Um baseado, por favor

Na Holanda, a legalização da maconha não significou maior consumo: nos Estados Unidos, onde a cannabis é proibida, 14% dos habitantes admitem fumar baseados, contra 5% dos holandeses

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Na Holanda, a legalização da maconha não significou maior consumo: nos Estados Unidos, onde a cannabis é proibida, 14% dos habitantes admitem fumar baseados, contra 5% dos holandeses

Por Vange Leonel

A cena é comum. Um trio de adolescentes entra no estabelecimento e o balconista pede que mostrem suas carteiras de identidade. Confirmando que são todos maiores de idade, o vendedor começa a abrir uma série de tupperwares para que os jovens possam apreciar os aromas e buquês das plantas e resinas. Há ali maconha e haxixe de vários sabores, potências e procedências geográficas. Eles escolhem a erva que mais lhes apetece, papel para enrolar e três xícaras de café com leite. Sentam-se num sofá para consumir o baseado e suas bebidas não alcoólicas. Em seguida, entra um profissional liberal local, que compra 1 grama de seu haxixe favorito, mistura uma parte com tabaco e dá uns tragos antes de voltar pra casa. O ambiente é calmo. O vendedor do coffeeshop sai à rua para espairecer e é saudado pelo moço da cervejaria em frente e pela garçonete da lanchonete ao lado.

Na Holanda, a maconha e o haxixe são legalizados, e podem ser comprados e consumidos nos coffeeshops (que são proibidas de vender álcool) ou dentro de casa. Esta política de tolerância às drogas leves, que tem como objetivo reduzir os danos causados por seu consumo e comércio, provou-se eficaz. Nos últimos anos, o número de viciados em drogas pesadas se estabilizou, e a idade média dos usuários aumentou para 38 anos. Ou seja, a garotada holandesa prefere consumir drogas leves. Além disso, a legalização da maconha não significou maior consumo: nos Estados Unidos, onde a cannabis é proibida, 14% dos habitantes admitem fumar baseados, contra 5% dos holandeses.

Mesmo bem-sucedida, essa política de tolerância vem sofrendo ataques dos partidos de direita. Isso porque a recessão econômica e a crise europeia se avizinham, a taxa de desemprego só faz subir e os mais conservadores temem os custos sociais de um “turismo de ocasião” que atrai usuários da Bélgica e Alemanha às cidades fronteiriças apenas para comprar maconha. Soma-se a isto o fato de existir hoje uma boa oferta de variedades mais potentes de cannabis, que trazem maior risco à integridade física do usuário e, portanto, mais gastos com o sistema público de saúde, afetando o bolso do contribuinte.

Algumas cidades fronteiriças, como Maastricht, já restringiram o acesso de estrangeiros aos coffeeshops num esforço de diminuir o turismo de drogas. Mas a emenda parece ter saído pior que o soneto: a polícia local registrou aumento de vendas ilegais de maconha, das prisões de pequenos traficantes e uma inédita percepção de insegurança nas ruas. Assim, a ilegalidade da maconha já começa a inflar as estatísticas de criminalidade em Maastricht.

Enquanto isso, em Amsterdã, os donos de coffeeshops tentam resistir à implementação de qualquer lei que proíba o acesso a turistas a seus estabelecimentos. Perguntei a um comerciante de cannabis se a cidade iria proibir maconha para estrangeiros, e ele respondeu: “Não tem nada disso, não.” Dos 4 milhões de turistas que visitam anualmente Amsterdã, 1 milhão vai à cidade para degustar maconha e haxixe. Não é pouco. A cidade convive bem com seus coffeeshops e, além disso, seus habitantes não parecem estar dispostos a perder 25% da sua receita turística ou aumentar a insegurança e a criminalidade nas ruas. Na verdade, o álcool é que é considerado problema de saúde pública, muito mais que as drogas leves.

Uma proposta intermediária que está sendo discutida é classificar as variedades hiperpotentes de cannabis como drogas pesadas. Os coffeeshops continuariam a vender variedades leves a estrangeiros, restringindo as mais fortes a cidadãos holandeses. Uma coisa é certa: proibir as leves, mesmo que apenas a estrangeiros, vai acabar com o clima de cordialidade e tolerância que predomina na cidade. E com o dinheiro do turismo também. F



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1 comment

  1. Victor RF Responder

    Excelente matéria, parabéns.


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