Toques Musicais

Tonico e Tinoco e Arismar do Espírito Santo

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Por Julinho Bittencourt

Era comum ouvir (como é, até hoje) que o nosso povo, “sem cultura”, ouve e reverencia esta música pobre das duplas caipiras. O autor da frase, disseminada por entre milhões pelas nossas grandes cidades, mal tem ideia de que, ele próprio, é quem é o portador da ignorância tamanha que se arvora a apontar. Ao confundir cultura – do latim colere, cultivar – com “verniz” social, desanca aquela que talvez seja a maior herança cultural de qualquer país: a sua tradição oral, que, é claro, vem de lá das nossas comunidades rurais. Aquelas que, como se diz nos jargões da Sociologia, ainda não foram aculturadas.

A primeira dessas duplas caipiras a quebrar frontalmente a barreira das grandes cidades é, sem sombra de dúvida, a formada pelos irmãos Perez, que ficou nacionalmente conhecida como Tonico e Tinoco. Portadores de uma vida muito parecida com a de inúmeras outras duplas, os dois foram filhos de trabalhadores rurais e, não fosse o talento musical, teriam seguido pelo mesmo caminho.

O fato é que a música estava no caminho e mudou radicalmente o destino dos Perez. Depois de inúmeras idas e vindas da família por cidades do interior em busca de trabalho, foram levados, em 1940, pelo administrador da fazenda em que trabalhavam, em São Manuel (SP), para cantar na rádio da cidade. O sucesso só veio seis anos depois, em São Paulo, com o clássico “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro, com o qual conseguiram comprar a primeira casa própria para a família.

De lá para cá, foram 150 milhões de cópias vendidas, com quase mil gravações divididas em mais de 80 discos. Tinoco, que nos deixou aos 91 anos no último dia 4 de maio, é o artista sertanejo com a carreira mais longa do Brasil. Foram 82 anos que, a rigor, só terminaram na mesma semana em que morreu, ao se apresentar no programa Viola Minha Viola, de Inezita Barroso.

A importância da dupla para a nossa música – e cultura – ainda está para ser reconhecida. Quebraram barreiras até então intransponíveis e colaboraram para que o Brasil se reconheça em sua plenitude. Depois de rodar por todas as partes, tocar em circos, galpões e toda a sorte de palcos que se possa imaginar, em 6 de junho de 1979 tornaram-se a primeira dupla caipira a se apresentar no prestigiado Teatro Municipal de São Paulo. Nesse dia, os peõezinhos da “Beira da Tuia” se consagraram diante de um público recorde de 2,5 mil pessoas, extasiado com a genialidade da sua música.

Já no final da vida, em toda a parte por onde Tinoco passava era a mesma coisa. Em 2011, durante a gravação do DVD Amizade sincera, de Sérgio Reis e Renato Teixeira, dois dos maiores expoentes e herdeiros do seu legado, o show foi interrompido para avisar que ele estava na plateia. Tinoco foi, então, aclamado de pé por um comovido público. Todos ali sabiam muito bem. Não fosse ele, provavelmente nada daquilo estaria acontecendo.

Para além da saudade, não há o que lamentar. Tinoco teve uma vida plena. Foi aplaudido e reconhecido até o último minuto por uma obra insubstituível. Ao lado de seu irmão, representa a vitória de um país e de um tempo. Num momento em que a influência estrangeira desmoronava com a construção de um novo país, a dupla Tonico e Tinoco nos redesenhou. Nos mostrou que, acima de tudo, existimos por conta própria, pois temos, sim, uma rica e adorável cultura.

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O multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo mata a charada sobre si próprio com o título do seu novo disco: Alegria nos dedos. Quem já ouviu esse santista cidadão do mundo tocar um de seus vários instrumentos não duvida. Arismar explode em sons, melodias bonitas e inesperadas, técnica, virtuose, sensibilidade e muita alegria, a cada vez que toca.

Já não é de hoje que o músico é uma espécie de coringa dos estúdios, Brasil afora. Precisa de um baixista? Chama o Arismar. Baterista, guitarrista, pianista? Idem. Capaz de tocar qualquer música em qualquer tom em quase qualquer instrumento, poucas vezes parou para mostrar o seu som, as suas composições e reinterpretações. Quando faz é, de fato, uma alegria, tanto para ele, um eterno alto-astral de bem com a vida, quanto para o seu fiel público.

Entre parcerias e solos, Alegria nos dedos é o seu oitavo disco em mais de 30 anos de carreira, ou seja, um momento raro. Arismar conta que fez as músicas num espaço de três anos, sempre pensando nos timbres dos instrumentos dos músicos que iriam gravar cada composição. E estes convidados são uma constelação da boa música, como a flautista Léa Freire; Vinícius Dorin, no sax; Dominguinhos, no acordeão, seus filhos Bia Góes, na voz, e Thiago do Espírito Santo, no contrabaixo, além de Serginho Coelho, no trombone e Daniel D’alcântara, no trompete.

No mais, é Arismar no violão de sete cordas, na guitarra, bateria, piano, baixo acústico e sem traste, além das composições e produção musical. E as composições são um caso à parte. Não pense o leitor que vai se deparar com mais um daqueles discos de música instrumental em que só os músicos se divertem. Arismar faz questão de tocar para todos com graça e leveza, sem com isso abrir mão de seu talento infinito.

Melodias comoventes e líricas como “Debaixo do cajueiro”, que conta com a participação de Dominguinhos, ou a belíssima “Valsa curitibana”, interpretada por Léa Freire, contrastam com o vigor rítmico e melódico de “Turmalina”, com Vinícius Dorin, e “Gafifa”, com Daniel D’alcântara. O disco é uma sucessão de surpresas, como a inventiva “Santos x Corinthians”, na qual pai e filho “quebram tudo” num limite musical que, assim como no jogo, alterna climas e clímax, tensão e alegria.

Arismar conta que iniciou a concepção do disco com base nas melodias, sem contagem nem metrônomo. Deixou o tempo o mais solto possível para depois, a partir das gravações em duo com os convidados, cobrir as faixas com os instrumentos de base.

Com isso, Alegria nos dedos se tornou uma gravação rara, em que a música extremamente elaborada pelos anos de experiência soa natural, instantânea. Uma comunhão de alegria entre o artista, seus convidados e sua música. Uma celebração da vida que o músico gentilmente reparte com seus amigos e o público.



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