Paulo Coelho, James Joyce e a defesa dos monumentos como desejo de distinção

Um dos efeitos mais daninhos do abismo de letramento existente na sociedade brasileira entre aquela ínfima minoria que maneja os códigos da cultura erudita e a esmagadora maioria iletrada tem lugar não naquela...

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Um dos efeitos mais daninhos do abismo de letramento existente na sociedade brasileira entre aquela ínfima minoria que maneja os códigos da cultura erudita e a esmagadora maioria iletrada tem lugar não naquela nem nesta ponta do espectro, mas na fatia comumente chamada em inglês de midbrow, ou seja, o leitor não-especializado, geral, consumidor de revistas e jornais, mas não necessariamente familiarizado com os códigos da cultura erudita (lembrando, pra começar a conversa, que no Brasil é praticamente impossível usar esses conceitos – erudito, de massas, midbrow – sem ser acusado de hierarquizá-los, como se eles fossem categorias morais e não conceitos sociológicos). Em sociedades onde o letramento foi mais universalizado – não falemos dos países do Atlântico Norte, limitemo-nos à Argentina, nação mais comparável à nossa –, o leitor midbrow tende a se relacionar, creio eu, de forma menos angustiada com os códigos, tanto da cultura erudita como da cultura de massas. Em sociedades como a nossa, onde há um abismo de letramento, uma das formas através das quais o leitor midbrow tenta aceder a certa distinção associada com a cultura erudita é no ataque sistemático às formas da cultura de massas. Demonstrar desprezo pelo funk carioca ou pelo tecnobrega constroi, imaginariamente para o leitor midbrow, alguma comunhão com a esfera da cultura erudita da qual ele está, na maior parte do tempo, excluído.

É isso que está em jogo num dos esportes nacionais: atacar, vilipendiar, desprezar e achincalhar Paulo Coelho. Já havia acontecido com Jorge Amado, autor com o qual, apresso-me em ressalvar, Coelho tem pouco em comum. No caso de Paulo Coelho, esse esporte é jogado com muito mais frequência em jornais e revistas – veículos da cultura midbrow por excelência – do que nos espaços da cultura erudita propriamente tal.

Ao contrário da Argentina, o Brasil não possui uma grande tradição de literatura de entretenimento, popular e de consumo massivo. Gêneros como o romance policial e a ficção científica, que construíram poderosas tradições no país vizinho, nunca floresceram no Brasil com vida independente. Isso não quer dizer que boa literatura policial não tenha existido no Brasil. Só significa que nos casos em que isso aconteceu (Rubem Fonseca, por exemplo), seus autores transitavam pelos códigos da cultura erudita e eram consumidos como tal. Coleções de livros massivamente vendidos em bancas de jornal sempre foram casos raros entre nós. Mesmo quando essas coleções existiram – como a “Imortais da Literatura Universal”, da Editora Abril, que fez sucesso em bancas durante a ditadura –, não era uma literatura nacional de entretenimento que se vendia.

Paulo Coelho é uma figura solitária nesse espaço. Não há escritor vivo, em nenhuma língua neolatina, que tenha vendido mais livros que Paulo Coelho: são 140 milhões de exemplares, em 73 línguas e pelo menos 160 países. Chegou a lugares que nem Pelé nem Sepultura jamais chegaram. Gente que nunca havia lido um livro, leu Paulo Coelho. Seu escritório recebe centenas de emails diários com testemunhos de como seus livros transformaram a vida de leitores. Ao contrário de outros escritores que vendem milhões, como John Grisham e Dan Brown, Paulo Coelho arrasta milhares de pessoas para onde vai. Coelho fez mais pela formação de um público leitor no Brasil que qualquer uma das tolas campanhas do Ministério da Cultura, como esta última – leia mais, seja mais, duplamente errada, já que “ler mais” não garante a ninguém “ser mais”, e leitores não se formam a partir da missão de “ler mais”, mas de ler aquilo de que gostam. A campanha tem a cara de uma Ministra que visivelmente não lê nada e que, portanto, mantém com a leitura uma relação fetichista — mais, mais, mais.

Como ocorre com 90% dos autores que leio, alguns textos de Paulo Coelho me agradam, outros nem tanto. Gosto muito, por exemplo, de Onze Minutos, que considero um belo livro. Mas, nessa questão, sempre fui caetânico: é muito melhor que se leia qualquer coisa, desde que você goste. A chance de que um livro leve a outro livro é infinitamente maior de que ele leve de volta à não-leitura. E, neste aspecto, Paulo Coelho tem feito um bem imenso à literatura. Para não falar, claro, das suas posições corajosas em questões como a biografia proibida de Roberto Carlos escrita por Paulo César de Araújo ou a defesa do direito de reprodução e circulação de arquivos na internet.

Nesta semana, Paulo Coelho foi atacado de todos os lados por uma entrevista à Folha em que dizia que Ulysses havia feito mal à literatura e que o romance cabia num tuíte. Na verdade, a proposição de que Joyce mata o romance é um dos grandes clichês da crítica literária do último século. Paulo não disse nada absurdo nem original. É a pura verdade que Joyce leva o romance ao seu limite – depois de Ulysses, só há variações sobre o que Joyce fez ou um retorno a formas prejoyceanas. Quanto à boutade de Paulo, de que o romance cabe num tuíte, nada mais verdadeiro. Hamlet, Anna Karenina, Guerra e Paz e Édipo Rei também cabem. Aliás, este joyceano fanático que vos fala já resumiu Ulysses em um parágrafo numa das celebrações do Bloomsday n’O Biscoito Fino e a Massa.

Onde está, portanto, o escândalo? Em lugar nenhum, a não ser na desesperada tentativa de defender um monumento da alta cultura para, com isso, acumular alguns pontinhos na escala da distinção. O problema é que isso é, ironicamente, contraditório com a própria obra joyceana. Joyce não é Proust, que detestava o cheiro de povo. O mundo de Joyce é o da cerveja, dos pilantras, das safadas e dos cornos, das cantorias bêbadas nos becos. Em todas as celebrações anuais do Bloomsday em meus blogues, sempre me bati contra o mito do Joyce “ilegível”.  Por vezes difícil, sim, Ulysses é, acima de tudo, um livro divertido e debochado. Na tentativa midbrow de distinção, é melhor agarrar outro monumento. Tente Proust ou Musil. Com Joyce não funciona. Dizer ‘prefiro Joyce a Paulo Coelho’, por exemplo (uma das infinitas bobagens que foram ditas), demonstra total incompreensão de ambos: pilar da obra joyceana é a permeabilidade mas também a irredutibilidade entre cultura popular e cultura erudita. Ao mesmo tempo em que se apropriava de rimas, baladas, canções patrióticas, folclore, slogans e várias outras formas da cultura popular, Joyce sempre insistiu que o valor dessas formas era próprio, irredutível à esfera da cultura erudita à qual pertence sua obra literária.

Em outras palavras, Joyce daria gargalhadas de seus “defensores” contra as heresias do Mago.



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68 comments

  1. denise bottmann Responder

    concordo em número, gênero e grau. até comentei no facebook, no dia daquele factoide:

    “será que só eu não sei ler ou entendi tudo errado? andam apedrejando com gosto e boca cheia o paulo coelho, que supostamente teria dito que joyce fez mal à literatura.

    li, reli a matéria e o que entendi não foi isso, não.
    a frase que tem alvoroçado meio mundo é: “”Os autores hoje querem impressionar seus pares”, opina. E aponta em seguida o culpado: “Um dos livros que fez esse mal à humanidade foi ‘Ulysses’ [clássico de James Joyce], que é só estilo.”

    “pô, que novidade há nisso????
    o que entendi que ele disse foi que a experimentação formal do joyce criou um impasse, e depois dele os autores passaram a ficar selfconscious demais – isto é, com joyce chegou-se a um patamar de “inovação” literária em termos formais que criou uma espécie de beco sem saída para a prática literária, em que o autor sente uma certa necessidade de ganhar aprovação entre seus pares e lutando para ser aceito pela crítica (aquela que acha lindo querer uma “literatura exigente”….).

    “claro que ele usou termos mais simples, mas o sentido que entendi foi este, e tal fenômeno é evidente, pelo menos para mim – e essa morte da literatura (da modernidade) é algo mais do que aceito, reconhecido, exaustivamente estudado, analisado e sentido faz muitas décadas, tanto pela crítica literária quanto pelos próprios autores. na verdade, chega a ser um clichê. agora, só porque foi o paulo coelho que falou, vira esse escândalo todo?”

    pessoalmente, não gosto da obra dele, mas respeito e admiro sua capacidade de se tornar fenômeno de massa, associada a uma magistral capacidade de autopromoção (termo ao qual, esclareço, não associo necessariamente nenhuma carga pejorativa).

    a reação do guardian foi absurda.

    1. idelberavelar Responder

      Perfeito, Denise.

    2. Immanuel K Responder

      Paulo Coelho já pertence à IAF – International Franchising Association?

  2. Tatiana Responder

    Bacana, Idelber!
    Fazia tempo que não vai um professor de literatura agindo como tal, falando de livros, ao invés de só teorizar sobre eles.

  3. Henrique Responder

    O Aleph tem bons momentos. E quem lê QUER saber onde aquilo vai dar. É uma narrativa envolvente. Midbrow, sim, mas que leva o (bom) leitor além. Paulo Coelho tem mais substância e honestidade que 90% dos mais vendidos nas LaSelvas dos aeroportos, muy bem-frequentadas por gente AB.

  4. Pedro Marques Responder

    Alguém deveria fazer uma camisa com os dizeres “defesa de monumentos como desejo de distinção”. Eu “sofro” com isso toda vez que digo que acho 100 anos de solidão um porre… quer dizer, ao se referir a um clássico você não pode fazer nada além de prestar reverência; e se você não o faz, é julgado como um imbecil (como aconteceu com o Paulo Coelho). Ridículo isso.

    1. Idelber Avelar Responder

      Também não morro de amores por “Cem Anos de Solidão”, não. Leciono-o, claro, e tento fazer o melhor possível. Mas está longe de ser um livro que integre meu panteão.

  5. Renata Lins (@repimlins) Responder

    E taí um assunto que me desperta vontade de dizer alguma coisa. Porque é isso exato o que vejo: ninguém tá discutindo, de verdade, o que o Paulo Coelho disse. O que se está discutindo, é o direito do Paulo Coelho dizer seja lá o que for sobre o Joyce. Nesse sentido, o texto do blog do Guardian, virulento e venenoso a não mais poder http://www.guardian.co.uk/books/booksblog/2012/aug/08/paulo-coelho-attack-ulysses-insults-readers?newsfeed=true , diz isso e só isso: que Paulo Coelho não tem o direito de falar sobre Joyce. Ora, me poupe.
    Isso sem nem precisar chegar ao que ele disse mesmo (que não foi nem crítica, de verdade, a Joyce, né?) – afinal, não é isso que importa. O que importa é que esse zé-ninguém, esse nouveau-riche da literatura, que ainda por cima é brasileiro, ousou arranhar o mito sagrado Ooooh. Silêncio no salão. Sobrancelhas levantadas.
    A parte do texto sobre literatura me toca muito também. Mas não vou nem comentar, que isso aqui já tá se alongando demais.

  6. Renata Lins (@repimlins) Responder

    (obs: sem vírgula após o 1° “o que se está discutindo”. Apaguei trecho e esqueci de apagar a vírgula.)

  7. Tiago Mesquita Responder

    Idelber, muito legal a sua postagem. Me lembrou o Arte mediana, do Bourdieu.

    Quem se apega a códigos estabelecidos da cultura costuma patinar mesmo. O curioso é que o Joyce, assim como Picasso, assim como Duchamp, assim como Manet, sempre trataram a respeitabilidade da cultura como algo pra se rir. Eu não conheço o Paulo Coelho mas tenho simpatia por boa parte de suas declarações (inclusive a dessacralização do hippismo e da contracultura — que de um momento da história da juventude estão se tornando, infelizmente, um outro totem cultural).

    O engraçado é usar o Joyce como monumento da grandeza e sapiência dessa cultura. Como poucos, ele esteve mais próximo de matar o romance e as formas tradicionais do que manejar esses esquemas como regras imortais. A não ser que os fanáticos da tradição considerem a festa mais animada do mundo um velório.

    Só uma coisa, uma das coisas que a pop art nos ensina é uma relação mais altiva com a vida. O Caetano Veloso (quando o tropicalismo existia) aprendeu isso com ele. O Warhol tem a linda e singela frase: Arte pop é sobre gostar das coisas.

    1. idelberavelar Responder

      “Arte pop é sobre gostar das coisas”. Adoro essa frase. Abração, querido!

  8. João Aguiar/dukrai Responder

    adorava Jorge Amado, só depois fui descobrir que era detestado pela academia. graças a Deus fiquei sabendo antes da sua opinião, da academia, não de Deus, sobre Paulo Coelho e nunca li pra não pagar mico. Agora que tô sabendo que vc lê sem complexos e dá até indicação rs assim que terminar a minha obrigação de leitura de esquerda, “João Goulart” e “Memórias de uma guerra suja” tô pensando em ler O Alquimista, sem ironia.

  9. Tiago Mesquita Responder

    Denise Bottman, muito bom o que você disse. A morte da literatura, e das formas artísticas foi desejada pelos criadores modernos. Aliás, acho que sem esse desejo de morte (metafórico, pelo amor de Gels), o século XX não teria sido o que foi.

  10. Denis Correa Responder

    A mesma situação ocorreu quando Coelho foi aceito na Academia Brasileira de Letras, e houve escárnio da classe média supostamente letrada brasileira. Como se a ABL não fosse algo completamente indiferente a literatura há muitas décadas, com muitos membros sendo políticos e jornalistas influentes. Coelho é um dos caras que mais merece estar lá por ser indiscutivelmente o maior escritor de literatura de massa do mundo. É rasteira, mas é literatura.

    1. Luís Responder

      Aposto que essa mesma classe média letrada que escarneceu a ABL por causa do Paulo Coelho, deve ter reverenciado a mesma quando aceitaram o Merdal Pereira.

  11. THIAGO Responder

    Péssima análise. O problema é o cara dizer que “não há nada ali”. Isso não é desconstruir o romance, isso nem é crítica. Lhe sugiro a leitura de Borges que ta circulando aí sobre o assunto. Sobre as categorias de leitores, no brasil lê-se muita coisa sim. Revistas, colunas sociais, jornais sensacionalistas etc. PAulo Coelho está aí tb. Aliás o brasil consome muita literatura de tipo “auto ajuda” e consome muitos livros sim, procure olhar as estatísticas de crescimentos de vendas. Infelizmente livro aqui ainda é caro.
    Agora, o que falta mais que tudo por aqui é a crítica especializada fora da universidade. Isso sim faz falta, pessoas que debatam livremente e com média circulação acerca das diversas produções culturais e especificamente da literatura.
    Deus me livre de ficar preso a essa quantidade de livros do paulo coelho, vende-se muito muita coisa. É o Mc Donalds literário um mundo de gente come, mas quase todos sabem que é uma porcaria.
    Se nossos críticos que são poucos forem ficar defendendo Paulo Coelho que é um pop star da cultura, aí é nesta que não haverá nada.

    1. idelberavelar Responder

      Você me sugere a leitura de Borges? Puxa, muito obrigado! Vou procurar ler, sim.

      1. THIAGO Responder

        lhe sugiro nada, estas categorias sociológicas aí são péssimas. Servem lá para a Inglaterra, cultura e sua dinâmica tem formas diferenciadas em lugares diferentes, com qualidades diferentes. Essa régua aí já vicia análise. Lhe disse que o Borges tem um texto sobre Joyce. O Paulo Coelho tem um “não há nada ali”. É ridículo alguém defender isso, nem o neto comentando futebol é tão raso.

        1. idelberavelar Responder

          Sério que o Borges tem um texto sobre Joyce? UM? Sério, UM?

          1. Paulo Coelho

            Não ia postar nada, mas como o Avelar já sabe, fica difícil as vezes não participar:

            In a return to the analysis of references in essays and press articles,
            Borges describes Ulysses in his Course of English Literature (1965) as a
            frustrated attempt to “replace its lack of unity for a system of laborious
            and useless symmetries”.21 This severe condemnation of Joyce’s verbal
            excess reappeared in an interview with Richard Burgin, published in
            Conversations with Jorge Luis Borges (1969):
            “Well, by the time it’s read through, you know thousands and
            thousands of circumstances about the characters, but you don’t
            know them. . . . You know, for example . . . that they went twice to
            the men’s room, you know all the books they read, you know their
            exact positions when they are sitting down or standing up, but you
            don’t really know them. It’s as if Joyce had gone over them with a
            microscope or a magnifying glass”

          2. idelberavelar

            Perfeito, Mago! Não me lembrava desta entrevista. Na mosca.

      2. Jampa Responder

        A leitura de Borges que está te faltando, Idelber (risos): http://www.scielo.br/pdf/nec/n77/a08n77.pdf

  12. Branca Albuquerque Responder

    Faço Letras na UFF, e lá, a maioria esmagadora dos professores de literatura não consideram Paulo Coelho como parte integrante da biblioteca básica dos estudantes de Letras, ou melhor, acham uma porcaria. Não acho que podemos chamar essa categoria de “midbrow”.

    1. idelberavelar Responder

      Sim, Branca, eu não me referia ao Paulo Coelho como midbrow, e sim às revistas, livros e leitores de revistas e livros que o desqualificam. Sem dúvida, PC não é midbrow, é popularzão mesmo.

  13. Ananakê Responder

    O texto em questão é, claramente, uma crítica literária apenas. E acredito que o professor não tenha sido muito feliz em usar essa compraração (com a música). Para entender a crítica proposta, a aproximação é válida; mas destacado do contexto original, o trecho aponta para uma defesa vazia das formas musicais mais pobres e hetero-determinadas, uma vez que o cenário artístico musical brasileiro é sim muito desenvolvido (com a presença de inúmeras formas musicais diferentes, tanto populares quanto eruditas), e a própria sociedade brasileira (com relação à música) é muito mais participativa. Resumindo em poucas palavras: paulo coelho pode ter chegado onde nem o Sepultura chegou, como o próprio professor comenta, vendido milhares de livros e contribuído para um possível aumento do público leitor no brasil, mas o funk e luan santana são formas musicais prejudiciais e extremamente daninhas para o cenário artístico (tanto o popular quanto o musical), uma vez que promovem não verdadeiras obras musicais, mas apenas produtos vendáveis da indústria cultural. A crítica a esses artistas (na verdade duvido muito de que eles sejam artistas mesmo) vai muito além de uma possível intenção de se alçar a patamares considerados “eruditos” por parte de leitores ou ouvintes “midbrow”; ela representa, também, o próprio processo (representado mesmo por músicos e ouvintes considerados “eruditos”) através do qual um determinado setor artístico da sociedade tentar se desvencilhar das amarras impostas às obras de arte pela necessidade de lucro incessante.

  14. Susana Souto Responder

    Muito boa a sua análise, inclusive a referência ao programa “Leia mais, seja mais” (nome indefensável sob todos os ângulos possíveis) do MinC, que, de fato, não promove a leitura nem o acesso aos livros, só promove mais do mesmo: os artistas da Globo e a própria ministra, que deveria ler mais as críticas feitas a sua gestão. Gostei bastante também da relação estabelecida por você entre leitura, status e poder, bem como a questão do romance policial. Por que tantos são tão resistentes aos complexos vínculos existentes entre leitura e diversão? Por que a leitura é algo tão sério para a maioria dos especialistas? Algo quase sagrado que não pode ser “corrompido” pelo entretenimento? Mesmo os leitores mais especializados têm momentos de leituras de entretenimento, ainda bem!

  15. charlles campos Responder

    Idelber, também é costume achar que falar sobre a “alta literatura” no Brasil é sempre fruto de impostura e esnobismo. Por que não se pode, da mesmo forma politicamente correta que vc trata aqui em relação à literatura de gênero (que não enquadra o trabalho de Coelho, que, deve-se dizer, é auto-ajuda), falar de Joyce EM DETRIMENTO dos comentários de Coelho? Por que devemos abaixar a cabeça e aceitar incontinente que Coelho, com todo seu incrível aparato midiático, fale sobre Joyce sem que possamos interceder um mínimo sequer? Da mesma forma que vc assinala que muitos são arrebanhados por Coelho, também creio que existam leitores sinceros de Ulisses, que não estejam fazendo pose ao achar um absurdo anedótico os comentários de Coelho. Não se trata de defender Ulisses. Ninguém defende Ulisses, ele está muito bem (também é um best-seller) e prescinde de defesas, ainda mais contra quem: Coelho. Trata-se, sim, de exaltadas conversas de boteco, ou, no mais sério, exaltadas discussões futebolísticas. Por que vc aceita bem disputas discursivas febris entre torcedores de diferentes times de futebol, mas acha que leitores de Ulisses não tem o direito de ver Coelho em sua real dimensão de valor_ acima dos medíocres valores de mercado cultura_, e se indignar contra as coisas que ele diz sobre o romance?

    Eu não acho mesmo que Coelho seja bom em nenhum sentido. Eu o li_ três intermináveis romances_ e ele é triste. É péssimo e eu não consigo mesmo relativizá-lo. Não consigo usar meu eufemismo com Coelho, por mais que eu devesse me calar diante a impressão impactante de sua estatura comercial. Lembro de um ensaio de Joseph Brodski sobre os leitores de sua infância, na Rússia; de como simples pessoas letradas ficavam divididas quanto à apreciação entre Hemingway e Faulkner, a ponto de muitas vezes partirem para a afronta corporal. É louvável que existam pessoas que sejam motivados pela paixão literária de defender ícones da escrita, ícones para os quais dedicam um amor muito mais sólido que a mera empáfia de saírem com eruditos em rodas sociais.

    1. charlles campos Responder

      E outra: essa discussão correu o mundo inteiro; não foi, de maneira alguma, privilégio nacional.

      O milagre não é que Paulo Coelho venda 150 milhões, mas que ainda existam autores de qualidade que vendam muito, como os 5 milhões em todo mundo vendidos de Javier Marías. Há sim uma gradação de gosto. Existem sim elementos reais que tornam o funk carioca um produto de baixíssima qualidade estética e com um conteúdo de toda maneira paupérrimo. Isso não são convenções. Pegue uma cidade toda lendo Paulo Coelho, a título de exemplo, por cinco anos, e outra lendo Thomas Mann ou Tolstói, pelo mesmo período, e meça o nível de desenvolvimento social que irá se apresentar ali. Ler Coelho não é melhora nos índices de leitura, de modo algum.

  16. Cassionei Niches Petry Responder

    Interessante. O mesmo crítico

  17. Cassionei Niches Petry Responder

    Interessante. O mesmo crítico que chamou Cortázar de escritor para adolescentes, agora sai em defesa de quem critica Paulo Coelho.

    1. idelberavelar Responder

      Acho que você errou duas vezes. Quem chamou Cortázar de escritor para adolescentes não fui eu. Foram Tomás Abraham, César Aira, Ricardo Piglia e Beatriz Sarlo. Dê uma guglada aí para ver quem são eles. Eu só apresentei os seus argumentos. E não saí em defesa de quem critica Paulo Coelho. Saí em defesa de Paulo Coelho.

      1. Cassionei Niches Petry Responder

        Por que não respondeu ao Charlles?

        1. Idelber Avelar Responder

          Porque na minha casa eu escolho a quem responder. Centenas de pessoas falam comigo na internet todo dia. Dou-me o direito de responder a quem quero. Ora, só faltava essa.

  18. outro Edson Responder

    Poxa, Idelber. Acho que não entendi o ponto. Paulo Coelho tem todo o direito de meter o pau em Joyce. E todo mundo tem o direito de meter o pau em Paulo Coelho. E você tem o direito de meter o pau em quem meteu o pau em Paulo Coelho. Ou Paulo Coelho está sofrendo algum tipo de censura?

    Por outro lado, a popularidade de Paulo Coelho merece sim uma análise desapaixonada, como esta:

    http://jezebel.uol.com.br/32-provas-de-que-as-maos-de-paulo-coelho-sao-as-grandes-responsaveis-pela-sua-autoconfianca/

    1. idelberavelar Responder

      “Paulo Coelho tem todo o direito de meter o pau em Joyce. E todo mundo tem o direito de meter o pau em Paulo Coelho. E você tem o direito de meter o pau em quem meteu o pau em Paulo Coelho.”

      Pelo jeito você entendeu tudo, sim!

  19. Frederico Bizzotto Responder

    Perfeito, cara. Da mesma forma, tentam minimizar a obra de Caetano Velloso, Wando, etc.
    abçs.

  20. Fernanda Sousa Responder

    Ótimo artigo, Idelber! Muito bacana ver um professor de literatura dizendo isso! Faço Letras na USP e estou tendo aula com um professor que evidencia em todas as aulas seu desprezo pela literatura não canônica, que ele chama de “subliteratura”, o que me deixa muito incomodada. Ele fala muito que determinadas coisas são “coisa de pobre”. É um problema, né? Apesar de aula dele ser boa no que se refere ao conteúdo, acredito que essa postura é prejudicial, ainda mais com tantos alunos que não avaliam criticamente o que ele diz e acham engraçado as piadinhas elitistas que ele faz. Na semana passada, houve um evento sobre LITERATURA E OPRESSÃO na Letras com participação do professor Jaime Ginzburg, e tive a oportunidade de fazer uma fala, na qual expus a ideia de que nós praticamente não estudamos a literatura popular na universidade, como por exemplo a literatura de cordel, limitando-nos apenas ao estudo do cânone. Por que não promover um diálogo entre Patativa e João Cabral? Estudar ambos? Ele gostou bastante do que eu disse e explicou muito bem, de modo parecido como o que você explicou esse desejo de distinção e o consequente desprezo por outras literaturas. Foi muito bom! =]

    Enfim, parabéns pelo artigo, Idelber!

    1. idelberavelar Responder

      Oi, Fernanda, muito feliz com o seu comentário, especialmente pela menção ao meu queridíssimo amigo Jaime. Eu e ele temos visões muito parecidas sobre isso, eu acho. Mande meu abraço a ele!

  21. Vinícius Responder

    Cara, acho que você erra bem aqui: “Onde está, portanto, o escândalo? Em lugar nenhum, a não ser na desesperada tentativa de defender um monumento da alta cultura para, com isso, acumular alguns pontinhos na escala da distinção.” Como se o único objetivo de alguém defender Joyce fosse “ganhar pontinhos”. Por que alguém não pode defender a arte simplesmente por valorizá-la? Um escritor tão influente como Paulo Coelho podia pensar duas vezes antes de proferir absurdos contra uma obra tão importane, porque a opinião dele forma muitas cabeças e é muito repercutida. Tá certo que, como você mostrou, ele acabou acertando, mas ambos sabemos que a intenção não foi essa, antes, foi uma pejorativa. A declaração só fica coerente se lida do avesso. Parece que ele é o escritor mais genial do mundo e se basta, e essa atitude pra mim revela vaidade e um profundo desprezo por toda a tradição anterior a ele. Também tendo a discordar da colocação de Paulo Coelho na categoria de cultura popular. No mundo de hoje não podemos mais nos dar ao luxo de confundir um produto da indústria cultural com a cultura popular espontânea. Em tempo: nunca li Ulysses nem considero que conheça Joyce, porque meu único contato com ele foi com alguns contos de Dubliners, mas garanto que preferia muito mais conversar com um bêbado da sarjeta do que com o esse mago da autoajuda aí, acho que o primeiro teria muito mais sabedoria e humanidade para dar… E pra terminar, talvez o crítico britânico tenha sido um pouco agressivo demais, mas não o culpo. Nosso mundo já é hostil demais à arte. Defender uma obra seminal da tradição literária universal, e tão importante pra sua língua, contra ataques vindos de um escritor (!) pra mim é um direito (e talvez um dever) do crítico.

  22. Bruce Torres Responder

    Na verdade o problema está na graça da coisa: Paulo Coelho criticando James Joyce. Como assim? O pior de tudo é que a crítica é rasa: “[…] é só estilo, não há nada ali”. Como se os romances dele fossem profundos! Ele diz que leu a tradução de Houaiss, mas de ler a entender vai lá uma grande diferença. Já tive colegas que leram “A Revolução dos Bichos” e não conseguiam entender do que a história se tratava, mesmo lendo e relendo – tempos de adolescência, sa-co-mé. A acessibilidade que ele tanto preza na verdade incapacita o leitor de senso crítico pois não instiga, apenas regurgita e entrega. É lugar comum atrás de lugar comum, frase feita atrás de outra. Tudo o que ele diz pode ser encontrado em algum poema ou canção, mesmo ipsis litteris. Dizer que os autores, após Joyce, “hoje querem impressionar seus pares [pela forma]” é outro reducionismo barato pois faz parecer que a literatura é uma arte básica e simples. Pelo contrário, prezando pela originalidade sempre teremos autores procurando incorporar novos recursos para deixar o leitor interessado. Seja uma página em branco em “Tristam Shandy” ou uma série de sinais gráficos em “Brás Cubas”, a experimentação sempre é benvinda. Se ela vai ser compreendida e adotada de bom grado pelo leitor, esses são outros quinhentos, mas geralmente é através de “brincadeiras” como essa que o muro entre a intelectualidade e o popular é derrubado. Como exemplo cito “Beautiful Losers”, uma tentativa do Cohen de brincar com Joyce. É um romance gostoso, apesar de triste, e que faz você se interessar em saber de onde ele tirou tais sacadas.

  23. Bruno Responder

    Olá, Idelber. Gostaria de saber se Ulysses pode ser relacionado ao pensamento do segundo Wittgenstein. Isso, de certo modo, corrobora a sua tese a respeito dessa obra.
    Abração.

    1. Idelber Avelar Responder

      Puxa, Bruno, relacionar Ulysses ao segundo Wittgenstein está um pouquinho além do que é possível fazer, num blog, de improviso, com as limitações do meio. Vou ficar te devendo essa ;-)

  24. Rafael Kalebe Responder

    Achei o texto brilhante !

    Ultimamente tenho revisto conceitos que eu tinha como certo e uma das coisas que mais me intrigavam sempre foi a respeito de Paulo Coelho.
    Cansei de todos esses preconceitos ridículos de pessoas que não sabem muito bem os dois lados e acham interessante essa elitização da leitura.
    Somos parte de um país que não tem o hábito da leitura e aqueles que leem autores ‘populares’ ainda são discriminados …
    Isso me deixa tão irritado, me sinto tão frustrado por essa cultura de mídia e de ‘formadores de opinião’ que repetem sem fim todos os argumentos meia boca que publicam a cada dia …

    Parabéns Pela coragem e qualidade do texto

    Um Abraço
    Rafael Kalebe

    1. Bruno Responder

      Oi, Rafael, e hoje ainda tem uma parcela de cagadores de regras que, além de criticar o Paulo Coelho, criticam o Saramago.

  25. Fiorella Responder

    Sou argentina, mas morei bastante tempo no Brasil. Achei muito acertada essa diferenca que voce marca entre os leitores e o letramento em ambas nacoes. Tambem concordo com que o uso de categorias sociologicas nao deve ser entendido como valoracao moral das pessoas, e ate gostei da sua argumentacao, que nao achei em defesa do Paulo Coelho mesmo, mas em defesa de o direito de opinioes diversas sobre autores classicos e respeitados pelo publico erudito.
    Agora, acho importante destacar que o jazz nao e o funk carioca, e que Borges e Joyce nao sao Coelho. Nao toda musica e nem toda literatura e uma producao cultural de qualidade, mas mesmo assim e respeitavel o publico que a consome.
    Por ultimo acho um pouco metido PC falando desse jeito da obra do Joyce, pois pelo pouco que eu li do autor brasileiro , a literatura dele e muito pobre mesmo. O fato dele ter vendido muito fala do embrutecimento do mundo literario mesmo que do enriquecimento do PC. Triste…
    (me desculpem a falta de acentos, til e c cedilha)

  26. Mauro Abdon Gabriel Responder

    Idelber, brilhante texto. Há muito me irrita como a arrogância ignorante tem espaço no Brasil. Até Merval Pereira elegemos para a ABL. Paulo Coelho tem que ser festejado, como J.K. Rowling e George R.R. Martin o são (deste último espero ansiosamente os dois últimos volumes de Crônicas de Gelo e Fogo). Pessoalmente, dos 3 livros que li do Paulo Coelho, só gostei de O Alquimista, mas respeito muito o sujeito e não espero que ele seja um Camus, que escreveu o livro mais impectante que li, O Estrangeiro. Uso o adjetivo “impactante” não para gastar onda com a literatura mais erudita, mas simplesmente porque me identifiquei demais com o personagem principal do livro, um sujeito com estranhamento perante as emoções e os desejos humanos comumente esperáveis. O modo como esse estranhamento se voltou contra ele me chocou e me marcou muito. Isso é literatura e a arte de modo geral, identificação do seu gosto, do que lhe dá prazer, sem negar o conhecimento acumulado, as novidades, o gosto pela informação. Paulo Coelho é um grande contador de histórias e merece, com louvor, estar na ABL, ao contrário de muitos, muitos outros. O que incomoda esse pessoal que o detrata é, além da ignorância arrogante, provavelmente o fato de ele ter posições critícas, não ser um colonizado mental, não ter abandonado a rebeldia dos tempos com Raul. Vibrei com várias de suas posições, especialmente a feroz crítica que fez ao Comitê Olímpico Brasileiro, de Nuzman, quando este quis contratar Tony Blair como “consultor”. Sem meias palavras, sem medo das reações contrárias aqui ou nas cretinas imprensas européia e americana, chamou o sujeito pelo que ele é, junto com outros, diga-se: criminoso de guerra. Cobrou do Governo brasileiro uma posição, escorado no fato de que tinha vestido a camisa da candidatura do Rio de Janeiro e conseguiu evitar essa boçalidade colonizada. Enfim, um grande sujeito.

    1. Idelber Avelar Responder

      Um grande cara.

  27. Jair Fonseca Responder

    O que o pessoal não entende é que não se trata só de auto-ajuda e literatura barata em Paulo Coelho, reciclador do realismo mágico, não pela realismo, mas pela magia. O cara é mago, camaradas, por mais que se tente colocá-lo como charlatão – literário, inclusive. O parceiro de Raul Seixas ainda terá um reconhecimento que não se limitará ao número de vendagens e traduções de sua obra.
    Quanto a Joyce, outro tipo de bruxo (que não é do Cosme Velho), é o mestre do escolástika do kaos, como escreveu alguém, citado por Lukács.

    1. Idelber Avelar Responder

      Salve, Jair, feliz que gostou do texto. Ando divulgando por aí o evento com você em Floripa. Depois mande notícias. Abração.

      1. Jair Fonseca Responder

        Valeu, idelber!

  28. Guilherme Sobota Responder

    Idelber, não entendi um dos seus argumentos (sem ironia, não entendi mesmo).

    Você diz ali: “Coelho arrasta milhares de pessoas para onde vai. Coelho fez mais pela formação de um público leitor no Brasil que qualquer uma das tolas campanhas do Ministério da Cultura, como esta última – leia mais, seja mais, duplamente errada, já que “ler mais” não garante a ninguém “ser mais”, e leitores não se formam a partir da missão de “ler mais”, mas de ler aquilo de que gostam. A campanha tem a cara de uma Ministra que visivelmente não lê nada e que, portanto, mantém com a leitura uma relação fetichista — mais, mais, mais.”

    A questão é que você defende Coelho pelo mesmo motivo que ataca a campanha do MinC (por tentar fazer as pessoas lerem MAIS). Como um argumento pode ser usado a favor de X e o mesmo argumento contra Y?

    Na verdade, infelizmente o Coelho nasceu no Brasil, porque aí pode-se usar o argumento de os brasileiros o atacam pelo simples de fato de ele mesmo ser brasileiro. Isso é uma falácia, porque se ele fosse alemão, inglês, americano, a crítica seria igual (é só ver a recepção crítica que a mulher do 50 tons de cinza recebeu: não há quem goste, não há, mas é o livro mais vendido em muito tempo).

    Com muito respeito,
    Guilherme.

    1. Idelber Avelar Responder

      Caro Guilherme, acho que há uma diferença, que é a seguinte: a campanha do MinC só fala aos cidadãos para que leiam mais. Mais. Mais. Nada, na campanha, gera leitores, porque para gerar leitores você teria que criar mecanismos que façam com que as pessoas gostem de ler.

      Paulo Coelho é o oposto. A questão para mim não é quantitativa. Ele encontrou um filão que faz com que as pessoas o leiam, genuinamente, porque gostam. Claro, se acontece com 2 milhões de pessoas, em vez de 2 mil, melhor ainda.

      Mas a diferença que eu estabeleci entre o Mago e o MinC não é quantitativa, é qualitativa: ele fez com que pessoas passassem a gostar de ler. Abraços.

  29. Anaximandro Menezes Responder

    Valeu Idelber! Você abriu minha cabeça, vou ter muito o que pensar antes de dormir, abraços!

  30. peri Responder

    Imagino que nem
    o Paulo Coelho leia
    os próprios livros;
    talvez, para ser radical
    em uma época radical
    nem os escreva
    mais (ou menos).
    é essa
    distância abismal
    entre
    autor & obra q menos
    me fascina na literatura
    feita para consumirmos
    nessa vida
    sem tempo (imavagina
    ler joyce a essas horas
    cujos ponteiros não
    retornam jamais.para
    que distinções se a morte
    é igual. no fim o que importa
    no brasil de b minúsculo é
    a literatura
    de im-
    portação.
    se joyce é sinônimo de
    distinção devo devorá-lo
    imediatamente assim como
    fiz com paulo coelho, com o
    texto do idelber & todos
    os comentários … ops!
    arrotei andy warhol.

  31. Guilherme Responder

    Boa ponderação, é sempre interessante colocar as coisas em perspectiva, Idelber. Logo no título do post você traz, de forma mais ou menos implícita, as ideias do Bourdieu sobre os juízos estéticos e seus condicionamentos. Depois, no correr do texto, usa conceitos do Dwight Macdonald, que são bem interessantes mas que estão muito ligados à situação específica da cultura americana dos anos 50 ( e você não deixa de fazer essa ressalva). Uma tentativa de sistematização desses problemas, por aqui, já no âmbito literário propriamente dito, foi o ensaio do José Paulo Paes, no final dos anos 80, se não me engano, em “Por uma literatura brasielra de entretenimento”. Texto curioso e polêmico que teve justamente esse mérito: colocar essas discussões na ordem do dia. Percebo em alguns escritos seus um esboço de pensamento sobre todas essas questões. Sua agenda é bastante carregada, todos sabemos, mas o assunto não valeria, ainda que de maneira mais sintética, pelo menos um post ? Abraço,

    Guilherme

    Guilherme

    1. Idelber Avelar Responder

      Muito boa lembrança, esse texto do Paes! Vou tentar, caro Guilherme, voltar a essa questão. Um abraço.

  32. José Eduardo Responder

    Vai me desculpar, professor, mas Paulo Coelho não dá pra tolerar! Posso até concordar que ele – talvez! – estimule a leitura em sub letrados ou mal letrados. Mas o misticismo de salão que ele vende, que por óbvio rende-lhe gordos dividendo$ principalmente entre emergentes ou imergentes em época de crise do capital (mais uma!), não dá pra deglutir (uma metáfora gastrointestinal cai melhor aqui). Resumindo, prefiro usar minhas retinas já meio gastas em mais uma releitura de Ulisses. É muito mais divertido!
    PS.: A propósito, não leio “coisas” como Folha de SP. Mas como a suposta polêmica que ele criou caiu na rede, bem, tá todo mundo na rede, né?

  33. Mariana Botêlho Responder

    Seu blog é ótimo. Minha descoberta do dia!

    Os textos políticos são excelentes. Já os sobre cultura nem tanto…

    Especificamente sobre este ensaio, devo exercer meu direito de dizer que se trata de retórica sem base na “vida realmente existente” ;) . Ou como diria o infeliz (e não, não adianta vender muito pra deixar de ser um autor infeliz, por razões que você deveria compreender muito bem) que é o PC: “não há nada aqui”.

    Meus parabéns pelas três últimas analises políticas (que tive oportunidade de ler até agora) “Fatos e mitos sobre a luta dos professores federais” ; “Um Congresso que debate ‘cura para gays’: Mais um capítulo da teocracia brasileira” e “Sobre algumas vitórias recentes da luta afro-brasileira” . Me sinto contempladíssima!
    Grande abraço!

  34. Idelber Avelar Responder

    Peço desculpas a todo mundo pela demora na aprovação dos últimos comentários. Me esqueci completamente. A agenda carregou aqui e eu fiquei quase dois dias sem visitar a plataforma de publicação do blog. Sorry indeed.

  35. Ramiro Conceição Responder

    “Paulo Coelho, James Joyce e o ataque aos monumentos como desejo de aparição…”.

    1. Ramiro Conceição Responder

      BESTA CÚBICA
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      Ultimamente, estou a exercitar
      as asas da minha besta cúbica;
      e a lembrar das patas à minha águia.
      Afinal…, existir é entrelaçar talentos.
      .

      BESTA PRESA
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      Prendi minha besta cúbica
      em uma coluna do infinito
      pra que ela… não voasse.

      Na caixa de fósforos,
      armazenei o mar pra
      que ele não secasse.

      Com a libélula surfei o vento
      e a deixei lá, no céu, no varal
      onde pendurado… fica o sol.
      .

      BESTA SOLTA
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      O segredo de todo escritor
      é soltar o burrinho voador.

      Existe invenção pro bem e pro mal
      mas, por favor, nada disso ter a ver
      com esse burrinho… trabalhador.

      A inocência sempre cria.
      A mediocridade malicia.

  36. Ramiro Conceição Responder

    errata: é óbvio que, onde se lê “nada disso ter a ver”, é “nada disso tem a ver”. Grato, pela paciência.

  37. Simy Oliveira Responder

    Se alguém usa Joyce como monumento… eu eu com isso? Ulisses (a obra) não queria isso. Mas não lerei o último livro de Paulo Coelho porque já li Brida, frida (sei lá), O alquimista, e o diário de um mago. Não gostei. Se esse livro dele é MUITO bom como diz o Idelber, ele teve uma iluminação ou “alcançou sua maturidade como escritor”.

  38. Permafrost Responder

    Não entendo quê quer dizer “fez mal ä humanidade”. Pra mim é como se um famoso cantor popular dum país dissesse q uma sinfonia inspirada em temas regionais de outro país fez mal ä música universal. WTF? É realmente não ter entendido NADA. O decidedly middlebrow Paul Rabbit acha q é só seus dentinhos podem roer qqer coisa, não importa em que língua ou em que sotaque, e ESSA é uma característica típica do middlebrow.

    1. Permafrost Responder

      errata: em vez de “acha q é só seus dentinhos”, leia-se “acha q seus dentinhos”.

    2. Idelber Avelar Responder

      O problema é que ele jamais disse “fez mal à humanidade”. Ele disse “fez mal à literatura“.

  39. Permafrost Responder

    “Ele disse ‘fez mal à literatura’.”

    Igualmente, ¿como é q um livro pode “fazer mal” ä literatura? Acho q PCoelho teria q escrever toda uma tese em 10 volumes, em vez de soltar soundbites.

    Além disso, dizer q Ulysses “não tem nada” é sinal de q ele pode não ter entendido, não? PCoelho é traduzível –e evidência disso é seu sucesso internacional em vida; grande parte de Ulysses é intraduzível e grande parte do q é traduzível é opaco à estrangeiros –e evidência disso é q, embora enaltecido pelos compatriotas de JJoyce, o brasileiro PCoelho não vê nada nesse livro.

    No último 16 de julho (o “Bloomsday”) a rádio 4 da BBC produziu uma encenação do Ulysses q durou 8 horas. Alguns anos atrás, uma rádio de Dublin fez uma encenação completa q durou 29 horas. ¿Por quê tanta gente culta se dedicaria tanto à algo q “não tem nada”?

    PCoelho conseguiu roer a pontinha verde da cenoura e emitiu opinião sobre a cenoura toda, bàsicamente.

  40. Emil Responder

    Cada um tem o direito de ler o que quiser, como ele tem de achar que Ulysses ” é só estilo” e “não tem nada ali” mesmo sendo um escritor de obviedades. Mas é bem isso, cada um lendo o que lhe interessa, como há vários outros autores do gênero ou outros autores de best-sellers ganhando os mesmos leitores. Acabou me parecendo que o texto criticou mais a hipocrisia, a pobreza de argumentos ou o “querer ser” da maior parte do povo que costuma criticar o PC do que a própria análise dele da obra do JJ. E achá-lo ruim não é necessariamente se enquadrar nos que querem se distinguir como leitores, como gostar dele não desqualifica alguém. Essa crítica eterna é sempre tão parcial que perde o sentido, como ler também é parcial. Um ”achar sem fim” por trás de um bando de estruturas que atribuem à literatura, que é mais importante do que esse tipo de conflto do “sei mais” ou “não gosto, portanto quem gosta não presta”.


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