A arte da guerra: o poço sem fundo afegão

Os EUA declararam o Afeganistão como o seu “mais importante aliado fora da Otan”, estatuto idêntico ao de Israel. A ocupação do país é um poço sem fundo de recursos todos os dias consumidos pela máquina de guerra

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Os EUA declararam o Afeganistão como o seu “mais importante aliado fora da Otan”, estatuto idêntico ao de Israel. A ocupação do país é um poço sem fundo de recursos todos os dias consumidos pela máquina de guerra

Por Manlio Dinucci, do ODiario.info

Os Estados Unidos conservarão no Afeganistão entre 10 a 30 mil homens (http://www.flickr.com/photos/soldiersmediacenter/)

“É maravilhoso ouvir os pássaros saudar com o seu canto este belo dia aqui em Cabul.” Estas foram as palavras cheias de romantismo com que Hillary Clinton abriu a cerimônia oficial, no meio das árvores do blindado palácio presidencial na capital afegã. Enquanto falava, outros pássaros com listras e estrelas na cauda voavam no céu afegão: os caças F/A 18 que, depois de decolar do porta-aviões Stennis no Mar Arábico, sobrevoavam o Afeganistão.

Uma vez escolhida a sua presa, atacam com mísseis e bombas teleguiados por laser e metralham com o seu canhão de 20mm, que dispara em cada rajada 200 projéteis de urânio empobrecido. Estes aviões, e outros cujo preço ultrapassa os 100 milhões de dólares, custam 20 mil dólares por cada hora de voo: cada missão dura aproximadamente oito horas, o que significa um custo de 150 mil dólares, a que há que acrescentar ainda o custo das armas utilizadas. O ano passado, de acordo com dados oficiais, os aviões EUA/Otan efetuaram 35 mil missões de ataque sobre o Afeganistão. Não é surpreendente que os Estados Unidos, só eles, tenham gastado nesta guerra, até agora, 550 bilhões de dólares. Um poço sem fundo que continuará a dilapidar milhões e milhões de dólares e de euros. Em Cabul, Clinton anunciou uma boa notícia: “Tenho o prazer de anunciar que o presidente Obama designou oficialmente o Afeganistão como o mais importante aliado dos Estados Unidos fora da Otan”. O que quer dizer que este país conseguiu o estatuto que têm Israel e que, na base do “Acordo de Cooperação Estratégica”, os Estados Unidos se comprometem a garantir a sua “segurança”.

Segundo os funcionários da Administração, os Estados Unidos conservarão no Afeganistão entre 10 a 30 mil homens, sobretudo das forças especiais, para além das companhias de militares privadas. E continuarão a utilizar no Afeganistão a sua própria força aérea, inclusive os drones [1] de ataque. O “mais importante aliado fora da Otan” receberá desta organização uma ajuda militar de mais de 4 bilhões de dólares anuais. A Itália, que se comprometeu a pagar 120 milhões anuais, continuará a proporcionar, segundo as palavras do ministro da Defesa Di Paola, “assistência e apoio às forças de segurança afegãs”.

Além disso, o governo afegão receberá, como ficou decidido na conferência de “doadores” de Tóquio, 4 bilhões anuais mais para “exigências civis”. E também nesse campo, “a Itália cumprirá com a sua parte”, declarou Terzi, o ministro das Relações Exteriores. Pela experiência real, cada dólar e cada euro gastos oficialmente em fins civis serão utilizados para reforçar o domínio militar dos EUA/Otan nesse país. País cuja posição geográfica é de primeira importância estratégica para as potências ocidentais e os seus grupos multinacionais, que avançam cada vez mais para Leste, desafiando a Rússia e a China.

Para convencer os cidadãos estadunidenses e europeus, muito sensíveis pelos cortes nos gastos sociais, que convém tirar uns tantos milhões de dólares e de euros dos tesouros públicos para os destinar ao Afeganistão, dizem que servem para melhorar as condições de vida do povo afegão, particularmente das mulheres e crianças. Esta é a fábula que Hillary Clinton explicou, acompanhada pelo trinar dos pequenos passaritos de Cabul e pelo coro de todos os que se aproveitam desta magnanimidade.

Nota do tradutor:
[1] Aviões não tripulados de observação e bombardeamento.

* Colaborador habitual do Il Manifesto

Este texto foi publicado em www.lahaine.org

Tradução de José Paulo Gascão



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