Uma só esfera

Confira abaixo um trecho do novo livro de Ignacio Ramonet, A explosão do jornalismo - Das mídias de massa à massa de mídias, que discute o poder dos grandes grupos midiáticos e como eles passam a se estruturar no novo cenário global

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Confira abaixo um trecho do novo livro de Ignacio Ramonet, A explosão do jornalismo – Das mídias de massa à massa de mídias, que discute o poder dos grandes grupos midiáticos e como eles passam a se estruturar no novo cenário global

Por Ignacio Ramonet

O verdadeiro poder é, a partir de agora, mantido por um feixe de grupos econômicos e financeiros planetários e de empresas globais, cujo peso nos negócios do mundo é, às vezes, mais importante que o dos Estados. Eles são os “novos mestres do mundo”.

Nesse novo quadro geoeconômico, produziu-se uma metamorfose decisiva no campo das mídias de massa. A “revolução digital” quebrou as fronteiras que separavam as três formas tradicionais de comunicação: o som, a escrita e a imagem. Ela favoreceu o desenvolvimento da web. A internet representa um quarto modo de comunicar, uma nova maneira de se expressar, de se informar, de criar, de consumir, de se distrair, de estabelecer relações…

As empresas midiáticas procuram agrupar em seu interior todas as mídias (edição, fotografia, imprensa, rádio, cinema, televisão, internet), mas também todas as atividades das três grandes esferas: a cultura de massa, a comunicação e a informação. Essas esferas eram antes autônomas. De um lado, a cultura de massa, com sua lógica comercial, suas criações populares, seus objetivos essencialmente mercantis. De outro, a comunicação, a publicidade, o marketing, a propaganda, a retórica da persuasão. Enfim, a informação, com suas agências de notícias, os boletins radiodifundidos ou televisionados, a imprensa escrita, os canais de informação contínua, os sites de informação, os blogues, o universo de todos os jornalismos.

Essas três esferas, antes tão diferentes, imbricaram-se pouco a pouco para constituir uma única esfera ciclópica, no interior da qual se torna cada vez mais difícil distinguir as atividades provenientes da cultura de massa, da comunicação, da informação ou da internet. A internet absorve tudo, ela é totalizadora.

Além disso, essas novas empresas midiáticas, produtoras de símbolos, difundem mensagens de todo tipo, nas quais se misturam televisão, desenhos animados, cinema, videogame, CD, DVD, edição, websites, parques de diversão (gênero Disneyland), esporte-espetáculo etc.

Em outros termos, as novas empresas de mídias possuem duas singularidades: primeiramente, elas se ocupam de tudo o que deriva da escrita, da imagem e do som, e difundem pelos canais mais diversos (imprensa escrita, rádios, televisões, web, telefone, tablets). Em segundo lugar, essas empresas são planetárias, globais, e não somente nacionais ou locais.

Mas os novos gigantes da rede, como Google, Yahoo! ou Facebook, contam com uma vantagem decisiva: eles nasceram dentro do novo ecossistema e são muito mais bem-adaptados a um ambiente no qual a web é o oxigênio.

Em 1941, Orson Welles atacava o “superpoder” do Cidadão Kane. No entanto, comparado ao dos colossos midiáticos planetários atuais, o poder de Kane era insignificante. Proprietário de alguns jornais da imprensa escrita em somente um país, Kane dispunha de um poder minúsculo (sem ser, apesar disso, desprovido de eficácia em escala local ou nacional) diante do poder de fogo dos novos mastodontes midiáticos.

Uma matéria-prima estratégica

A comunicação (estendida à informática, à eletrônica e à telefonia) tornou-se uma “matéria-prima estratégica”, controlada pelos novos gigantes desses setores. O volume de vendas das indústrias de comunicação, no sentido amplo (informática, internet, telefonia, mídias, cultura, videogames, publicidade, redes sociais), que era de cerca de 1 trilhão de euros em 1995, alcançou, em 2010, a marca de 3 trilhões de euros, representando cerca de 15% do PIB mundial.

A globalização é então – também – “a globalização das mídias de massa”, da comunicação, da informação e da web. De um ponto a outro do planeta, os senhores das redes são os mesmos: Time Warner, Walt Disney Company, News Corporation e Bertelsmann, que dominam as indústrias de entretenimento; Hewlett Packard, Samsung, Dell e Hitachi, primeiros grupos de eletrônicos de grande consumo; AT&T, NTT, Verizon e Deutsche Telekom, que dominam o mercado das telecomunicações; Alcatel, Nokia, Cisco Systems e Motorola, principais produtores de equipamentos de telecomunicações; Hewlett Packard, Dell, Acer e Lenovo, que reinam no mercado de materiais de informática; Microsoft, Oracle Corporation, Symantec e SAP AG, primeiros fabricantes de programas de informática; Facebook, MySpace, Twitter, principais redes sociais; Google, Yahoo! e Bing, liderando os sites de busca; e outras firmas planetárias como Apple, Sony, LG, Philips, eBay (proprietária do PayPal), Amazon etc.

Preocupados com a continuidade de seu gigantismo e com a conquista de novos mercados, que os obrigam a cortejar os outros poderes, os grandes grupos midiáticos não se propõem mais, como objetivo cívico, a ser um “quarto poder” nem a denunciar os abusos contra o direito ou corrigir as disfunções da democracia. Eles não querem sequer se apresentar como um “quarto poder”, e ainda menos agir como um contrapoder.

Se eles continuam a invocar-se como um “quarto poder” é porque somam-se agora aos outros poderes dominantes: político, econômico e financeiro. E porque eles quase não têm mais escrúpulos em dominar, por sua vez, como poder suplementar, os cidadãos.

Guerras midiáticas

Como resistir à ofensiva deste novo poder que, de alguma maneira, traiu os cidadãos e passou com armas e equipamentos para o lado do “opressor”?

Nós propusemos a criação de um quinto poder, cuja função seria denunciar o superpoder de alguns grandes grupos midiáticos que, em certas circunstâncias, deixaram de defender os cidadãos e passaram a agir contra eles. Isso se constata, atualmente, em inúmeros países.

Na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Argentina e em outros Estados onde a oposição conservadora foi derrotada em eleições democráticas, os principais grupos de imprensa, de rádio e de televisão iniciaram uma verdadeira guerra midiática contra a legitimidade dos novos presidentes, respectivamente Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e Cristina Kirchner.

Nos Estados Unidos, as mídias de direita republicana também não aceitaram a eleição, em 2008, de Barack Obama. Suas “ofensivas de ódio” contra as diferentes medidas preconizadas pela administração Obama, em particular contra a reforma da Saúde, conduziram a uma polarização extrema da vida política. Elas favoreceram o crescimento do Tea Party, um movimento que se declara de linha-dura da direita e cujos partidários exibem grandes fotos de Barack Obama caricaturado com o bigode de Hitler. Rush Limbaugh, animador de rádio ultraconservador, considerado uma das 50 personalidades midiáticas mais influentes dos Estados Unidos, recebe 50 milhões de dólares por ano para provocar e atacar incansavelmente Barack Obama, que ele qualifica de “negro mágico”, de “cretino” e de “demoníaco”.

As mídias ultraconservadoras que pertencem ao grupo News Corp de Rupert Murdoch, principalmente o canal Fox News, constituem o aríete de todas essas campanhas. O animador vedete da Fox News, Glenn Beck, é conhecido por ter qualificado Barack Obama de “racista”. Nos canais a cabo populistas, todas as noites, um outro astro, Bill O’Reilly, ataca Obama baseado em falsas verdades, fazendo alusões com traços racistas e escarnecendo dos muçulmanos. Com sua retórica envenenada, essas mídias excitam e galvanizam os americanos todos os dias, 24 horas por dia. Elas instilam uma paranoia permanente e criam um perigoso clima de violência. Alguns analistas as acusam de serem os “autores intelectuais” da chacina de Tucson, em 8 de janeiro de 2011, quando um jovem de 22 anos atirou contra um comício democrata, matando seis pessoas e ferindo outras 14, entre elas a congressista democrata do Arizona, Gabrielle Giffords, atingida gravemente na cabeça.

Aparelhos ideológicos da globalização

Na nova guerra ideológica imposta pela globalização, as mídias são utilizadas como uma arma de co



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