de Luiz Gonzaga, que completaria cem anos em 2012, permanece viva em sua cidade natal, no sertão pernambucano

2387 1

A figura de Luiz Gonzaga, que completaria cem anos em 2012, permanece viva em sua cidade natal, no sertão pernambucano

Por José Paulo Borges

Desde 1º de fevereiro deste ano, todos os dias, um pouco antes das seis da tarde, lá está o menino Henrique Alencar, 12 anos, em frente à torre da Capela de São João Batista, na Fazenda Araripe, em Exu, a 630 quilômetros do Recife. Pontualmente nesse horário, Henrique puxa a cordinha e, por seis vezes, o som do sino de bronze, de mais de 150 anos, ecoa nos céus da caatinga, atravessa o riacho da Brígida e se espraia por essas terras baixas, no sopé da serra do Araripe, onde em 13 de dezembro de 1912 nasceu o cantador e sanfoneiro Luiz Gonzaga. Todas as tardes até 13 de dezembro, data em que Gonzagão completaria 100 anos, Henrique fará soar a homenagem a um dos maiores sertanejos de todos os tempos.

O soar do sino a Luiz Gonzaga, na Fazenda Araripe, no ano de seu centenário, tem um significado que o pequeno Henrique talvez nem imagine. Sua família Alencar, juntamente com os Sampaio e os Saraiva, protagonizaram a mais sangrenta guerra entre famílias da história de Exu. Dezenas de pessoas perderam a vida no conflito que começou em 10 de abril de 1949 e se prolongou por mais de 30 anos, mas cujas origens estão fincadas na época da colonização e envolvem desavenças políticas e familiares por divisão de terras. Cansado de ver tanto sangue derramado, em 1979, Gonzagão apelou ao presidente da República em exercício, Aureliano Chaves: “Doutor Aureliano, faça um esforço para levar a paz à minha terra.”

Gonzaga buscou a paz em Exu como um obstinado. Insistiu nessa empreitada, chegou a cantar, juntamente com o filho Gonzaguinha, músicas pedindo por reconciliação. “Que os poderosos se matem/problema é do poder/mas sempre sobra pros pobres/e isso eu não posso entender”, dizem os versos de “Prece por Exu Novo”, de Gonzaguinha. Em 1981, o governo de Pernambuco chegou a decretar intervenção no município. Em julho daquele ano, ocorreu o último crime relacionado ao conflito. Depois disso, o “Rei do Baião” agregou outro título ao nome, o de pacificador de Exu.

“Nada mais justo do que prestarmos essa homenagem, aqui no local onde ele nasceu”, resume Maria do Amparo Aires de Alencar, 60 anos, tia de Henrique. “Também queremos rezar novenas bem bonitas na capela, acender fogueiras para Luiz Gonzaga durante sete noites na época de São João, festejar, chamar o povo pra se divertir. Mas, para isso, precisamos do apoio do governo do estado de Pernambuco”, acrescenta. Bem que o filho dela, Clóvis Jaime, vem tentando contatos no Recife, especialmente com a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). “Até agora, ninguém se manifestou, está difícil para concretizarmos o projeto”, lamenta Maria do Amparo.

A paz não é o único e talvez nem o principal legado de Gonzaga a Exu. As pedras do calçamento antigo e irregular da ruazinha mais conhecida como “dos Saraiva”, no centro da cidade, são testemunhas de outra herança do sanfoneiro. Nessa rua, numa casa perto da esquina, funciona o Projeto Asa Branca. E são justamente os acordes da lendária canção, vindos do número 131, sede do projeto, que logo chamam a atenção. Quem toca numa velha sanfona de 120 baixos é Vinícius Felipe da Silva, de 9 anos. Logo, juntam-se a ele Taís Bezerra, de 20 anos, na zabumba, e Stanley Tomaz Bezerra, de 13 anos, no triângulo. Sanfona, zabumba e triângulo, a santíssima trindade do forró ungida por Luiz Gonzaga em suas andanças por este País.

Vinícius, Taís e Stanley são alunos do Projeto Asa Branca, juntamente com um punhado de crianças e adolescentes que, aos poucos, vão chegando ao local. O projeto se originou na Fundação Asa Branca, também conhecida como Fundação Gonzagão, entidade criada em 2 de março de 2000 pelo então promotor de Justiça local, Francisco Dirceu Barros, e alguns exuenses importantes. “O doutor Francisco era um apaixonado pela cultura gonzagueana, e foi dele a ideia da Fundação. O objetivo é prestar atendimento a crianças e adolescentes, especialmente as carentes, utilizando a arte e a poesia de Luiz Gonzaga para sua promoção social”, explica a professora aposentada Marina Santana Moreira. Mulher de personalidade forte, Marina esteve junto com o promotor Francisco Dirceu desde o lançamento do Projeto Asa Branca.

“Do ano 2000 até agora, mais de 800 crianças passaram pelo projeto, que inicialmente, além de música, oferecia oficinas de artesanato, dança e poesia. Atualmente, atendemos uma média de 350 crianças, inclusive à noite”, conta Marina. Algumas delas se destacaram, tocando acordeão e se apresentando em grupos regionais, mas isso, para a professora, não é o essencial. “O importante é incentivar as crianças a resgatar a cultura gonzagueana e a promover o município de Exu”, enfatiza.

Assim que se chega ao projeto, a primeira coisa que chama a atenção é o entusiasmo das crianças. Só depois é que o visitante percebe a precariedade dos instrumentos encostados na parede. “Muitos acordeões foram comprados em feiras de cidades vizinhas. Alguns estavam caindo aos pedaços”, explica Marina. Não fossem os cuidados de Pedro José Sampaio, 55 anos, o destino dessas velhas gaitas de fole seria o lixo. Remenda dali, conserta daqui, e aos poucos Pedro José vai devolvendo a sonoridade às sanfonas. “Claro, não é como uma nova, mas dá para o gasto”, brinca Sampaio, que também atua como monitor de alunos no projeto, enquanto mostra uma velha sanfona de 120 baixos que ele consertou. “Deve ter uns 80 anos, a bichinha”, calcula.

Parque “Aza” Branca

Quem chega a Exu, depois de sacolejar por uma estradinha estreita e esburacada – se bem que, em alguns trechos, o asfalto é até razoável –, logo à direita é saudado por uma placa onde se lê: “Bem-vindo ao Museu do Gonzagão-Exu-PE”. O museu faz parte do Parque Aza Branca (assim mesmo, com “z”, conforme a grafia antiga da palavra), espaço localizado em um terreno que pertencia a Luiz Gonzaga e que abriga também a casa de seus pais.

Foi ali que ele viveu seus últimos dias e é onde seus restos mortais descansam, em um mausoléu, ao lado dos pais, Januário e dona Santana; da mulher, Helena, e do irmão Severino. As mais fortes lembranças de Luiz Gonzaga estão no museu: partituras de música, sanfonas, gibão, chapéu de couro, discos, troféus, fotografias, livros, jornais e condecorações. O museu foi construído pelo próprio músico, e sua intenção era reunir todo o seu acervo em um único local para, assim, facilitar o trabalho de jornalistas, pesquisadores e de quem quer que se interesse por sua obra.

O parque conta com os serviços de apenas dez funcionários e se mantém graças ao dinheiro arrecadado nos ingressos e à colaboração de admiradores e empresários. Apesar da importância cultural e histórica do local, a infraestrutura necessita de alguns cuidados. De acordo com o diretor de Equipamentos da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, Célio Pontes, uma reforma está em andamento. “A reestruturação do parque deve ser concluída até o final de novembro, assim deveremos comemorar o centenário de Gonzaga, em dezembro, já nas novas instalações”, prevê Célio.

Atualmente, o parque abriga uma ONG. A vice-presidenta da entidade, Maria Parente, avalia que, apesar dos trabalhos de recuperação feitos pelo governo estadual, há a necessidade de uma reforma mais ampla. “O governo recuperou o prédio do museu, o mausoléu e a casa do ‘Rei do Baião’, mas a cozinha da casa de Luiz Gonzaga está quase no chão, bem como a casa de Januário, pai do artista, que também precisa de reparos”, destaca Maria Parente.

Indiferentes aos problemas existentes à sua volta, os 20 alunos, entre 8 e 15 anos, que participam do curso de formação de sanfoneiros desenvolvido no Parque Aza Branca, só querem aprender os segredos do instrumento e manter viva a tradição do mestre Luiz Gonzaga. Não é cobrada nenhuma taxa no curso, e as lições são divididas em três módulos. Mas não há data certa para a conclusão da atividade: até março, a manutenção do projeto ainda dependia da liberação de verbas do Ministério da Cultura.

Porém, há um lado obscuro em Exu, do qual certamente Luiz Gonzaga não se orgulharia. As drogas, a evasão escolar e o alcoolismo atingem níveis preocupantes entre jovens abaixo de 20 anos, o que corresponde a 40% da população de 31 mil habitantes, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para enfrentar o problema, a administração municipal conta, como trunfo principal, com a criação do Parque da Juventude. Previsto para ser entregue em breve, o complexo multiesportivo tem o aval do Ministério do Esporte e está orçado em R$ 1.708.540,48.

Dos oito baixos de Januário aos 120 de Luiz

Teatro Tereza Rachel, Rio de Janeiro, anos 1970, época em que os militares impunham as regras do jogo. Num espetáculo intitulado “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, depois transformado em disco, o sanfoneiro se derrama em elogios ao então ministro da Justiça Armando Falcão, que estava na plateia. O ministro passou à história como o artífice da “Lei Falcão”, aquela que limitou drasticamente a aparição de políticos no rádio e na televisão, para tentar evitar a vitória oposicionista. Já na música “Rio Brígida”, Gonzaga é pródigo em louvações aos ex-governadores pernambucanos José de Moura Cavalcanti, Marco Maciel e Nilo Coelho, todos indicados pelos generais da ditadura.

Para o pesquisador e jornalista paraibano Assis Ângelo, autor do Dicionário Gonzagueano – um ABC sobre vida e obra de Luiz Gonzaga, esses “deslizes” não comprometem a biografia do “Rei do Baião”. “Politicamente, Luiz Gonzaga era um ser muito conservador. Isso está claro em algumas de suas letras. Para ele, só havia um partido político: o do governo. O fato de ele se relacionar com o advogado, ex-deputado e ex-ministro Armando Falcão, e com o general João Baptista Figueiredo, não pesou nada na sua visão de Nordeste, do nordestino e do Brasil. É bom que não se esqueça: Gonzaga sempre foi um homem do povo”, argumenta o jornalista.

Na visão de Assis Ângelo, Luiz Gonzaga permanecerá no imaginário brasileiro como o cantador cuja vida foi andar por esse País, cantando xote, baião, toada, xaxado, e por aí vai, sempre com a esperança de um ano “chovedor” no sertão, por mais que a terra queime tal qual fogueira de São João. Para o pesquisador, o imenso legado musical de Gonzaga pode ser medido pelo acervo de músicas que compôs, sozinho ou junto com parceiros, como o médico cearense Humberto Teixeira. Foram 625 títulos no total, nos mais diversos gêneros. “A obra musical de Luiz Gonzaga ultrapassou fronteiras e foi gravada em várias línguas, entre as quais a japonesa, a inglesa, a francesa, a espanhola e até em rapano, idioma falado em uma das ilhas da Polinésia. Ele colocou o Nordeste brasileiro no mundo, e isso não é pouco”, enfatiza.

No Brasil, são raros os artistas de destaque que não incluem músicas dele no seu repertório. Nem o papa da bossa nova, João Gilberto, ficou indiferente ao fascínio gonzagueano e compôs “Bim Bom”, falando de “baiãozinho” e coisas tais. Artistas do Cone Sul, incluindo a Argentina, gravaram Gonzaga. “Por sinal, na Argentina, uma lei foi feita para impedir a ‘influência’ da música estrangeira. O motivo era Gonzaga”, conta Assis Ângelo.

Por causa do artista, a sanfona, um instrumento de origem europeia, virou símbolo da cultura nordestina. “Luiz Gonzaga tinha um virtuosismo na sanfona e qualidades fora do comum como cantor e compositor. Ele adotou o fole de 120 baixos, atualizou o instrumento e criou uma linguagem muito avançada, dentro do gênero do baião”, aponta Carlos Ernest Dias, professor de Música Popular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Antes de virar mito, Luiz Gonzaga do Nascimento, filho do sanfoneiro Januário José dos Santos e da cabrocha de indescritíveis olhos verdes Ana Batista de Jesus, já dava sinais de que iria longe. Desde pequeno, se destacou na sanfona, animando bailes e festejos juninos no sertão do Araripe. Após passar nove anos no Exército como cabo corneteiro, começou a carreira artística tocando nos cabarés da Lapa, no Rio. Chegou a apresentar-se na rua, passando o pires para recolher alguns trocados. A partir de 1945, com o início da parceria com Humberto Teixeira, espocaram sucessos populares, tendo como inspiração principal o ritmo nordestino.

Gonzaga apresentou-se diante de presidentes como Eurico Gaspar Dutra e José Sarney, e para o papa João Paulo II. Mas o verdadeiro reconhecimento do valor de sua obra só veio à tona em 1984. Naquele ano, Luiz Gonzaga foi o grande homenageado na noite de entrega do Prêmio Shell para os melhores da Música Popular Brasileira. Prêmio considerado justo e merecido pela crítica, entregue a quem, em muitos anos de carreira artística, somente recebeu dois Discos de Ouro. Foi o terceiro artista mundial a receber o Nipper de Ouro da gravadora RCA, pelo conjunto da obra, prêmio entregue anteriormente apenas a Elvis Presley e Nelson Gonçalves.

O cantador teve muitas quedas e renascimentos ao longo da carreira. Volta e meia, após um perío­do de lua minguante, seu nome aportava na mídia. Gilberto Gil foi responsável por um dos momentos de lua cheia quando, no auge do Tropicalismo, declarou que uma de suas principais influências era Luiz Gonzaga. Caetano Veloso também exaltou o sanfoneiro e chegou a gravar algumas de suas canções. Em outra oportunidade, o produtor Carlos Imperial espalhou a notícia de que os Beatles iriam gravar “Asa Branca”. Era mentira, mas o boato ajudou o artista a voltar às manchetes. Na década de 1980, foi a vez de Gonzaguinha, já famoso por seu próprio talento, levantar o velho Lua. Pai e filho fizeram shows memoráveis pelo País, superando a conturbada relação que tinham até então.

A última aparição de Gonzaga foi num show realizado em 6 de junho de 1989, no Teatro Guararapes do Centro de Convenções de Recife. Cansado e com progressiva perda de memória, já não lembrava sequer de “Asa Branca”, um dos primeiros sucessos. Nada disso importava: ovacionado, recebeu homenagens de vários artistas do País. Ao final, emocionado, declarou: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana.”

O Rei do Baião morreu em 2 de agosto de 1989, às 5h15 da manhã, no Hospital Santa Joana, no Recife, vitimado por complicações causadas por um carcinoma de próstata. Antes, na UTI, desculpou-se: “Vocês não me levem a mal, sinto muitas dores. Gosto de aboiar (dirigir ao gado o canto para reuni-lo), quando deveria gemer.” F



No artigo


x