Morre o ativista uruguaio Universindo Díaz

Faleceu ontem (2) o ativista uruguaio e historiador, aos 60 anos, em Montevidéu. Ele foi vítima do chamado "sequestro dos uruguaios", promovido pelas ditaduras brasileira e uruguaia em 1978.

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Faleceu ontem (2) o ativista uruguaio e historiador Universindo Rodríguez Diaz, aos 60 anos, em Montevidéu. Ele sofria de mieloma múltiplo, câncer incurável na medula e deixa um filho de seu casamento com sua ex-esposa Ivonne Trías.

Em 22 de novembro de 1978, Universindo foi uma das vítimas do episódio que ficou conhecido como “sequestro dos uruguaios”. Por meio da Operação Condor, um comando conjunto das ditaduras uruguaia e brasileira sequestrou Díaz e sua companheira Lilián Celiberti, além dos dois filhos dela; um com sete e outro com três anos de idade, na cidade de Porto Alegre. O casal foi interrogado e torturado, para depois ser conduzido de forma clandestina ao Uruguai.

Releia abaixo uma entrevista realizada por Virgílio de Mattos para a edição 101 de Fórum, na qual ele conta sua história de resistência contra o autoritarismo vigente na América do Sul nos anos 1970.

Estamos todos bem
A trajetória do militante uruguaio Universindo Rodríguez Díaz mostra como a Operação Condor agiu no Brasil durante o regime militar.

Por Virgílio de Mattos

Foi com a frase do título desta matéria que começou a conversa com Universindo Rodríguez Díaz, o historiador que é história, em um café em frente à Universidad de La República, em Montevidéu, quando lhe perguntei como estavam todas as vítimas do que ficou conhecido como “o sequestro dos uruguaios”. Em 22 de novembro de 1978, um comando conjunto das ditaduras uruguaia e brasileira, composto por militares uruguaios e policiais brasileiros sequestrou Díaz e sua companheira Lilián Celiberti, além dos dois filhos dela. Camilo, então com sete anos de idade, e Francesca, com três, foram pegos em Porto Alegre e mandados ilegalmente para o Uruguai naquele triste domingo.

Ele se dispôs a nos conceder a entrevista mesmo diante da perda de um parente querido e próximo. E chega se desculpando por um pequeno atraso, ainda dentro da “margem de segurança” para esperá-lo, mas sempre um problema para quem viveu muito tempo na clandestinidade. Atrasos custavam caro à época; às vezes, a própria vida. Na prática, não é um homem de atrasos, em nenhum sentido. Olha para o futuro e fala, sobretudo, para aqueles que tiveram a sorte de não viver naqueles tempos sombrios, em que ser preso não significava processo, condenação ou absolvição, mas sim tortura brutal e, em muitos casos, morte.

Dono de uma fina capacidade de análise de conjuntura, e uma tranquilidade invejáveis, Universindo apresenta de forma clara e bem humorada o seu percurso desde o sequestro. É um vencedor. Obviamente venceu não só ao sobreviver, mas por ter resistido e continuado na resistência. Leia abaixo trechos da entrevista.

Fórum – Gostaria de perguntar sobre suas origens, sua formação escolar e familiar, sua militância…

Universindo Rodríguez Díaz – Venho de um departamento (equivalente a um estado federativo) do interior do Uruguai, Artigas, uma zona rural que faz fronteira com o estado do Rio Grande do Sul. Uma zona de gado, historicamente um lugar de muita influência dos partidos tradicionais e conservadores do Uruguai, e eu sou de uma família de trabalhadores rurais, meus pais eram trabalhadores ali. Meu pai trabalhava nos canaviais de Artigas e militava no Partido Colorado “Batlttista (de José Batle Ordeñoz)”, que tinha uma posição social-democrata, digamos. Fiz o liceo (equivalente ao nosso ensino médio) e fui para o Departamento de Salto fazer o preparatório (pré-vestibular) para a universidade. Éramos muitos filhos, sete irmãos, e nos anos 1970, vim para Montevidéu fazer a Faculdade de Medicina.

Eu estava muito disposto e decidido a ajudar a mudar as coisas, no Uruguai e no mundo, a fazer uma mudança radical. Nosso objetivo era a luta pelo socialismo e pela liberdade. Depois, militei nesse tempo na Faculdade de Medicina e na Federação de Estudantes Universitários do Uruguai. É preciso explicar que no Uruguai, ao contrário de muitos outros países da América Latina, há um movimento sindical unificado, com organização orgânica e programática que vem desde a década de 1960, quando a Convenção Nacional dos Trabalhadores, CNT, foi firmada como central única nacional. E sempre houve uma vinculação muito grande, orgânica e afetiva, entre os movimentos estudantis, os movimentos cooperativos, com um movimento sindical classista, solidário e internacionalista. Não com os pelegos, os amarillos (risos).

Quando aconteceu o golpe de Estado no Uruguai, em junho de 1973, um golpe previsível, porque havia um bom tempo os militares vinham tendo êxito no combate militar à guerrilha, fundamentalmente contra o Movimento de Libertação Nacional (MLN), embora houvesse outros grupos guerrilheiros também. Os militares começaram a ter uma grande participação na cena política nacional, deram o golpe rompendo uma larga tradição anterior de civismo, e a CNT, que já havia estudado os acontecimentos do golpe militar brasileiro, em 1964, havia decidido, junto com os movimentos sindical e estudantil, que a melhor forma de enfrentamento a um golpe de estado era a greve geral. Podemos dizer que desde 1964 o movimento sindical uruguaio se preparou para enfrentar um golpe militar com a greve geral.

O movimento estudantil, cujo núcleo era a Federação dos Estudantes Universitários do Uruguai, encampou essa luta e ocupamos as faculdades, respaldando a luta dos trabalhadores. Fomos para as ruas e, durante duas semanas, houve uma coisa fantástica, que acredito ser a melhor experiência de luta dos trabalhadores e do povo uruguaio, que foi responder a um golpe de maneira organizada durante duas semanas, com ocupação dos locais de trabalho, dos centros de estudo e, quando os militares nos desalojaram, reocupamos. Até que, como se viu que não havia força suficiente para golpear a ditadura, suspendeu-se a greve geral e passamos a outras formas de luta dentro e fora do país. A partir desse momento, se desencadeou, ou melhor, se desenvolveu ainda mais a grande repressão que já se sentia contra os trabalhadores e contra todos os setores da oposição. Milhares de uruguaios foram para os cárceres; outros milhares foram para o exílio na América Latina ou na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá.

Fui um dos que em 1975 tiveram que sair do Uruguai. Fui primeiro para a Argentina, já estávamos organizados e me incorporei à resistência uruguaia no exílio em apoio à resistência no interior do país, e participo da fundação do Partido pela Vitória do Povo (PVP), em 1975. Depois houve o golpe de Estado na Argentina, em março de 1976. Então houve uma escalada repressiva imperialista, promovida pelos estadunidenses com a participação da CIA, para a desestabilização e eliminação de todos os regimes progressistas e democráticos e combate à oposição na América Latina. No marco da chamada doutrina de segurança nacional, como se chamava àquela época e que hoje em dia se conhece como Plano Condor. Naqueles tempos, não falávamos de Plano Condor, mas sim de doutrina de segurança nacional, que era a coordenação das ditaduras, de todos os regimes autoritários de toda a América Latina, liderados, apoiados, fomentados e estimulados pelos Estados Unidos, isso está claro. Nessa época, fui para a Suécia, em 1977, como refugiado das Nações Unidas…

Fórum – Naquela época, boa parte da juventude militante esteve, de certa maneira, no exílio… 

Universindo – Sim, um percentual grande, não digo todos… De certo modo, um número importante foi por pressão ou passaram à clandestinidade. Mas, como eu dizia, era um exílio muito militante e se criaram dezenas de comitês, em cada cidade havia um comitê de ajuda aos uruguaios no exílio, de solidariedade ao povo do país, denunciando as torturas, as violações aos direitos humanos, os desaparecimentos, as mortes… E também denunciando a proposta econômica, política, social e institucional da ditadura, pois o objetivo da ditadura e dos imperialistas era processar um ajuste econômico e social para implantar uma realidade diametralmente diferente do modelo daquele proposto por nós, que lutávamos por um ideal muito diferente, que era exatamente fazer derrotar o capitalismo e a dependência do capital financeiro internacional, pois estes eram os grandes favorecidos.

Os suecos ofereceram oportunidade de me fixar ali para continuar a estudar Medicina, estava no quarto ano, e é bom que se diga que os suecos se portaram muito bem com todos nós, uruguaios e latino-americanos. Era uma boa possibilidade e muitos companheiros escolheram ficar e eu, nesse contexto pensei: está bem, mas o mais importante é apoiar a luta que, em condições dificílimas, está se desenvolvendo no Uruguai, e vimos a possibilidade, juntamente com outros companheiros do PVP, de nos aproximarmos mais do Uruguai e entendemos que, naquele momento, um lugar onde se estava desenvolvendo um processo muito importante era exatamente o Brasil. Porque, diferentemente dos outros onde as ditaduras estavam…

Fórum – Praticamente começando…

Universindo – Exatamente. No Brasil ela estava sendo desmontada… Existia um clima interessante e seria importante nos vincularmos àquele movimento de uma frente ampla democrática que fazia frente à ditadura. Chegamos ao Brasil em 1978. Estivemos no Rio, passamos por São Paulo e fomos para Porto Alegre. Fizemos contatos com as organizações religiosas, que eram muito atuantes, com certos setores de imprensa, com advogados, sindicalistas… Naquela época, os sindicalistas, os metalúrgicos, liderados por Lula, estavam travando uma grande luta.

Em Porto Alegre, fizemos o caminho inverso: tratávamos de nos integrar e não de estar na clandestinidade. Íamos aos jogos de futebol, ao teatro, nos vinculamos ao pessoal da imprensa, dos movimentos populares… Enquanto isso, no Uruguai a repressão, os serviços de inteligência continuavam atuando com toda força, havia uma coordenação repressiva e os serviços de informação detectaram nossa presença no Brasil e montaram uma operação binacional para agarrar os uruguaios que estariam dando alento à luta no interior do país e denunciando o que se passava.

Tivemos o azar de nos agarrarem. Tinham prendido alguns companheiros aqui no Uruguai e depois vieram ao Brasil militares da companhia de contra-informações do exército, onde contavam com a cooperação do exército e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Nos prenderam num domingo, 12 de novembro de 1978, no momento em que eu saía para assistir a uma partida de futebol, do Internacional, no estádio Beira Rio. Eu ia com os filhos de Lilián: Camilo, que tinha sete anos e Francesca, de três. Aí apareceu o delegado Pedro Seelig, do DOPS, muito conhecido no Brasil, com mais de vinte homens armados, vestidos à paisana, com os oficiais, o então capitão Yuannone  e outro oficial do exército uruguaio. Eles já haviam prendido Lilián, um pouco antes, na rodoviária de Porto Alegre, onde ela esperava uma comissão de familiares de desaparecidos uruguaios e a levaram para o DOPS.

Quando me prenderam, disse aos militares que tinha percebido que eram uruguaios e que, como o lugar era um bloco de edifícios de apartamentos, não gritaria para a vizinhança que estava sendo sequestrado se eles me garantissem que entregariam as crianças de Lilián para uma vizinha.  Eles conversaram entre si um momento e me disseram que sim. Fomos caminhando, entregamos as crianças e aí me levaram, vendado, encapuzado, algemado, até as dependências do DOPS, onde nos torturaram, tanto os uruguaios, quanto os brasileiros, alternada e conjuntamente. Começamos a ser torturados no domingo, por volta das duas horas da tarde e nos torturaram até meia-noite, com choques elétricos, pancadas, pau de arara. Depois que nos penduraram no pau de arara e jogaram água fria, recomeçam os choques elétricos e nos fizeram basicamente quatro perguntas: primeira, onde estava o resto dos uruguaios que estavam conosco no Brasil; segunda, quem eram nossos contatos no Uruguai; terceira, quem eram nossos contatos na Europa; e, quarta, quem eram os brasileiros a quem estávamos vinculados.

Nos torturaram muito. Utilizando as técnicas mais “avançadas” daquela época, para que a pessoa diga coisas que permitam que eles agarrem a outros e sigam a cadeia de prisões, torturas, perseguições, para desmobilizar, desmoralizar a luta. Hoje podemos dizer que, sobre as coisas que nos perguntaram, não dissemos nada. Haviam caído dez companheiros aqui antes.

Fórum – E como conseguiram isso, sob as brutais condições de tortura?

Universindo – Porque estávamos convencidos de que naquele momento a melhor forma de ajudar a luta revolucionária era o silêncio. Nós havíamos mentalizado isso, estávamos preparados para uma eventual queda. Sabíamos que naqueles tempos terminar preso era mais do que uma possibilidade. E que, caindo presos, estar sob as mais brutais torturas era uma certeza. Era preciso estar convencido do porquê de lutar; tentar estar com o ânimo sereno, confiante, para poder suportar com dignidade e silêncio as torturas. Hoje em dia, as gerações atuais não podem sequer imaginar o que seja um dia de tortura.

Alguns dizem: ah, a tortura… Mas era necessário que se lhes explicasse o que é a tortura. O tipo de clima que os caras criam para isolar o preso, para que se sinta só, nu, indefeso… Eles fazem “ofertas” para tirar você daquele sofrimento: “Fala logo, deixa disso”. “Nós garantimos que não vamos deixar que ninguém saiba o que você disse” (…) Depois que saímos, na semana seguinte iria haver eleições no Brasil e foi eleito o presidente João Batista Figueiredo…

Fórum – Muito mais “escolhido” do que propriamente eleito…

Universindo – Então tá, “escolhido”. Dizíamos aos brasileiros que se tinham alguma coisa de que nos acusar, que nos detivessem no Brasil, mas que não nos levassem para o Uruguai. Mas finalmente a pressão da ditadura, dos militares uruguaios, fez com que os brasileiros do DOPS cooperassem com eles e nos trouxessem para o Uruguai, onde seguiram nos torturando até que, finalmente, fomos processados e condenados a cinco anos, dos quais estivemos, juntamente com Lilián Celiberti, por um ano e meio, no 13º Batalhão de Infantaria, sob condições de alta segurança, incomunicáveis, em um calabouço.

Durante grande parte desse tempo, tínhamos apenas três minutos por dia para ir ao banheiro, três vezes ao dia.  Às seis da manhã, à uma da tarde e às nove da noite. E submetidos permanentemente a perseguições, a interrogatórios, à tortura dos militares do 13º Batalhão de Infantaria que era o principal quartel da ditadura e dos serviços de inteligência. Depois, em 1980, levaram Lilián ao Punta de Rieles, onde se localizava a penitenciária feminina, e a mim para o Libertad, a principal penitenciária masculina.

E quando saímos, em 1983, fomos processados por entrar no país com documentos falsos, acusações falsas, como se nós tivéssemos sido presos por isso.

Fórum – No Uruguai…

Universindo – No Uruguai, e não no Brasil… E quando saímos em 1983 denunciamos que fomos sequestrados e deportados ilegalmente. Que fomos sequestrados por uma operação conjunta.

Fórum – Depois de cumprirem as penas como vocês saem? O Uruguai ainda não havia saído da ditadura e vocês saíam da prisão.

Universindo – Estávamos presos e contávamos com as informações dos familiares sobre o que estava se passando, não só no Uruguai, como na América Latina. Todo o processo de luta. Estávamos muito atentos a isso tudo. Sabíamos que havia milhares e milhares de estudantes e trabalhadores nas ruas, lutando por uma anistia, pela liberdade de todos os presos políticos, pela volta dos exilados, pela saída dos militares do poder e pelo fim da ditadura. Em particular, em 1983, existiam milhares e milhares de estudantes, de trabalhadores, todo tipo de gente, de gente comum, nas ruas de todo o Uruguai lutando pela anistia geral e irrestrita. Foi um momento de auge da luta, foi muito bom.

Quando saímos, percebemos de cara isso ao conversar com as pessoas, com os familiares, com os amigos… Víamos as manifestações de rua, as mobilizações mesmo ainda estando sob a ditadura, isso foi impressionante, a quantidade de jovens, a força, o entusiasmo. Saímos em 21 de novembro de 1983 e, em 27 de novembro de 1983, houve uma manifestação impressionante no Obelisco, com 400 mil pessoas por um Uruguai sem exclusões e sem ditadura. Foi impressionante, isso (…)

Passado isso, vieram as liberdades democráticas, mas não ainda a democracia plena. Em 1986 saiu uma lei de caducidade da pretensão punitiva dos torturadores a serviço do Estado, o que nós conhecemos popularmente com “Lei de Impunidade”. Desde aquela época, lamentavelmente, os militares responsáveis, participantes do nosso sequestro em Porto Alegre, estão vivos, mas não foram julgados por isso.

Fórum – Não há nenhum torturador na cadeia?

Universindo – Não. Não há nenhum…

Fórum – Nem por outro motivo?

Universindo – Não, porque todos que foram processados foi porque se entendeu que estavam excluídos da “Lei de Caducidade”, foram processados por homicídios, e como nós estamos vivos… Por isso essa luta permanente no Uruguai para tentarmos revogar a “Lei de Caducidade.”

Fórum – Finalmente, o Universindo de hoje faz o quê? O que pensa? Continua pensando como o jovem Universindo de trinta anos atrás?

Universindo – No Brasil, sou Universindo Diaz. Aqui sou Universindo Rodríguez D



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