Petrobras – crônica de um prejuízo anunciado II

Admitir um erro é meio caminho para supera-lo. A presidenta da Petrobras fez isso ao expor os motivos do prejuízo da empresa. Todavia, essa admissão de erro ainda é parcial e insuficiente. A prospecção...

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Admitir um erro é meio caminho para supera-lo. A presidenta da Petrobras fez isso ao expor os motivos do prejuízo da empresa. Todavia, essa admissão de erro ainda é parcial e insuficiente. A prospecção malsucedida em 41 poços de petróleo no pré-sal, totalizando uma perda de R$ 2,7 bilhões, entre 2009 e 2012, foi colocada de uma única vez no balanço da empresa, do ponto de vista contábil este foi o principal motivo pelo rombo bilionário nas contas do trimestre (abril/junho de 2012). Como a exploração de petróleo envolve uma dose de risco, entende-se o fracasso. Porém, o mais usual seria a distribuição deste prejuízo em diversos balancetes e não da forma feita pela atual direção da Petrobras. O que levou à esta decisão, se foram motivos técnicos ou de demarcação com a gestão anterior, cabe à empresa responder, mas para efeito desta análise não vem ao caso. O fato que desejo destacar é que a obsessiva concentração de investimentos da empresa no pré-sal poderá leva-la a fracassos ainda maiores que os revelados com o bilionário prejuízo.  E este fato ainda não foi reconhecido, nem pela direção da Petrobras, nem pelo governo e nem por analistas de mercado.

De que adianta encontrar um imenso diamante em um asteróide, como nas estórias de Tio Patinhas (ou Pato Donald), se não conseguimos retira-lo e transporta-lo em segurança? O pré-sal ainda é uma promessa. É um tesouro acumulado em milhões de anos e muito bem guardado. Será que o atual conhecimento científico e tecnológico é suficiente para sua extração no ritmo desejado? Não seria melhor investir mais em pesquisa e desenvolvimento, em técnicas de exploração mais limpas e seguras (como avançados estudos sísmicos) e menos em brocas, em força bruta? Para os vendedores ou locadores de brocas, é melhor a broca, afinal, mesmo um poço seco, que não rende uma única gota de petróleo, rende 300 milhões de dólares (e foram 5 os poços fracassados que tiveram este custo unitário). Mas e para o povo brasileiro, que é o verdedeiro dono da Petrobras, ou mesmo para os pequenos acionistas do país,  será que esta foi a decisão mais acertada? Para os acionistas internacionais, provavelmente sim, pois eles são, ao mesmo tempo, acionistas da exploração e acionistas das empresas que vendem brocas e outros serviços mal sucedidos do negócio petróleo, se perdem de um lado ganham de outro.

Ainda há tempo. O governo e a Petrobras precisam reverter urgentemente seu plano de investimentos, pois é aí que está localizada a razão do atual e de futuros prejuízos. Isso não significa abandonar a pesquisa no pré-sal ou mesmo sua exploração, mas faze-lo em bases mais seguras e inteligentes, em atitude menos ávara e obsessiva. O Brasil não precisa extrair quatro milhões de barris em 2020, ainda mais se não tem parque industrial para processar esse óleo. Mas o Brasil precisa ter um parque de refino que dê conta de suas necessidades de combustíveis e derivados de petróleo. E a construção deste parque está sendo negligenciada e atrasada exatamente pela decisão equivocada em relação à concentração no pré-sal.

Mais refinarias e menos poços de petróleo. Mais valor agregado e menos óleo bruto. Esta deveria ser a meta. De que adianta produzir petróleo se ele terá que ser processado em outros países. Ao agir desta forma, o governo federal e a Petrobras estarão reproduzindo o mesmo modelo de subdesenvolvimento que vigora há 5 séculos. No limite, se tivéssemos que tomar uma escolha por exclusão, seria melhor, do ponto de vista dos interesses nacionais e mesmo da empresa, importar petróleo e exportar gasolina, óleo diesel, querosene de aviação, nafta e demais derivados. Seria mais lucrativo. Por que se opta pelo inverso, pelo bruto, pelo baixo valor agregado?

É mais vantajoso, tanto do ponto de vista econômico como dos interesses estratégicos do país, investir no parque de refino que na mera exploração. Há um mercado cativo, com demanda por derivados de petróleo (o que resultou em um déficit de US$ 10 bilhões no ano de 2011) e em franco crescimento (nos próximos 8 anos serão mais 30 milhões de veiculos automotivos na frota, mesmo número que o país levou mais de um século para alcançar). Por que não atende-lo com qualidade? E ir elevando a exploração e extração de petróleo na medida que o parque de refino vai sendo ampliado. Mas a realidade de investimentos e atenção da Petrobras vai, infelizmente, no sentido contrário. A política em biocombustíveis revela-se frágil, irregular, além de ser tiste, muito triste, ver a protelação em relação às refinarias do nordeste, que poderiam levar tanto desenvolvimento regional, tantos empregos de qualidade.

Até a decisão em retardar um pouco mais a extração deste óleo (não na totalidade, mas em parte, em um crescimento mais parcimonioso) tem mais sentido econômico. É melhor investimento manter parte destas reservas armazenadas no subsolo oceânico e ir fazendo a extração apenas na medida que o país tem capacidade de processar e agregar valor que exporta-lo em estado bruto. Petróleo é um recurso finito, cujo preço só tende a aumentar e, por isso mesmo, seu uso tem que ser muito bem avaliado.  De que adianta exportar hoje a cem dólares o barril e ficar sem petróleo no futuro, tendo que importa-lo pelo dobro ou triplo do valor (a Indonésia é exemplo de país que exportou petróleo a um preço baixo e agora o importa a um preço muito mais elevado)? Seria uma boa decisão estratégica a serviço dos interesses da própria empresa (incluindo os acionistas que não são especuladores na bolsa de Nova York), do país e das futuras gerações. Além do acerto ético em evitar um roubo sobre o patrimônio de nossos filhos e netos. Ainda há tempo e o governo tem todas as condições para acertar mais e melhor. É o meu sincero desejo.

 



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1 comment

  1. Haroldo Lago Responder

    Usaram tanto essa informação – manipulando-a para valorizar e desvalorizar as ações, que a credibilidade foi para o ralo. Os mal intencionados combatem a privatização da Petrobrás. Eu defendo a estatização da empresa, pois ela já está privatizada nas mãos dessa quadrilha.


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